Morreu. Caralho, morreu mesmo. E agora? Morreu. Não pode falar de
política hoje. Ou pode? Não pode. Pode. Não pode. Ih, já falaram. Acabei
falando também. Tão reclamando de quem tá falando. E de quem não tá.
Reclamei de quem tava reclamando. Vai, finge que tá consternado. Não, eu
tô mesmo. Ó lá, agora tão falando que ela vai assumir. Ela quem, a
esposa? Não, a vice? Não são a mesma pessoa? Não. Já tem gente falando
da campanha na tevê. Que horror, não têm respeito? O próprio partido tá
pesquisando já. Ih, já tem um monte de texto falando que ele não era meu
candidato, mas que lamento muito, etc. e tal. Um montão? Todos mais ou
menos iguais. Ah, deixa eles. Liga a tevê que já é o velório. Liguei, liguei. Olha
quanta gente. Tão chorando. Tão tirando foto. Tem imprensa, tem
político. Que horror, olha a candidata empoleirada no caixão. Nem
respeita a viúva. Não é ela ali do lado? Eita, ela mesma. Família toda
usando camisetas. Tão distribuindo bandeiras ali no canto, olha. Pode
dar risada em velório? Não, né. Não? Ah, só um pouco. Não pode parecer
muito feliz. O morto acha ruim? Acho que ele não acha nada, né. Mas a
pessoa fica falada. Viu um monte de gente reclamando, tem um monte de
texto. Tudo igual. Tudo igual. Na verdade metade falando que pode rir,
metade falando que não pode. Faz um reclamando de quem tá reclamando de
quem tá reclamando então. Ah, agora já enterraram. Sete palmos de opinião em cima do cara.
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
terça-feira, 12 de agosto de 2014
Siempre igual: los que no pueden más se van.
“How many like him
Are there still
Who to us all
Seem to have lost the will
They lie in thousands
Lank and lost
Is nothing worth this bitter cost.”
(Judas Priest, Beyond The Realms Of Death)
Robin Williams. Antes dele Fausto Fanti. Antes, Champignon e Tony Scott, além de Chorão e Philip Seymour Hoffman, de certa forma (na chamada ‘existência tóxica’, deliberadamente autodestrutiva). E tantos outros, famosos & anônimos, antes, durante e, certamente, depois. Quase todo mundo tem caso de suicídio (ou tentativa de) na família ou entre os amigos, a maioria das pessoas já pensou em tirar a própria vida em algum momento.
E as reportagens ocas são sempre iguais, as teorias das pessoas sempre as mesmas. Enquanto o suicídio for tratado como tabu pela imprensa – que evita tocar no assunto por medo de incentivá-lo –, continuaremos fazendo questionamentos tolos como “nossa, mas ele tinha tudo” ou “mas por que ele não procurou os amigos”, resumir o problema, que é de saúde pública, à falta de dinheiro, deuses, companhia. Pessoas com depressão, com ou sem vícios, precisam de tratamento psiquiátrico e psicológico. Todo o resto é papo-furado de quem fala sem conhecer nem entender.
E, ao contrário do que se costuma dizer, não creio que estejamos mais doentes. Mesmo com as agruras e neuroses da vida (pós-)moderna, e com o excesso de diagnósticos e medicamente, creio que os erros e abusos não superem o tanto de gente que possa se tratar hoje, e que não podia antigamente. As pessoas sempre se mataram, em todas as sociedades em todas as épocas. Cometendo o delito de citar a mim mesmo (texto de 2005):
“Artistas, governantes, índios, cidadãos, jovens, idosos, doentes, sãos, alcoólatras, esquizofrênicos, ricos, pobres, crentes e descrentes, todos se matavam. Ateus se matavam mais do que crentes. Homens se matavam mais do que mulheres. Adultos se matavam mais do que crianças. Brancos se matavam mais do que negros. Pobres se matavam mais do que ricos. Esquimós doentes se afastavam da família e deixavam-se morrer. Astecas se ofereciam em sacrifício aos deuses. Em Uganda, as mães se matavam caso os filhos morressem. Na China, muitos soldados se matavam antes da batalha, para que suas almas lutassem com o exército. Samurais e soldados japoneses se matavam. Nativos da América atiravam-se do alto de penhascos para não serem capturados pelos espanhóis. Escravos africanos enforcavam-se nos porões dos navios negreiros. Os primeiros cristãos deixavam-se prender nas perseguições. Na Bíblia, Saul, Abimeleque, Judas, Aquitofel e Sansão cometeram suicídio.”
Este texto é mais um desabafo do que reflexão sobre o tema. Mais uma vez, é a tentativa de tradução de uma perplexidade, de um desânimo de quem vê e lê sempre as mesmas digressões vazias, enquanto os mortos vão se empilhando, e marcando gerações familiares e grandes círculos de amigos com imensos traumas, manchas escuríssimas que não raro façam que o ato extremo se repita com as pessoas próximas aos que já deram cabo da própria vida.
Precisamos urgentemente tirar esses cadáveres debaixo do tapete, discutir o problema a sério, encará-lo de frente, como a única grande questão filosófica de nosso tempo, como disse Camus. Ou nossos entes queridos continuarão a se matar, e nós continuaremos sem entender.
“O suicídio foi construído durante toda a vida do indivíduo, nos seus grupos de pertencimento – a família, a escola, o trabalho, etc. – embora no final caracterize um momento psicótico, isto é, o indivíduo percebe-se como outro e outro sem significado. Portanto é no indivíduo e fora dele que vamos buscar as razões dessa desrazão. E talvez seja por isso que o suicídio abale tanto as pessoas próximas do indivíduo que cometeu o ato. É como se esse ato denunciasse o fracasso do investimento social que foi feito nesse indivíduo, que nega de modo radical tudo isso e aponta o fracasso de seus grupos.”
(Eduardo Kalina e Santiago Kovadloff, As Cerimônias Da Destruição)
segunda-feira, 14 de julho de 2014
Olhando para a bola, eu vejo o Sol
Eu sempre soube que a Copa seria demais, que seria um sucesso, e poucas vezes fiquei tão feliz por estar certo desde o início. Jamais escorreguei no chorume despejado pela imprensa (e pelos comentaristas de portal) de que o evento seria uma hecatombe, ou na conversa dos amigos cabisbaixos que achavam que ‘não haveria clima’.
Afinal, mesmo com os desmandos da Fifa, e certas posturas altamente questionáveis do governo brasileiro, eu amo futebol, amo Copa, e não havia a menor possibilidade de eu não achar o máximo tudo isso. Tinha certeza de que, assim que as seleções e os turistas começassem a chegar, os tais ventos copeiros soprariam por estas paragens.
E assim foi: não houve quem não se empolgasse quando esse pessoal chegou. E gente que normalmente só reclama de futebol, e se acha politizadíssimo porque não gosta do nobre esporte bretão, que julgam alienante, lá estavam gritando pelo Neymar, O Júnior.
Até o Fuleco foi libertado da injusta birra que o povo tinha com ele e tornou-se, aos olhos de todos, o que ele é: um mascote muito do maneiro (pena que apareceu tão pouco), e provavelmente o mais simpático desde Pique, a pimenta mexicana de 1986.
Não fui a nenhum jogo: quando havia ingresso, eu não tinha dinheiro, e quando havia dinheiro, não tinha mais ingresso. Vi jogos na tevê de casa, dos amigos ou do trabalho, ouvi alguns pelo rádio quando em trânsito, e descobri na Fan Fest (exceto em jogos do Brasil) um espaço seguro e democrático, com cerveja meio cara, porém bem gelada, em pleno Centrão de São Paulo, para ver os jogos, zoar, cantar e se divertir com turistas de toda parte e paulistanos dando uma escapulida do serviço no horário de almoço (ou passando lá após o expediente).
Falando em turistas, em gringos, estes foram um caso à parte: paulista já se sente meio caipira nessas situações porque, ao contrário do Rio de Janeiro, nosso turismo é essencialmente de negócios (creio que isso vai mudar depois dessa Copa); para mim, cujas experiências internacionais se resumem a Ciudad del Este, Puerto Iguazú e Osasco, ver gente de tantos países, da Índia ao Canadá, passando por Marrocos, Irlanda e Venezuela, além de representantes de todos os países participantes do torneio, os passeios foram algo entre a cantina de Mos Eisley e a Ilha da Fantasia (pacote completo,com Montalbán e Villechaize).
E o brasileiro (mesmo com as rusgas, justas e injustas, com os argentinos) reconheceu nos torcedores-turistas latinos a proximidade latina, se reconheceu naquelas pessoas, viu que não somos uma ilha por acaso no meio do Mercosul. E mesmo os aparentemente tão diferentes, como os americanos e ingleses, também beberam, torceram e se divertiram.
Descobriu-se, que, no final das contas, era irrelevante se a seleção brasileira era uma porcaria: havia outras 31 escretes para nos proporcionar um monte de jogos épicos e algumas peladas divertidas. Foi a Copa do meme, do chiste, o auge do nosso humor autodepreciativo que se equilibra tropegamente entre o vira-latismo e o pachequismo.
E isso contagiou todas as equipes (exceto a nossa, que preferiu chorar por qualquer coisa), sobretudo a campeoníssima Alemanha. Tivemos de Drogba encontrando seu ‘afilhado’ Drogbinha a jogador de Camarões fugindo da concentração para ir ao Mc Donald’s, passando pelos holandeses caírem na farra e numa noite e só voltarem às onze da manhã do dia seguinte.
Não éramos simplesmente o país do futebol (nem acho que somos, na verdade). Mas o futebol era o mundo (o mundo era o futebol), e era aqui. E não há protesto, oposição, articulista mal humorado ou técnico estúpido que nos tire isso. Teve razão quem foi feliz.
Afinal, mesmo com os desmandos da Fifa, e certas posturas altamente questionáveis do governo brasileiro, eu amo futebol, amo Copa, e não havia a menor possibilidade de eu não achar o máximo tudo isso. Tinha certeza de que, assim que as seleções e os turistas começassem a chegar, os tais ventos copeiros soprariam por estas paragens.
E assim foi: não houve quem não se empolgasse quando esse pessoal chegou. E gente que normalmente só reclama de futebol, e se acha politizadíssimo porque não gosta do nobre esporte bretão, que julgam alienante, lá estavam gritando pelo Neymar, O Júnior.
Até o Fuleco foi libertado da injusta birra que o povo tinha com ele e tornou-se, aos olhos de todos, o que ele é: um mascote muito do maneiro (pena que apareceu tão pouco), e provavelmente o mais simpático desde Pique, a pimenta mexicana de 1986.
Não fui a nenhum jogo: quando havia ingresso, eu não tinha dinheiro, e quando havia dinheiro, não tinha mais ingresso. Vi jogos na tevê de casa, dos amigos ou do trabalho, ouvi alguns pelo rádio quando em trânsito, e descobri na Fan Fest (exceto em jogos do Brasil) um espaço seguro e democrático, com cerveja meio cara, porém bem gelada, em pleno Centrão de São Paulo, para ver os jogos, zoar, cantar e se divertir com turistas de toda parte e paulistanos dando uma escapulida do serviço no horário de almoço (ou passando lá após o expediente).
Falando em turistas, em gringos, estes foram um caso à parte: paulista já se sente meio caipira nessas situações porque, ao contrário do Rio de Janeiro, nosso turismo é essencialmente de negócios (creio que isso vai mudar depois dessa Copa); para mim, cujas experiências internacionais se resumem a Ciudad del Este, Puerto Iguazú e Osasco, ver gente de tantos países, da Índia ao Canadá, passando por Marrocos, Irlanda e Venezuela, além de representantes de todos os países participantes do torneio, os passeios foram algo entre a cantina de Mos Eisley e a Ilha da Fantasia (pacote completo,com Montalbán e Villechaize).
E o brasileiro (mesmo com as rusgas, justas e injustas, com os argentinos) reconheceu nos torcedores-turistas latinos a proximidade latina, se reconheceu naquelas pessoas, viu que não somos uma ilha por acaso no meio do Mercosul. E mesmo os aparentemente tão diferentes, como os americanos e ingleses, também beberam, torceram e se divertiram.
Descobriu-se, que, no final das contas, era irrelevante se a seleção brasileira era uma porcaria: havia outras 31 escretes para nos proporcionar um monte de jogos épicos e algumas peladas divertidas. Foi a Copa do meme, do chiste, o auge do nosso humor autodepreciativo que se equilibra tropegamente entre o vira-latismo e o pachequismo.
E isso contagiou todas as equipes (exceto a nossa, que preferiu chorar por qualquer coisa), sobretudo a campeoníssima Alemanha. Tivemos de Drogba encontrando seu ‘afilhado’ Drogbinha a jogador de Camarões fugindo da concentração para ir ao Mc Donald’s, passando pelos holandeses caírem na farra e numa noite e só voltarem às onze da manhã do dia seguinte.
Não éramos simplesmente o país do futebol (nem acho que somos, na verdade). Mas o futebol era o mundo (o mundo era o futebol), e era aqui. E não há protesto, oposição, articulista mal humorado ou técnico estúpido que nos tire isso. Teve razão quem foi feliz.
quarta-feira, 11 de junho de 2014
Last Cup Of Sorrow
Quer
torcer pelo Brasil porque ama a seleção, porque se sente obrigado a torcer,
porque a Copa desperta seu patriotismo ou ufanismo, porque acha o Fred transão
e o Hulk bundudo, para ficar duas semanas seguidas só enchendo a cara sem ir
trabalhar, ou porque ora bolas a gente precisa ganhar alguma porra de Copa em
casa?, pode.
Quer
torcer contra o Brasil porque acha o Felipão, o time e a CBF um bando de
cretinos, incluindo o frangueiro do Júlio César e o segunda divisão do
Henrique? Ou simplesmente porque acha que ela não te representa, que você não é
obrigado a se identificar com ela, ainda mais com esse bando de gente do qual
você nunca ouvir falar, como Maxwell e Fernandinho? Tá liberado.
Quer
torcer pela Argentina porque gosta do futebol deles, por causa do Messi ou só
para sacanear o Brasil? É são-paulino e quer torcer pelo Uruguai por causa do
Lugano, ou palmeirense-chileno por causa do Valdívia? Vai torcer pela
Inglaterra porque curte a Premier League, Itália porque é descendente de
italianos, ou Holanda porque gosta da cor laranja? Pode também.
Quer
torcer pela Rússia por saudades da União Soviética, pelo Irã porque simpatiza
com os fraquinhos, por Camarões porque acha o Eto’o maneiro ou por Costa do
Marfim porque achou o nome em francês chique? Claro que pode.
Quer
ver todos os jogos simplesmente porque gosta de futebol, torcendo por gringos
pagando mico (já está rolando, inclusive), ‘cenas lamentáveis’, cachorro
invadindo campo e disputas dramáticas de pênaltis? Estamos nessa.
Pode
ser o fanático que sabe de cor a escalação da Bélgica e todas as participações
sul-coreanas na Copa, ou aquele torcedor ocasional ‘quatro anos’ que não
reconhece um impedimento nem se apanhar com ele.
Quer
protestar durante a Copa por tantos desmandos da Fifa e incompetências
governamentais, ignorá-la porque não liga (ou por birra) e ficar só de boa nos
feriados e fingimentos de expediente? Tá no seu direito.
Só
não pode torcer para as coisas darem errado, nem cagar regra sobre como ou para
quem os amiguinhos estão curtindo a Copa, porque aí a Jules Rimet da babaquice
será toda sua.
Nem
tanto a pachequismo, nem tanto ao vira-latismo, abre logo essa cerveja porque é
Copa do Mundo, meu amigo. Não tem time bobo e é só jogo dramático (mentira, tem
um monte de time paia e vai ter uns jogos bem chatos, mas enfim). Vai ser na
Zona Leste, só isso já é incrível. E o mascote é um tatu, e ele é uma bola, é
eu mal posso esperar pelas 17h da quinta-feira. Aliás, essa Copa nem começou e
eu já estou ansioso pela próxima que tiver no Brasil.
E
nós, que ficamos tanto tempo preocupados com o que os gringos iam pensar de
nós, os vemos indo à praia tomar caldo e jogar frescobol, comprar paçoca-rolha
no shopping, vestir cocar e andar de escuna, adotar cachorro e jogar capoeira,
falar do Obina e visitar o Drogbinha. A Copa nem começou e já está tendo muita
Copa.
Vai dar certo (errado), como em toda Copa. Vai ter surpresa boa e contratempo ruim, como em toda Copa. E vamos nos divertir, como em nenhuma outra Copa.
Vai dar certo (errado), como em toda Copa. Vai ter surpresa boa e contratempo ruim, como em toda Copa. E vamos nos divertir, como em nenhuma outra Copa.
quinta-feira, 15 de maio de 2014
As vozes oficiais dizem ‘quem sabe’, dizem ‘talvez’
"I don't want that holy water
It makes me burn
I don't want that holy water
I guess I'll never learn
It makes me burn
I don't want that holy water
I guess I'll never learn
I'd rather drink from the Devil's Well
And then I'll go to Hell."
(Mercyful Fate, Holy Water)
And then I'll go to Hell."
(Mercyful Fate, Holy Water)
Pequeno tratado sobre como a imprensa paulista se comporta como assessoria de imprensa do PSDB, e mais do que nunca desde o ano passado.
– Polícia descobre ordem do PCC para matarem
o Alckmin
Tem
crise, tem eleição? Não importa se estamos em 2006, 2001 ou 2013: bóra
requentar o plano do PCC para matar o Alckmin porque supostamente eles estariam
endurecendo contra o crime.
Sim,
o governo do PSDB, que está no poder desde 1995, sob o qual o PCC, fundado em
1993, basicamente surgiu, cresceu e engordou; o governo que inclusive fez
acordo com o Marcola em 2006.
É
absurdo porque o PCC não tem do que reclamar do Geraldo, é absurdo porque a
história é requentada há 7 anos, é absurdo porque, se quisessem, o governador
já estava na cova com o Covas havia tempos.
As
investigações, se houve, nunca mais foram divulgadas, e Alckmin teve
oportunidade de bradar que não se acovardaria diante dos meliantes, etc. e tal.
Alguém
da imprensa contestou sobre a duração dessa fatwa?
Houve investigação da mídia quanto ao teor esses relatórios da polícia? Não.
– Polícia descobre plano mirabolante para
Marcola fugir da prisão
Em
fevereiro deste ano, a polícia paulista apareceu com essa: desde 2013 o PCC
estaria agitando uma fuga para o Sr. Camacho, com direito a dois helicópteros
blindados camuflados e um avião.
Bom,
em sendo verdade isso, não é preciso ser nenhum grande estrategista pra
imaginar que o ideal seria esperar o plano ser executado, para pegar todos com
a boca na botija, e encarcerá-los (ou passar chumbo geral, como é da predileção
da PM paulista).
Não, o
tal plano foi divulgado antes pela imprensa, Marcola foi transferido para um
regime disciplinar mais rígido, e ninguém envolvido no tal plano foi preso, ouvido,
nada.
Alguém
da imprensa questionou a verossimilhança desse plano ou a revelação precoce da
polícia? Não. A mídia, novamente passiva, comprou a versão oficial e se limitou
a reproduzi-la. Especialistas em segurança, lá no rodapé de alguns textos, questionavam
a plausibilidade desse plano espetacular, mas ficou nisso mesmo.
E
Geraldinho posou de durão contra o crime, mais uma vez.
– Se existe superfaturamento nos trens e no
metrô, o estado de São Paulo é vítima
Há
um esquema de propina atuando pelo menos desde 1998 no sistema
metroferroviário, lesando o erário em quase R$ 1 bilhão em inúmeras licitações
fraudulentas, envolvendo negociatas entre empresas como Alstom e Siemens,
funcionários da CPTM e do metrô, e, segundo documentos e depoimentos, gente
graúda dos governos Covas, Serra e Alckmin.
A
primeira providência do governador, abraçada imediatamente pela mídia, é chamar
o caso simplesmente de cartel – porque aí o estado seria apenas vítima,
coitadinho.
Propinoduto,
tremsalão...? Nada disso, apelido é só contra os petralhas. Afinal, até o
mensalão deles é ‘mineiro’ em vez de tucano.
E
que se houvesse comprovação de alguma coisa, que os culpados fossem punidos,
naquele blasé de que só subalternos das empresas de transporte sobre trilhos
estariam envolvidos, café-pequeno.
Olha,
se um esquema bilionário de propina atua há mais de 15 anos, no maior
descaramento – três ou quatro empresas se revezam entre uma ganhar e
subcontratar as outras –, sempre com preços acima do mercado, ou o Governo Estadual é muito ladrão, ou é muito incompetente, nem sei o que é mais grave.
Especialistas
dizem que normalmente os carteis faturam por volta de 5% nesse tipo de esquema;
porém, em São Paulo, houve sobrepreço de até 25% em algumas pseudolicitações.
Eu
mesmo li na grande imprensa (Folha, Estado) sobre falcatruas da Alstom em 2005,
depois novamente em 2008. Mas o Governo do Estado não sabia de nada, nadinha.
Isso
tudo foi questionado pela imprensa? Adivinha.
Exceto
pela IstoÉ, e uma matéria ou outra da Globo, o caso vem se arrastando na
imprensa, com matérias sem destaque algum nos jornais (manchete, nem pensar),
sem nunca chamar o bicho pelo nome: inventou-se a corrupção sem corruptos, só
se fala das empresas, nunca dos políticos.
Mensalão
(ou caixa 2, whatever)? Claro que o
Lula sabia! Dirceu foi condenado por Barbosa porque “não tinha como não saber”
do esquema, mesmo sem provas. Já Covas, Serra e Alckmin jamais foram ligados
diretamente a nada, sequer se questionou o atual governador sobre isso.
Até
o ridículo de Alckmin fazer uma lista de cartel com uma empresa só – a infame
Siemens, que resolvera denunciar o esquema todo – foi noticiado muito
discretamente. Idem para o envolvimento de gente graúda como Andrea Matarazzo,
Robson Marinho ou Aloysio Nunes: é sempre lá no meio do jornal ou do site, sem
alarde.
Também
há o fato de que jamais esse rombo bilionário é ligado, direta ou
indiretamente, ao estado patético, deplorável, em que o transporte sobre
trilhos se encontra: a malha avança a pífios 2 km por ano (culpa do Governo Federal que não ajuda, segundo Geraldinho), linhas como a Amarela estão
atrasadas há mais de 10 anos, os trens pifam o tempo todo, com falhas às vezes
muito perigosas, mas a culpa é do usuário, que não tem horário de trabalho
flexível, e ainda dá uma de vândalo e aciona um tal botão secreto (!) – até
isso foi comprado pela imprensa.
Mais
uma vez, a mídia se comporta como uma Voz do Brasil estadual: apenas reproduz
os discursos do Executivo.
– A falta d’água é culpa da seca, nada mais,
e mesmo assim estamos preparados
Esta
é a mãe de todas as cascatas (secas): não tendo como colocar a culpa no PT, nem
no usuário, nem em outras empresas, simples!, Alckmin fala que a culpa é
simplesmente de São Pedro. Desculpa, não choveu, não podemos fazer nada.
Bom,
na verdade podiam. Tá certo que fez muito calor e quase não choveu, porém é
obrigação do governo estar preparado para esse tipo de coisa, dispor de
reservatórios, ainda mais porque desde 2001 (e depois foi dito em 2003, 2004 e
2009 de novo) que os estudos apontavam que o Sistema Cantareira ia se esgotar
logo.
O
que foi feito? Nada. A Sabesp estava provavelmente mais preocupada em
distribuir os lucros anuais de R$ 500 milhões aos acionistas, ou em gastar R$
3,6 bilhões (em 22 anos) na despoluição dos rios Tietê e Pinheiros, que, como se
pode ver e cheirar, seguem mortinhos da silva (só a IstoÉ Dinheiro deu destaque
a isso, aliás). Sem falar no recém-denunciado (pela Carta Capital) esquema de
superfaturamento, coisa de mais de R$ 1 bilhão, em licitações da empresa.
Mesmo
assim, era só ir à televisão uns três meses antes da desgraça completa e dizer
para o pessoal economizar água para não ter racionamento. Em último caso, fazer
o quê, racionamento mesmo. Mas claro que, em ano eleitoral, o negócio é se
garantir até depois do pleito, é bumba-meu-boi e em 2015 em a gente vê.
Quando
o nível do Cantareira chegou a menos de 15%, e não dava mais pra esconder o
problema, a Sabesp começou a fazer racionamento (“rodízio”, em tucanês)
extraoficial em diversos bairros da periferia, embora negasse (e continue
negando).
Cantareira
em 10%, e aí não é mais falta d’água, é “stress hídrico”. Alckmin inventa um
plano esdrúxulo para tirar água do Rio de Janeiro (como se isso pudesse ser
feito em curto prazo). A presidente da Sabesp anuncia multa (!) para quem
gastar mais água – mas ela prefere chamar isso de “contingência tarifária”.
Chegamos
a maio, Cantareira em menos de 8%. E as lorotas seguem. O volume morto agora é
“reserva técnica” (sim, como algo que está lá para ser usado mesmo, e que já
estava nos planos), e essa água é “perfeita, igual às outras” – embora
especialistas digam que o processo para tratá-la é 40% mais caro, e que, mesmo
assim, não elimina os metais pesados que devem estar lá no volume morto.
E
esta semana, finalmente, a melhor: Estado, Folha, G1, R7, todo mundo reproduz
material do DAEE dizendo que uma seca tão grande em época de chuvas só se
repete a cada 3.378 anos (!). E, mais uma, não há qualquer contestação a isso.
O
que se sabe é que a partir de hoje, 15 de maio, sairá das nossas torneiras e
nossos chuveiros água aditivada com chumbo, cádmio, mercúrio e outras iguarias.
Um brinde ao eleitor paulista e à sua imprensa, a melhor assessoria que um
governo poderia ter.
terça-feira, 29 de abril de 2014
Tem que ser selado, registrado, carimbado avaliado, rotulado.
Sabe aquele ateu chatão que, quando ouve um bem-intencionado “vai com Deus/fica com Deus”, responde mal educadamente que Deus não existe, etc.?
Pois tem horas em que a esquerda age exatamente assim, eu incluso, portanto vou fazer um mea-culpa aqui.
Exceto por Luciano Huck e Neymar, oportunistas que não conseguem fazer absolutamente nada que não seja pensando em marketing e dinheiro (como se já não tivessem o bastante), estou certo de que a ampla maioria das manifestações de apoio ao gesto (genial) de Daniel Alves contra o racismo sofrido no final da semana passada foi movida pelas melhores intenções.
No entanto, a esquerda em geral (e não só o movimento negro) caiu de pau nas fotos com banana e na tag #somostodosmacacos, alegando que era banalização do problema, que era um defeito do brasileiro tratar tudo como brincadeira, que branquelos só querem saber de aliviar suas consciências de classe média e mais um monte de reclamações nessa linha. Além de posts-bronca no Facebook, surgiu até a tag #nãosomosmacacos no Twitter.
E mais uma vez ficou aquela sensação de que os movimentos sociais passam o tempo todo batendo bumbo para terem suas causas ouvidas, mas, quando alguém de fora tenta mostrar algum tipo de apoio, é imediatamente rechaçado.
É o mesmo tipo de reação do movimento feminista, que geralmente tanto recusa o apoio masculino (“homem não pode ser feminista”) quanto encrenca com coisas como receber parabéns pelo Dia das Mulheres, por ser uma data de luta (e não de comemoração).
Não tiro a razão de nenhuma dessas alegações, nem dos negros, nem das mulheres (apesar de muitos homens brancos também passarem esses tipos de sermão por aí), mas será que não estamos todos sendo ranzinzas demais?
Uma hashtag não resolve nada? Talvez não, na verdade não mesmo. Mas é simbólico, é um gesto de quem pretende mostrar que se importa, que apoia aquela causa de algum jeito (mesmo que de um jeito inócuo), sem saber de que aquilo é oportunismo de marqueteiro.
Da mesma forma que o homem que parabeniza a mulher “pelo seu dia” só está querendo ser gentil, educado, quem postou foto com banana nas redes sociais está tentando demonstrar empatia.
Historicamente a esquerda perde tempo demais brigando entre si, enquanto a direita releva suas diferenças em nome do poder.
E nos últimos dias passamos mais tempo discutindo a “forma correta” de se manifestar contra o racismo do que nos manifestando contra ele de fato.
Tem muito sommelier de manifestação, hostess de movimento social, que aparentemente acha que só preto pode falar sobre pretos – e preto não pode falar sobre travestis, a não ser que também seja um; e o branco hétero sem-terra, por exemplo, tem que ficar quieto e esperar a sua vez de se manifestar.
Antes de saber que era uma ação de marketing, já estávamos reclamando de o Neymar se manifestar contra o racismo “por ele não se achar preto”. Quer dizer, se o cara é alienado, reclamam; se ele mostra alguma consciência social, também não pode.
O playboy não pode ouvir Racionais MCs – porque sendo playboy ele necessariamente não se importa com a periferia, sequer tem algum interesse de sabê-la.
Se alguém notoriamente cretino, como o Reinaldo Azevedo apoia, então a campanha está obviamente errada; ninguém pensa “olha só, se até ele apoia é sinal de que isso já não é mais tolerado como antes”.
Prefiro achar que essas manifestações, inócuas ou não, mostram que o Bem continua sendo a maioria, como sempre foi (muito embora os fatos tentem nos convencer do contrário). Que rotular imediatamente de hipócrita qualquer pessoa "de fora" que tenta ajudar não colabora muito para causa alguma.
E que qualquer apoio que não seja o do Luciano Huck é sempre bem-vindo.
Pois tem horas em que a esquerda age exatamente assim, eu incluso, portanto vou fazer um mea-culpa aqui.
Exceto por Luciano Huck e Neymar, oportunistas que não conseguem fazer absolutamente nada que não seja pensando em marketing e dinheiro (como se já não tivessem o bastante), estou certo de que a ampla maioria das manifestações de apoio ao gesto (genial) de Daniel Alves contra o racismo sofrido no final da semana passada foi movida pelas melhores intenções.
No entanto, a esquerda em geral (e não só o movimento negro) caiu de pau nas fotos com banana e na tag #somostodosmacacos, alegando que era banalização do problema, que era um defeito do brasileiro tratar tudo como brincadeira, que branquelos só querem saber de aliviar suas consciências de classe média e mais um monte de reclamações nessa linha. Além de posts-bronca no Facebook, surgiu até a tag #nãosomosmacacos no Twitter.
E mais uma vez ficou aquela sensação de que os movimentos sociais passam o tempo todo batendo bumbo para terem suas causas ouvidas, mas, quando alguém de fora tenta mostrar algum tipo de apoio, é imediatamente rechaçado.
É o mesmo tipo de reação do movimento feminista, que geralmente tanto recusa o apoio masculino (“homem não pode ser feminista”) quanto encrenca com coisas como receber parabéns pelo Dia das Mulheres, por ser uma data de luta (e não de comemoração).
Não tiro a razão de nenhuma dessas alegações, nem dos negros, nem das mulheres (apesar de muitos homens brancos também passarem esses tipos de sermão por aí), mas será que não estamos todos sendo ranzinzas demais?
Uma hashtag não resolve nada? Talvez não, na verdade não mesmo. Mas é simbólico, é um gesto de quem pretende mostrar que se importa, que apoia aquela causa de algum jeito (mesmo que de um jeito inócuo), sem saber de que aquilo é oportunismo de marqueteiro.
Da mesma forma que o homem que parabeniza a mulher “pelo seu dia” só está querendo ser gentil, educado, quem postou foto com banana nas redes sociais está tentando demonstrar empatia.
Historicamente a esquerda perde tempo demais brigando entre si, enquanto a direita releva suas diferenças em nome do poder.
E nos últimos dias passamos mais tempo discutindo a “forma correta” de se manifestar contra o racismo do que nos manifestando contra ele de fato.
Tem muito sommelier de manifestação, hostess de movimento social, que aparentemente acha que só preto pode falar sobre pretos – e preto não pode falar sobre travestis, a não ser que também seja um; e o branco hétero sem-terra, por exemplo, tem que ficar quieto e esperar a sua vez de se manifestar.
Antes de saber que era uma ação de marketing, já estávamos reclamando de o Neymar se manifestar contra o racismo “por ele não se achar preto”. Quer dizer, se o cara é alienado, reclamam; se ele mostra alguma consciência social, também não pode.
O playboy não pode ouvir Racionais MCs – porque sendo playboy ele necessariamente não se importa com a periferia, sequer tem algum interesse de sabê-la.
Se alguém notoriamente cretino, como o Reinaldo Azevedo apoia, então a campanha está obviamente errada; ninguém pensa “olha só, se até ele apoia é sinal de que isso já não é mais tolerado como antes”.
Prefiro achar que essas manifestações, inócuas ou não, mostram que o Bem continua sendo a maioria, como sempre foi (muito embora os fatos tentem nos convencer do contrário). Que rotular imediatamente de hipócrita qualquer pessoa "de fora" que tenta ajudar não colabora muito para causa alguma.
E que qualquer apoio que não seja o do Luciano Huck é sempre bem-vindo.
quinta-feira, 20 de março de 2014
É o mundo que anda hostil.
"A morte virá com todos os teus desejos e o teu egoísmo e todos os pecados capitais."
(Arthur Rimbaud, Uma Temporada No Inferno)
[Não pretendo com este texto concluir nada, inferir nada, chegar a lugar algum. Apenas manifestar certa aflição. Refletir, inconclusivamente, nesta noite de segunda-feira, sobre estes dias cinza. Aliás, é uma pena que meu último texto aqui, há pouco mais de um mês, tenha sido justamente sobre isso, a obliteração cotidiana do ser.]
Pode ser coincidência, pode ser passageiro, pode ser exploração momentânea da mídia.
Mas me assusta que haja tantos casos de linchamentos – muitos comprovadamente de inocentes – convivendo com relatos e mais relatos de violência policial, seja contra os brancos em protestos, seja contra os negros nas favelas.
E, ao mesmo tempo, parte da população, a mesma que apoia as sheherazades e os bolsonaros, estes que alimentam respectivamente o preconceito de classe e de orientação sexual, diz abertamente que deseja a volta da Ditadura.
Gente que só pode falar sem medo esse monte de estultice justamente porque estamos numa democracia.
Pessoas que se acham além de qualquer julgamento, jurando que andam sempre na linha e que jamais cometeram qualquer infração, justificando a posteriori medíocres meritocracias.
Não veem nada de errado em supostamente haver tanto espírito no feto e nenhum no marginal. Nem ligam de voltar da missa ou do culto e despejar rancor e grotesquidão na internet.
Sabe todos aqueles comentaristas de portal? Não existem só naquele mundo bizarro e distorcido; sejam remediados ou Rigobertos, se acham especiais demais por ‘pagar impostos’ – seja lá o que eles entendem por isso, como se alguém não os pagasse o tempo todo.
Esses sujeitos estão por aí, rosnando impropérios em seus automóveis no trânsito caótico, encrencando com subalternos e serviçais por qualquer migalha, replicando boatos ridículos nos encontros de firma, faculdade & família, com o ar de quem se acha ‘pelo menos 85% politizado’.
Atrás de um nariz vermelho tem sempre um grande palhaço. Músicos, comediantes, todos se orgulhando de seus preconceitos, exaltando por aí suas grandes orelhas de azêmola e sendo oportunamente acolhidos como bastiões da Direita internet afora (adentro?).
Assustam-me a estupidez, o anacronismo, a falta de empatia e a crescente desumanização. O rugido inumano de contentamento a cada minoria violentada, a cada suspeito com seus direitos mais básicos negados, a cada gesto egoísta que dá de ombros para as injustiças.
E olha que ainda estamos longe da torrente de lama que virá com as eleições, quando essa classe média de fígado transbordante e cenho franzido virá com todos os seus preconceitos e as suas meias-verdades.
E tanto quanto possível de desprezo por tudo que não disser respeito ao seu mundinho distorcido, onde falta tapete para tanta sujeira varrida longe das fotos de família & equipe do escritório.
– Às vezes parece que o fino verniz que nos recobre de civilidade descascou de vez.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
For there are no feelings left: he’s completely dehumanized.
Perplexidade.
Num espaço de tempo bastante curto tivemos a PM oprimindo
e batendo em pré-adolescentes da periferia e em jovens de classe média de um
bloco carnavalesco; um jovem negro acorrentado a um pelourinho moderno por ser
supostamente um ladrão; jovens gays são agredidos e mortos dias sim e dia
também; e black blocs estragando a festa de aniversário de São Paulo.
Todos esses exemplos não só de violência e opressão,
mas de autoritarismo, de uma postura que inviabiliza o diálogo, que toma para
si todas as prerrogativas de ação e razão.
A classe média faz justiça com as próprias mãos ao
desconfiar de um moleque com biotipo suspeito, e decide quem pode frequentar o
centro de compra dela, e seus filhos violentam pessoas de orientação sexual
diversa e tentam agredir quem tem opinião política oposta, com a pouca vontade
de investigar da PM, que também escolhe quem pode ou não pode ocupar as ruas,
estas que são tomadas por manifestantes que tomam para si o discurso violento,
de confronto, como o único possível e válido.
E de repente, as mesmas pessoas que acharam,
dignamente, isso tudo um absurdo, absorveram como perfeitamente normal a
investida de uma centena de celerados de algumas facções criminosas, mal
disfarçadas de torcida organizada, assumindo indevidamente o posto de
representante de um contingente de mais de 30 milhões de pessoas.
Esses ‘torcedores’ – sabemos que são sempre os
mesmos, que não representam sequer as agremiações que integram, mas têm a
conivência destas –, que no fundo pouco se importam com o Sport Club Corinthians
Paulista, estando sempre mais interessados nas picuinhas de suas facções, no
intervalo de servir de massa de manobra para situação e oposição, alternadamente,
resolveram, a mando de quem?, invadir o centro de treinamento do Alvinegro,
roubando e agredindo funcionários, e ameaçando jogadores de morte.
É tão difícil assim perceber que é parte do mesmo
discurso terra-de-ninguém?, da mesma atitude ‘eu é que estou certo e vai ser do
meu jeito de qualquer jeito’?
Somos obrigados a ler e ouvir, por parte de
torcedores que aparentemente desligaram o cérebro na hora de pensar
futebolisticamente (pois muitos deles conderam todas a violências urbanas supracitadas), que ‘esses jogadores são vagabundos’, ‘alguém tem que fazer
alguma coisa’, ‘a gente paga ingresso e tem direito de meter o dedo na cara
deles’, ‘eles só invadiram e ameaçaram, se quisessem tinham batido’, ‘esses
caras só têm vida mansa e ainda pensam em greve’, entre outras estultices.
Nem vou entrar no mérito do papel (papelão)
cotidiano das organizadas, nem do imaginário popular sobre o jogador de
futebol, tampouco sobre direitos trabalhistas (que incluem o de greve) ou da
ingratidão com um elenco que ganhou oito títulos em cinco anos.
Minha perplexidade, meu espanto, minha desolação, é
com a legitimação definitiva da truculência egoísta que invalida o diálogo e o
contraditório, que ignora nuances, pormenores e entrelinhas. Todos estão
surdos. E gritando, gritando, gritando.
Neste momento, qualquer civilidade está sendo agredida
e estuprada porque andou por aí de shortinho.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Ensinou-me que a História não é tudo.
Cem
anos, quanto tempo, hein Albert. Passou voando esse século. Parece que foi
ontem que te li pela primeira vez. Conheci você, soube de sua existência, por
causa dos Engenheiros do Hawaii, sabia? Numa manhã ginasiana de 1992 eu fui pro
Centro comprar discos com a mesada em vez de estudar para a prova de inglês (na
sétima série) e comprei A Revolta Dos
Dândis, de 1987, cuja faixa-título falava sobre se sentir “um estrangeiro”.
E o resto do disco ia no mesmo tom desesperançoso existencialista. Até seu
melhor inimigo Sartre era citado nominalmente na última canção. Mas só fui ler
um livro seu, de fato, no primeiro ano da faculdade (1999), quando peguei O Estrangeiro na biblioteca. Além de
finalmente descobrir que minha música preferida do The Cure, Killing An Arab, falava sobre o episódio
central de sua obra-prima, fui tomado pelo Absurdo já no primeiro parágrafo, o
melhor da literatura mundial (empatado com o começo d’A Metamorfose, de Kafka). Sabia que Gabriel García Márquez
confessou que tentou imitar esse início impactante em todos os seus romances? Chacoalhado
pela história de Mersault (que descobri se chamar Patrice quando li A Morte Feliz), em seguida li A Peste (que, confesso, achei um pouco
cansativo) e todos os outros: O Exílio E
O Reino, O Avesso E O Direito (de
onde Sartre tirou o título ‘Com A Morte Na Alma’), A Inteligência E O Cadafalso, Núpcias, O Verão, até o incompleto O
Primeiro Homem... vi suas peças, e nem de teatro eu gosto. Com O Mito De Sísifo eu vi que podia
(fingir) ser e me sentir tanto Mersault quanto o herói grego, e depois também
me vi no protagonista d’A Queda,
aquele livro que descasca o ser humano feito uma banana, com todas as
hipocrisias e vicissitudes a que ele tem direito, e que você escreveu após ser
defenestrado da intelectualidade política francesa por causa d’O Homem Revoltado. Sua liberdade de
pensamento sempre custou muito caro, né. Desagradou esquerda e direita, e por
ambos já foi usado indevidamente. Naquela ocasião, Sartre (é verdade que ele
era apaixonado por você?) foi bem escroto com você, né. Inclusive ficou tão
doído por você ter ganhado o Nobel de Literatura antes dele, que recusou o
prêmio quando foi laureado. Enfim, vamos lembrar o que temos em comum: o
futebol, a saúde frágil, a má impressão de São Paulo, o tédio com o folclore, o
desgosto com o Cristo Redentor (“lamentável”). Vejo-me até na
sua falta de jeito em descrever minimamente cenas de sexo. Bom, por hoje a
subida terminou. Amanhã, pedra entre pedra, retornaremos todos a esses mundos
imóveis de verdade nenhuma. Aquele abraço e feliz aniversário, meu caro Albert.
Que venham outros centenários enquanto o Tempo não resolve descansar.
terça-feira, 22 de outubro de 2013
D'ya like dags?
Eis que tivemos O Grande Resgate Dos Beagles de 2013. E o modo como A Esquerda De Internet se manifestou quanto a isso foi deprimente, pra dizer o mínimo. Gente que se arvora esclarecida se derramando em preconceito, galhofa infantil e ingenuidade quanto aos rumos da ciência.
Veja bem, nada contra tirar sarro (eu mesmo fiz várias piadas), mas a coisa estava no nível de “é a favor dos animais e come churrasco”, ou de argumentos-emo como “se sua mãe estiver morrendo de câncer você vai querer dar remédio pra ela”, naquele clima de “é tão óbvio que sei tudo sobre o assunto e vocês, burros, estão errados, que vou inviabilizar o debate com minha opinião engraçadona”.
Você pode achar que o método usado foi errado; que não precisavam destruir o laboratório; que esses cachorros à solta, sabe-se lá com que coisas testadas no corpo, sejam perigosos pra saúde de alguém;
Bioética não é um assunto nada simples, e o uso de cobaias (humanas e animais) é discutido desde sempre. Não é ponto pacífico, como a maioria acha. Discute-se tanto pela questão da vida dos bichos (se temos ou não direito de dispor delas para isso) quanto pela própria utilidade de tais testes (ratos obesos, sedentários e pré-diabéticos, com genes selecionados, não seriam ideais para simular o uso nos humanos em geral).
Além disso, há questões como a minimização do sofrimento das cobaias, que espécies de animais usar, se o uso pela indústria farmacêutica é mais nobre que o uso por empresas de cosméticos, etc. Não é assunto que se esgota em um tuite engraçadão.
E os mesmos que gostam de black blocs quebrando bancos e viaturas acham um absurdo que o laboratório tenha sido danificado. Vem daquela ideia ingênua de que todos os cientistas são abnegados que passam o dia pesquisando a cura do câncer e da aids. Justamente numa época em que tanto se questiona o excesso de remédio que tomamos, das doenças que são inventadas na mídia para que sejam vendidas drogas para elas.
E da ideia igualmente tola de que ciência mais ‘hard’ não deva ser questionada por não-cientistas – basta um órgão oficial se manifestar corporativistamente que o assunto deve ser encerrado. É a noção torta de que a medicina/farmacêutica é uma maçonaria que decide hermeticamente os destinos de nós, consumidores. Sim, porque é isso que somos pra essa indústria (pra qualquer indústria, aliás): consumidores. Ou pior, de que ‘Ciência’ é uma entidade homogênea que visa desinteressadamente ao bem-estar da humanidade.
Por isso tudo, ninguém de fora pode se manifestar (nem pacifica, nem mais ‘energicamente’). Devemos esperar pacientemente que as empresas e os laboratórios substituam as cobaias animais por alternativas que já existem, porém são bem mais caras (pra não falar da comodidade de manter os mesmos procedimentos de sempre), ou mesmo procurar alternativas que ainda não existam.
Se hoje usamos animais em vez de pessoas (e olha que estas ainda eram usadas primariamente até bem pouco tempo) é porque houve protestos, é porque houve pressão, é porque alguma parcela da sociedade de mobilizou. E não foi de uma hora pra outra. Ninguém sequer esperou que algum mínimo tempo passasse para que a ação fosse vorazmente condenada: o Tribunal Da Internet não perde tempo. Imediatamente aquelas pesquisas tinham valor inestimável (aliás, até agora não sei o que pesquisavam lá), as investigações que corriam preguiçosamente havia mais de ano foram atrapalhadas, e as articulações dos sempre bem-intencionados cientistas para que haja outros métodos de testar produtos sofrerão retrocesso por causa disso.
Independentemente de a ação ter sido certa ou errada, feita do melhor ou do pior jeito, é ótimo para que esse debate seja posto na mesa às claras. Porque pra grandíssima parte da Esquerda Da Internet, o ativismo pelos direitos dos animais é uma luta menor, vindo atrás até mesmo da legalização da maconha ou do policiamento nas faculdades públicas (pra ficar em dois temas interessantes a grupos bem restritos). A esquerda adora adotar o pacote comportamental do manifestante, que inclui todos apoiarem sempre as mesmas causas, mas os animais ficam de fora dessa.
Sim, porque somos nós aqui na internet que decidimos qual luta é valida e qual não é. Normalmente o meu é ativismo, o deles é vandalismo. As mesmas pessoas que disseram que só a comunidade científica pode opinar sobre isso fazem chacota e dizem bobagens sobre o ativismo pelos animais, que eles desconhecem.
Se hoje não se pode prescindir desses testes, até porque é o protocolo mundial para a liberação desses medicamentos no mercado, é justamente a pressão dos ativistas e da sociedade que pode mudar isso. Não pense que as empresas vão adotar métodos mais dispendiosos (que não usem animais) por vontade própria.
E ainda que coelhos também tenham sido salvos, e parece que tentaram levar ratos, mas a polícia teria chegado e impedido, é meio óbvio que o ser humano tem mais empatia com cachorro, gato e outros animais que cultuamos há mais de mil anos, que interagem cotidianamente conosco, do que com insetos e roedores, por exemplo. Isso é algo tão óbvio que as pessoas deviam ter vergonha de questionar como se fosse um grande ‘apanhei-te cavaquinho’.
Ah, e em resposta ao senso comum de que estamos 100% seguros com esses testes em animais (e até com os testes posteriores em humanos), a talidomida (só pra ficar num exemplo) manda lembranças.
Veja bem, nada contra tirar sarro (eu mesmo fiz várias piadas), mas a coisa estava no nível de “é a favor dos animais e come churrasco”, ou de argumentos-emo como “se sua mãe estiver morrendo de câncer você vai querer dar remédio pra ela”, naquele clima de “é tão óbvio que sei tudo sobre o assunto e vocês, burros, estão errados, que vou inviabilizar o debate com minha opinião engraçadona”.
Você pode achar que o método usado foi errado; que não precisavam destruir o laboratório; que esses cachorros à solta, sabe-se lá com que coisas testadas no corpo, sejam perigosos pra saúde de alguém;
Bioética não é um assunto nada simples, e o uso de cobaias (humanas e animais) é discutido desde sempre. Não é ponto pacífico, como a maioria acha. Discute-se tanto pela questão da vida dos bichos (se temos ou não direito de dispor delas para isso) quanto pela própria utilidade de tais testes (ratos obesos, sedentários e pré-diabéticos, com genes selecionados, não seriam ideais para simular o uso nos humanos em geral).
Além disso, há questões como a minimização do sofrimento das cobaias, que espécies de animais usar, se o uso pela indústria farmacêutica é mais nobre que o uso por empresas de cosméticos, etc. Não é assunto que se esgota em um tuite engraçadão.
E os mesmos que gostam de black blocs quebrando bancos e viaturas acham um absurdo que o laboratório tenha sido danificado. Vem daquela ideia ingênua de que todos os cientistas são abnegados que passam o dia pesquisando a cura do câncer e da aids. Justamente numa época em que tanto se questiona o excesso de remédio que tomamos, das doenças que são inventadas na mídia para que sejam vendidas drogas para elas.
E da ideia igualmente tola de que ciência mais ‘hard’ não deva ser questionada por não-cientistas – basta um órgão oficial se manifestar corporativistamente que o assunto deve ser encerrado. É a noção torta de que a medicina/farmacêutica é uma maçonaria que decide hermeticamente os destinos de nós, consumidores. Sim, porque é isso que somos pra essa indústria (pra qualquer indústria, aliás): consumidores. Ou pior, de que ‘Ciência’ é uma entidade homogênea que visa desinteressadamente ao bem-estar da humanidade.
Por isso tudo, ninguém de fora pode se manifestar (nem pacifica, nem mais ‘energicamente’). Devemos esperar pacientemente que as empresas e os laboratórios substituam as cobaias animais por alternativas que já existem, porém são bem mais caras (pra não falar da comodidade de manter os mesmos procedimentos de sempre), ou mesmo procurar alternativas que ainda não existam.
Se hoje usamos animais em vez de pessoas (e olha que estas ainda eram usadas primariamente até bem pouco tempo) é porque houve protestos, é porque houve pressão, é porque alguma parcela da sociedade de mobilizou. E não foi de uma hora pra outra. Ninguém sequer esperou que algum mínimo tempo passasse para que a ação fosse vorazmente condenada: o Tribunal Da Internet não perde tempo. Imediatamente aquelas pesquisas tinham valor inestimável (aliás, até agora não sei o que pesquisavam lá), as investigações que corriam preguiçosamente havia mais de ano foram atrapalhadas, e as articulações dos sempre bem-intencionados cientistas para que haja outros métodos de testar produtos sofrerão retrocesso por causa disso.
Independentemente de a ação ter sido certa ou errada, feita do melhor ou do pior jeito, é ótimo para que esse debate seja posto na mesa às claras. Porque pra grandíssima parte da Esquerda Da Internet, o ativismo pelos direitos dos animais é uma luta menor, vindo atrás até mesmo da legalização da maconha ou do policiamento nas faculdades públicas (pra ficar em dois temas interessantes a grupos bem restritos). A esquerda adora adotar o pacote comportamental do manifestante, que inclui todos apoiarem sempre as mesmas causas, mas os animais ficam de fora dessa.
Sim, porque somos nós aqui na internet que decidimos qual luta é valida e qual não é. Normalmente o meu é ativismo, o deles é vandalismo. As mesmas pessoas que disseram que só a comunidade científica pode opinar sobre isso fazem chacota e dizem bobagens sobre o ativismo pelos animais, que eles desconhecem.
Se hoje não se pode prescindir desses testes, até porque é o protocolo mundial para a liberação desses medicamentos no mercado, é justamente a pressão dos ativistas e da sociedade que pode mudar isso. Não pense que as empresas vão adotar métodos mais dispendiosos (que não usem animais) por vontade própria.
E ainda que coelhos também tenham sido salvos, e parece que tentaram levar ratos, mas a polícia teria chegado e impedido, é meio óbvio que o ser humano tem mais empatia com cachorro, gato e outros animais que cultuamos há mais de mil anos, que interagem cotidianamente conosco, do que com insetos e roedores, por exemplo. Isso é algo tão óbvio que as pessoas deviam ter vergonha de questionar como se fosse um grande ‘apanhei-te cavaquinho’.
Ah, e em resposta ao senso comum de que estamos 100% seguros com esses testes em animais (e até com os testes posteriores em humanos), a talidomida (só pra ficar num exemplo) manda lembranças.
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