terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Cordeiro em pele de lobo

Quando eu era adolescente, achava que os neopentecostais (era o auge do crescimento da Igreja Universal e da Igreja da Graça, além do surgimento da Renascer Em Cristo) eram todos uns palermas crédulos à mercê de inescrupulosos pastores estelionatários. Revoltava-me toda aquela manipulação da fraqueza das pessoas. À época eu já era ateu, porém não sabia: julgava-me panteísta ou deísta, por falta de orientação e de denominações melhores.

[Hoje vejo que essa passagem gradativa do catolicismo por inércia (por mais que eu tentasse crer, acreditasse crer, participasse como coroinha e até dando aulas de catecismo), que durou quase quinze anos, até eu me firmar como ateu, foi a melhor coisa, pois houve maturação de todas as idéias na cabeça, não houve mágoa, revolta, nada; apenas o descobrimento.]

Não que tenha mudado muita coisa nos dias de hoje: os fiéis continuam otários e os pastores continuam vigaristas; o que mudou foi minha visão dessa relação, a qual percebi não ser apenas de exploração, mas de mutualismo.

Veja só: a pessoa desesperada/preocupada chega a uma dessas suntuosas e modernas igrejas com cara de supermercado, ou mesmo naquelas igrejas de garagem com cadeiras de praia, querendo solução rápida para os problemas – afinal, se fosse uma questão meramente espiritual, teria ido a uma igreja católica, já que no Brasil praticamente todo mundo é batizado no catolicismo – e, assim, já mostrando ser uma pessoa com tendência à credulidade, pois acredita que problemas concretos (sejam familiares, profissionais ou de saúde) possam ser resolvidos assim, de uma hora para a outra, sem esforço pessoal.

Pois o pastor, bonitão, lustroso e bem vestido, lhe oferece, além de toda aquela lábia carinhosa e cheia de atenção, uma solução fácil: não é preciso sacrifício pessoal ou esforço espiritual/físico, pois é tudo questão de que há um encosto na vida dele: é só fazer uma aposta com Deus (“ser um gideão” na Renascer, “fazer um sacrifício” na Universal), colocando dinheiro no bozó e lançando os dados, pois Jeová irá pegar o dinheiro (pelas mãos do pastor) e recompensar sua fé com a realização plenas dos desejos (especialmente os materiais – teologia da prosperidade).

Veja só que há uma troca aí: enquanto o pastor recebe a grana do otário (indivíduo ingênuo, de boa-fé, dizem os dicionários), dá a ele o conforto, a segurança: olha, não é você que é um bêbado (ou uma baranga chata); seu cônjuge te abandonou por causa dos encostos; você não está doente porque fuma muito e faz pouco exercício, nem perdeu o emprego porque seu chefe implicou com você ou porque é um incompetente mesmo; nem seu parente morreu porque ora, todo mundo morre um dia; é tudo culpa dos encostos. Mas Deus há de ser testado (!), pois você pagou e quer o serviço.

O problema é que fica difícil reclamar com o prestador de serviço quando a coisa falha (isto é, invariavelmente): o pastor, como um atendente de telemarketing de Deus, jamais passa a reclamação ao superior e diz que faltou fé, que o fiel precisa ser mais fiel, orar mais e, especialmente, dar mais dinheiro.

Em troca, ele recebe um bode preto expiatório, o próprio Satanás, para livrá-lo de todas as culpas. O fiel sabe que está sendo enganado; inconscientemente, mas sabe; e como sartreano, questiono, já disse, a impenetrabilidade do inconsciente – no fundo sempre sabemos, basta examinarmos nossa consciência com honestidade. Mas o fiel prefere continuar na má-fé, no auto-engano, pois é mais cômodo.

É mais reconfortante ter alguém dizendo que a culpa não é sua, que você pode ser rico e feliz aqui na Terra mesmo (‘tá certo que não entendo como você pode dar dinheiro e ficar com mais dinheiro, deve ser algum fundo divino de investimento); e se qualquer fiasco é falta de fé (grana), qualquer sucesso é automaticamente atribuído ao “esforço” de fé, não pessoal (tudo bem, pois o perfil de quem vai a essas igrejas não é exatamente o de pessoas esforçadas e/ou com grande auto-estima).

Portanto me parece bem razoável essa auto-ajuda com palestras motivacionais disfarçadas de igreja; só há trambiqueiros porque há otários pedindo para serem enganados, para serem expiados de suas culpas, para se livrarem de responsabilidades, para não encararem a verdade. Enfim, ambos se merecem.

Um comentário:

Amanda Beatriz disse...

pronto atualizei! depois leio o que vc escreveu com calma! to meio sem tempo esses dias!
beijos!