segunda-feira, 30 de junho de 2008

Eternidades da semana

Esconder as cinzas sob o tapete
Nada de muito novo no front: Falha de S.Paulo se fazendo de desentendida e jogando lá pro final do primeiro caderno as escandalosas (nunca vai terminar esse assalto?) desapropriações para a construção do Roubanel tucano; O Estrago de São Paulo dizendo ter sido combativo na época da Ditadura (só se foi combativo à democracia), enquanto que o famoso editorial “Basta!” é simplesmente jogado sob o tapete, com as cinzas. O mesmo para as leis já existentes para o controle dos motoristas embriagados: esqueçamos as antigas, que já não fazíamos cumprir, criamos novas, mais duras, pra fingir ação veemente, estimulamos um debate inócuo na mídia por umas duas semanas e tudo volta ao normal, com carteiradas, suborno e nenhum respeito à civilidade. E gente que nunca morreu vai continuar morrendo.

Bagaceira sincera
Saudade do Notícias Populares, NP para os íntimos. Bagaça mesmo, mundo-cão e diversão, sangue-suor-e-lágrimas (estas, às vezes, de tanto rir), com direito a diagramação podreira, textos podreira e manchetes podreira. Nada da falsa indignação dos datenas e rezendes da vida, mas tão-somente a bizarrice e a grotesquidão inerentes à natureza – e à curiosidade – humana, daquela mais mórbida, de parar pra ver acidentes, ver filmes gore ou sites com fotos splatter. Sempre uso com exemplo uma manchete que saiu quando do namoro do Rafael Pilha com a Cristiana Oliveira: JUMA SÓ GOZA COM O POLEGAR. Pena que não tive o insight de comprar aquele jornal... valeria uma grana (ou pelo menos boas risadas) hoje. E pra quem costuma me questionar quando afirmo que foi o NP que inventou a saga da Loira do Banheiro, eis aqui, aqui e aqui. Volta NP!

Você foi mó rata comigo
E-rato: traído pela memória (e estimulado pela preguiça), outro dia, falando sobre trânsito, creditei ao Laerte uma história (A Revolta Das Kombis) que era do Spacca e saiu na Níquel Náusea nº5 (julho de 1989). Fui mó rato com o cara.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Faça uma lista de grandes motivos pelos quais Fagner já foi vanguardista e quem fala mal não sabe nada de nada.

[Onze em vez dos habituais dez, só pra contrariar]

01. Teve discos produzidos e arranjados por Hermeto Pascoal, com direito até a uma canção em parceria.

02. Gravou na Espanha, em 1982, um disco sobre Pablo Picasso.

03. Fez a ponte musical Ceará–Espanha, confirmando a influência na música nordestina, como disse João Cabral de Melo Neto quando foi embaixador brasleiro em Sevilha.

05. Musicou poemas de Cecília Meireles, Florbela Espanca, Mário de Andrade e Ferreira Gullar.

06. Gravou compositores do Nordeste como Clodo & Clésio, Gordurinha e Patativa do Assaré.

07. Gravou as melhores versões de Sinal Fechado (Paulinho da Viola) e As Rosas Não Falam (Cartola), segundo seus autores.

08. Esteve sempre antenado com o melhor de cada época para seus discos, como Vímana, Roupa Nova (antes da fama), Banda Black Rio, Chico Buarque, Wagner Tiso, Ivan Lins, João Donato e Roberto Menescal.

09. Elis Regina literalmente correu atrás dele pra conhecer aquele cearense de quem ela havia ouvido uma demo e da qual estava cantando quatro canções nos seus shows.

10. Foi convidado para gravar um disco produzido por George Martin, o que só não aconteceu por incompatibilidade de agendas.

11. A culpa pra isso acabar foi do Roberto Carlos, que lhe disse, no começo dos 1980s, para deixar de fazer “música para universitário” e compor algo “pro povo cantar junto”.

sábado, 21 de junho de 2008

Faça uma lista de grandes músicas do Elton John

01. Benny And The Jets
02. Funeral For A Friend / Love Lies Bleeding
03. Goodbye Yellow-Brick Road
04. I Need You To Turn
05. Madman Across The Water
06. Rotten Peaches
07. This Song Has No Title
08. Ticking
09. Val-Hala
10. Your Song

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Here today

Assim como há pessoas que entram da nossa vida e dela saem sem deixar mais do que pálidos vestígios, há personagens que, mesmo que nem os tenhamos conhecido, mesmo que nem tenham existido realmente. Assim como esses dias houve o aniversário do Paul McCartney e a notícia de que o Martin Scorsese vai fazer um documentário sobre o George Harrison, além de hoje meu personagem preferido de todos os tempos, Garfield, fazer aniversário, há pessoas que, longe de serem celebridades, têm importância artística, até filosófica, para nossa existência. Assim como o tio suicida que me legou discos que fizeram minha infância um oceano de melodias sessentistas e setentistas, esta semana foi aniversário de uma pessoa que, embora tenha morrido há muito, e eu só tenha conhecido por poucas fotos, sei-o muito pelas histórias encantadoras que me contam dele e pelo que ele deixou neste mundo como legado. Sei que torceu para um grande time (ganha pontos), que tinha um caráter irreprensível, que curtia um goró de vez em sempre (ganha mais pontos) e teve que enfrentar barras mais duras do que as que passei na última meia-década. Sei que morto sempre vira santo, mas, se ele deixou de herança alguém tão perfeito, por que não acreditar que tudo isso de mágico veio um tanto dele? Sei que você não vai poder ler isto, pois há muito já voltou à terra úmida aonde todos vão descansar; mas gosto de pensar que teus átomos estão por aí, espalhados, compondo novas formas, as mesmas partículas que correram infinitos desde o início do Universo, até você. Abrazzos!

Salve a seleção.

[10h15min]

Após um sofrível empate sem gols contra a Argentina, no Meineirão, a seleção brasileira de futebol, que deixou o campo sob vaias e gritos de "burro" (depois reclamam que só os paulistas vaiam e xingam a selecinha) e hoje cairá pra quinto na tabela (sendo ultrapassada por Chile ou Venezuela), volto a questionar, aqui, enquanto visto minha camisa da seleção hermana: por que as pessoas sentem-se obrigadas, e querem obrigar os outros, a torcer pelo Brasil nos esportes, especialmente no futebol?

Sinto-me no dever de torcer para que o país vá bem na economia, na saúde, na educação... quanto ao futebol, embora eu seja entusiasta do esporte (talvez por isso mesmo), a selecinha não me interessa nem um pouco desde 1990, acho, com o advento do futebol feio na pior de todas as copas (e a única que acompanhei vendo TODOS os jogos de todos os times e fazendo recortes de jornal para montar numa pasta).

Não tenho orgulho de ser brasileiro, assim como não tenho vergonha; afinal é uma facticidade, algo que não escolhi, é como ter o ridículo orgulho de ser branco/negro, homem/mulher, etc. Portanto me reservo o direito de torcer pela selecinha quando esta fizer jus, coisa que não acontece desde 1986, provavelmente.

Sem falar que a coisa piorou desde a injeção de dólares que leva nossos boleiros e nem-tão-boleiros-assim; até, vá lá, a Copa de 1994, você ainda via discussões na rua, nos bares, nas casas, nos programas de TV e rádio, sobre quem deveria ou não ser convocado. Hoje a coisa é tão pasteurizada, com jovens jogadores que saem cedo daqui e vão "brilhar" no incrível futebol do Leste Europeu ou do Oriente Médio, que me pego pensando "Quem são esses caras?". Nem dá mais pra saber se o cara está realmente bem, a não ser que você acompanhe o futebol turco, o croata, o português... sem falar que ser ídolo em países de pernas-de-pau como a Alemanha não é exatamente mérito, mas obrigação.

Ontem Dunga, que jogou feio nos clubes, jogou feio com Parreira, faz o que melhor aprendeu nesses anos: pegou um amontoado de cabeças-de-bagre, sem esquema tático algum, batendo, espancando, mutilando, e chutando bolas quadradas para os atacantes se virarem no individualismo. E ainda responde às críticas com a arrogância que só vencedores como Luxemburgo, Felipão e Muricy podem ter.

Ah, como eu queria que o Brasil não fosse a Copa!... Seria divertidíssimo ver o chororô da imprensa. E não, eu também não estou nem aí com as Olimpíadas, acho um absurdo levarmos uma comitiva com centenas de atletas, como se fôssemos uma potência esportiva, sendo que vai ser, como de praxe, coco atrás de coco. Deveríamos aceitar nosso lugar e fazer como os países mais sensatos, que levam só grupos de esportes nos quais têm chance. Poupa dinheiro público e poupa o público de (mais) vexame.

[10h28min]

sábado, 14 de junho de 2008

Hoje eu vendo sonhos.

Eu não achava a vida chata, pelo menos que eu me lembre, e nem que a vida devesse ser assim. Na minha cabeça alternaram-se sonhos, planos e desejos, alguns executados, outros abandonados no meio do caminho, uns outros tantos sequer iniciados.

Desenhista de HQs, músico, arqueólogo-historiador-geógrafo, jogador de futebol, jornalista, escritor... que eu me lembre, esses foram os principais.

Eu queria tudo isso meio que ao mesmo tempo, em constante alternância, pra ser mais específico, e treinava/estudava com o maior afinco, porém sem a menor noção ou orientação; tudo era intenso e verdadeiro, mas pueril de tão lúdico.

Acabou que eu eu fiz um pouco de quase tudo, sei um tanto de um monte de coisas, mas me tornei alguém indefinível, e nem sei aonde ir.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Factus de matéria, cinis elementi.

"'Não posso convencer-me', escreveu Darwin, 'de que um Deus benéfico e onipotente tenha criado propositalmente as Ichneumonidae com a intenção expressa de que estas buscassem o seu alimento no interior do corpo vivo das lagartas'. Na verdade, a perda gradual da fé por parte de Darwin, que ele dissimulava com medo de aborrecer sua devota esposa Emma, tinha causas mais complexas. Sua referência às Ichneumonidae era aforística. Os hábitos macabros aos quais ele se referiu são compartilhados por suas primas, as vespas cavadoras, as quais encontramos no capítulo anterior. A fêmea da vespa cavadora não apenas põe seus ovos numa lagarta (ou gafanhoto ou abelha) para que suas larvas alimentem-se de seu corpo, mas, de acordo com Fabre e outros, ela cuidadosamente dirige seu ferrão para cada um dos gânglios do sistema nervoso central da presa, de modo a paralisá-la mas não matá-la. Deste modo, a carne mantém-se fresca. Não se sabe se a paralisia funciona como uma anestesia geral ou se ela funciona como o curare que simplesmente suprime a habilidade que a vítima tem de mover-se. Se este for o caso, a presa pode estar consciente de estar sendo comida viva a partir de seu interior, mas é incapaz de mover um músculo para fazer qualquer coisa a respeito. Isto parece selvagemente cruel mas, como veremos, a natureza não é cruel, apenas implacavelmente indiferente. Esta é uma das lições mais duras que os humanos têm de aprender. Não podemos admitir que as coisas possam ser nem boas nem más, nem cruéis nem carinhosas, mas simplesmente cruas – indiferentes a todos os sofrimentos e sem nenhum propósito."

(Richard Dawkins, O Rio Que Saía Do Éden.)

***

Foi exatamente nesse texto que pensei quando, no início desta semana, uma médica do SUSto, no meio da consulta, em uma conversa off-topic, quis me demover do ateísmo com base em que “tudo é divino, maravilhoso e, portanto, não pode ser obra do acaso”. Sim, a tal “complexidade irredutível” que os criacionistas disfarçam de ciência com o tal design inteligente (pfff). Pensei em Darwin, Dawkins, nas vespas-cavadoras, até em crianças com paralisia cerebral. Mas fiz cara de tolerante e fui que fui (aliás, fiquei que fiquei). Não tenho como trocar de médico porque o SUSto te desencaminha de acordo com a região – e minha região sequer tem esse especialidade, eu sou deslocado para outra região.

Vida de ateu não é fácil.

_Como você pode achar que a vida é só isso? Não pode ser?

_E você vive assim, sem sentido?

_Você é tão inteligente... por que é ateu?

_Você é uma pessoa tão boa, como pode ser ateu?

_Ah, você não é ateu de verdade... lê a Bíblia, freqüenta fóruns de religião, carrega de simbologia religiosa seus textos...

_Você é crente sim, só não descobriu ainda.

_Você substitui Deus pela crença nesse Sartre aí, nesse Camus. Ateísmo é uma crença. [N.: tanto quanto “careca” é uma cor de cabelo.]

E por aí vai. As pessoas sequer entendem o que é ateísmo, como poderiam respeitá-lo? Parece ofensa, mas é só ignorância mesmo.

Então, primeiro, um desabafo/recado: não me venham com sentido da vida, busca pelo sagrado, complexidade irredutível ou qualquer coisa do gênero. Existe admiração com ceticismo, assim como espiritualidade e ética sem religião. E nenhum sistema filosófico serve de muleta como as religiões.

Antes mesmo do episódio da médica, um dia eu até me peguei pensando, ao contrário de outros tempos, quando eu avisava, a quem estivesse ingressando, que não era fácil, uma quase-felicidade por ser ateu e materialista. Sim, porque a angústia existencial é também dolorosamente fascinante, toda a magnífica gratuidade, o esplendor das sem-razões do Universo, o fato de sermos todos feito da mesma poeira cósmica, das mesmas partículas que fervilharam no núcleo de estrelas iridescentes no big-bang. Sim, ver beleza no caminho cheio de flores, pedras e descaminhos, na poética aridez da desesperança que jamais vira desespero; a liberdade de ser e de estar, de fazer o certo por achar certo e saber que é certo, não esperar aprovação de códigos morais canônicos nem recompensas “extracampo”. Sim, descobri que gosto de ser quem sou. Afinal escolhi ser assim. Ateu praticante ocidental. Quem preferir crer sem nenhuma transcendência, simplesmente por parecer mais cômodo, que permaneça no auto-engano. Não questiono nem discuto experiências de religiosidade, mas condeno e lamento por quem procura justificar a fé unicamente pelo medo e/ou pela comodidade do wishful thinking.

“Vivemos com o baralho viciado contra nós e depois morremos: é só isso? Nada a não ser um sono sem sonhos e sem fim? Onde é que está a justiça nisso tudo? É desolador, brutal, impiedoso. Não deveríamos ter uma segunda chance numa arena nivelada? Como seria melhor se nascêssemos de novo em circunstâncias que levassem em conta o nosso desempenho na última vida, por mais viciado que o baralho tivesse estado contra nós. Ou, se houvesse um julgamento depois da morte, então desde que representássemos bem as personalidades que nos foram dadas nesta vida, e fôssemos humildes, fiéis e tudo o mais – deveríamos ser recompensados vivendo alegremente até o fim dos tempos num refúgio permanente, longe da agonia e do turbilhão do mundo. Assim seria, se o mundo fosse ideado, pré-planejado, justo. Assim seria, se os que sofrem com a dor e o tormento recebessem o consolo que merecem. Dessa forma, as sociedades que ensinam a satisfação com o que temos na vida, na expectativa de uma recompensa post-mortem, tendem a se vacinar contra a revolução. Além disso, o medo da morte, que favorece sob alguns aspectos a adaptação na luta evolutiva pela existência, prejudica a adaptação em tempos de guerra. As culturas que falam de uma futura vida de recompensas para os heróis – ou até para aqueles que apenas cumpriram as ordens das autoridades – podem levar vantagem na luta. Assim, a idéia de que uma parte espiritual de nossa natureza sobrevive à morte, a noção de uma vida após a morte, deve ser algo que as religiões e as nações não encontram dificuldade em vender. Podemos antever que não será muito difundido o ceticismo a respeito dessa questão. As pessoas vão querer acreditar na vida após a morte, mesmo que a evidência seja escassa e até nula.”

(Carl Sagan, O Mundo Assombrado Pelos Demônios)

terça-feira, 3 de junho de 2008

Do latim pré-clássico Magnas (um grande homem), do latim clássico Magnus (grande)

Fábio
10:06 am (2½ hours ago)


Isto deveria estar no tópico "confessionário", mas vá lá: ontem, na madruga, vi, num piratão de 5 pila, O Magnata.

Prontofalei.

Ela não quer me dar
Ela não quer me dar
Então enfia essa buceta no cu
Enfia essa buceta no cu


***

Marcus
10:15 am (2 hours ago)


Diz que presta, isso.
Confere?

***

Fábio
10:36 am (2 hours ago)


Olha, tecnicamente é impecável, apesar de clichê; uma boa grana deve ter sido gasta.

O Paulinho Vilhena no papel dele mesmo, como sempre, então fica direitinho também. Idem pro Chorão (ele mesmo) e pro Marcelo Nova (grilo-falante). As atuações das minas, que tiveram que atuar mesmo, são horríveis.

As cenas de sk8 são bem paia – Chorão já foi um bom skatista, mas hoje, com aquela banha, só com dublê –, assim como as de surfe (tudo figurante).

A história é pífia e o filme tem aquele clima malaco paulista d'O Invasor, só que sem o show que o Paulo Miklos deu, né (sem contar no resto do elenco, com atores de verdade). Até o tom esverdeado da fotografia evoca esse filme.

Te falar que deu pra divertir, viu. Tá certo que tem as músicas de auto-ajuda do CBJr. aqui e ali, e o filme, como fica claro no final, se propõe a ser sério – o que deixa a coisa toda ainda mais involuntariamente engraçada.

Ah, e esqueci dos coadjuvantes: João Gordo e Marcos Mion no papel deles mesmos (babacas) e, vestido de Elvis-Gordo-Cantor-De-Puteiro, o inefável... TIRIRICA! [Morri.]

Enfim, valeu os cinco pila. Recomendo ver com a galera, com muita cerveja, cascando o bico.

[Não acredito que acabei de fazer uma análise do filme do Chorão.]

***

Marcus
10:39 am (2 hours ago)


Pois é, achei que iam ser umas duas linhas... tipo, gostei / não gostei.
Valeu por me deixar testemunhar o mico

***

Fábio
10:46 am (1½ hours ago)


Estou arruinado.

Ah, já fudeu tudo mesmo, lembrei de mais umas coisas:

- a fotografia esverdeada parece também com aqueles filmes de terror dos 1990s, como Re-Animator, Príncipe Das Sombras e Dois Olhos Satânicos;

- O Tiririca Elvis-Gordo-De-Puteiro tem uma camisa escrito "hardcore" com a mesma fonte do AC/DC;

- tem uma mina gostosinha e aparecem uns peitinhos de leve (o público-alvo do filme já vai descascar uma nessa cena);

– tem um mano com saxofone numa rodinha de violão na praia;

[No meio do filme, lá pra 1h20min da madrugada, comecei a ler o problema metafísico-ontológico de Parmênides quanto à existência do ser e da natureza. "Não há nada que impeça o ser de alcançar a si mesmo".]

- "enfia essa buceta no cu" já entrou pro meu repertório de ofensas.

sábado, 31 de maio de 2008

Chesnut Tree

O castanheiro de Winston é o mesmo de Roquentin. Ambos revelam a revelação terrível da ruína e da traição das crenças outrora inabaláveis.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Bingo deprê

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depressão | ansiedade | pesar | abandono |
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angústia | desespero | dor | desânimo |
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tristeza | pânico | sofrimento | desamparo |
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suicídio | angústia | agonia | desistência |
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Imprima a cartela acima e passe aos seus amiguinhos de trabalho.

Cada um vai completando com os sentimentos durante o dia.

Quem completar grita bingo! e comete suicídio.

Divirta-se.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Sei que às vezes uso palavras repetidas.

"Por favor, o que falta para o mundo acordar em relação a tudo? Acordem! Acordem! Acordem! A evolução científica é barrada pela ignorância religiosa, a evolução do Brasil é barrada pela vagabundagem universal. Nas escolas ninguém quer ensinar e ninguém quer aprender. Ninguém quer ler um livro, ninguém gosta de ter que pensar... é o FIM.

As notícias me envergonham, os desocupados de corpo e alma querem linchamento público, pedem a proibiçao do aborto e depois a pena de morte para os sobreviventes ao aborto. O mundo está ao contrário e quase ninguém reparou. Guerra para quem não precisa de guerra e paz para os que precisam de uma sacudida geral?"

domingo, 11 de maio de 2008

Se duvidar, eu tenho mais de um mar de provas.

Ruim não foi, longe disso. Um show que abre com Mil Acasos não pode ser ruim. Um show que tem Dois Rios, Canção Noturna e Zé Trindade não pode ser ruim. Um show que fecha com Tão Seu não pode ser ruim. Tudo tocado com extrema competência, total entrosamento e nenhuma má-vontade. E o público ainda estava surpreendentemente comportado para uma apresentação gratuita – sem falar que a cervejinha e as boas companhias garantiriam a diversão, mesmo naquele fim-de-mundo que é São Bernardo do Campo –, então qual foi o problema?

Samuel é um excelente compositor, um frontman razoável, uma ótima voz, que nunca falha, mesmo nas canções com notas altas – ainda que em Dois Rios a terça abaixo em relação ao disco deixe a música caidaça –, mas sua egotrip de guitar hero já encheu o saco, e não é de hoje. Ele não é virtuoso, não é a dele, nem são suas influências. Aqueles interlúdios com solos bobos, ligados de três notas e riffs desconexos, que em nada se conectam com as músicas que vêm as seguir – me senti ouvindo os interlúdios renascentistas dos discos do Rhapsody (Of Fire). E ainda ontem houve até vinhetas de teclado.

Sem falar que – e agora chegamos ao grande problema – a falta de culhões, a bunda-molice, o acomodamento da banda ao vivo chega a ser irritante. A abertura, com o tema de Três Homens Em Conflito (filme de Sergio Leone, trilha de Ennio Morricone), além de ser chupinhação do Metallica, que usa outro tema do mesmo filme, não muda desde o Cosmotron (2003). As vinhetinhas guitarrísticas de Três Lados e Uma Partida De Futebol são da época do MTV Ao Vivo (2001). E o repertório praticamente não muda, parece que eles realmente querem ser uma banda genérica, sem fãs de verdade, apenas com um público “baladeiro”, porque é difícil de aturar sempre a mesma coisa, aquele lance sem surpresas: você já sabe exatamente o que vai e o que não vai ouvir, não tem aquela expectativa de “será que vai rolar um lado B?”, pois isso nunca acontece. E não é porque ontem foi um show de graça, patrocinado pela Toyota, portanto atípico, etc. Essa postura se mantém até em abertura de turnê. Ontem foi o cúmulo: um show só com DUAS músicas do Carrossel (2006), o disco mais recente.

Tocar covers, quando relevantes, também é legal: mesmo a toque de caixa, visto que é o mesmo arranjo de Canção Noturna, a versão de Vamos Fugir, do Gil, salvou a canção; e a de Beleza Pura, do Caê, além de ter ficado com a cara da banda (incluindo a malandra e manjadíssima cozinha de Taxman, dos Beatles), tornou uma música chatíssima algo agradável. Mas ontem, além dessas duas, ouve uma totalmente dispensável cover de Loirinha Bombril, d'Os Paralamas, que, por sua vez, além de ser muito chata, é versão de Parate Y Mira, do Los Pericos. Ou seja: se fossem homenagear a banda – o que já é estranho, já que, embora fosse uma óbvia influência tanto na sonoridade geral da banda quanto na guitarra do Samuel (Samuel influenciado por Herbert, influenciado por Lulu), era sempre negada nas entrevistas –, que escolhessem uma das tantas canções maravilhosas da melhor banda brasileira de todos os tempos.

E até quando eles vão insistir (eles, já tiozões tocando de terno – sério!) nas early songs? Pra que ficar insistindo em Jackie Tequila, Pacato Cidadão, Garota Nacional e Esmola, se já há hits do mesmo calibre na fase adulta, como as recepções calorosas a, por exemplo, Vou Deixar e Acima Do Sol, provam isso?

Eles já demoraram para ousar no estúdio: a desprodução de Dudu Marote no Calango (1994) já foi um passo atrás do epônimo, de 1993. O Samba Poconé continuou sem muitas inovações. Mesmo com o jogo mais que ganho, milhões e cópias vendidas graças à chuva de hits e o mercado em chamas por causa da fase idílica do Plano Real, o disco Siderado (1998) – o primeiro com uma produção decente, a cargo de Paul Ralphes, o mesmo do excelente Escuta Aqui (1999), do Biquíni Cavadão – ousou pouco, com Resposta e No Meio Do Mar, pois o resto é mais do mesmo. Só em Maquinarama (2000) a carroça começou a andar de verdade, e eles começaram a virar a banda incrível que são hoje.

Então é praticamente obrigação artística deles, após tanto dinheiro e sucesso, com tudo extremamente consolidado em mais de 15 anos de carreira, de três excelentes discos adultos debaixo do braço, começarem a se impor perante o público.

Eles não são a melhor banda do país – o trono ainda é do Pato Fu, pela extrema coragem e pelo talento ímpar –, justamente por esse medo de arriscar. E eu digo isso com a certeza de quem era o único lá, ontem, a comprar os discos na época, desde o primeiro, e ver shows deles há mais de 12 anos.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

A certeza da certeza.

[Faxina existencial. Volte mais tarde. Estamos trabalhando para melhor servi-lo.]

Só dizem o que dizem: o bem e o mal.

[“Talvez não exista nada no mundo que seja tão importante para mim como esse sentimento de aventura. Mas ele vem quando quer; desaparece tão rapidamente! Como fico seco quando ele me deixa. Far-me-á essas curtas visitas irônicas para me mostrar que minha vida é um fracasso?”] [Jean-Paul Sartre, A Náusea]

E então de quem você nem espera nada te decepciona. Mas o que leva as pessoas a uma vida tão vazia a ponto de a razão de ser delas tornar-se a conspiração e a maledicência. Gente esquisita / Normalmente incompetente / Normalmente inconsistente / Normalmente inconseqüente / Fica pelos cantos / Fala mal de todo mundo. Gente que faz da tristeza dos outros a própria alegria, pensando que usa os outros impunemente, sem que estes percebam. Pessoas de alma bem pequena / Remoendo pequenos problemas / Querendo sempre aquilo que não têm. Mais que injustiçados pela vida, que não lhes concede a plena felicidade e os sonhos realizados, e pela História, que não lhes absolve como pessoas geniais e incompreendidas pela massa medíocre, eles se acham mais espertos, mais correto, mais diretos. Eis que eles sabem o dia de amanhã / Eles sempre falam num dia de amanhã / Eles têm cuidado com o dia de amanhã / Eles cantam os hinos no dia de amanhã / Eles tomam bonde no dia de amanhã / Eles amam os filhos no dia de amanhã / É que eles têm medo do dia de amanhã. Seguram escorpiões nas mãos e acham que não serão envenenados. É de dar pena, e isso é pior que a morte – ser digno tão-somente de dó, sequer escárnio, apenas compaixão, de tão patéticos que são esses pobres-diabos ricos.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Esse olhar terrível, como se fosse um muro.

[Pequena epifania de alguém: "amar e odiar são o mesmo inferno".]

O melhor caminho para extinguir um amor (ou um ódio) é a Decepção com D maiúsculo, de Derrelição, que leva à surpresa horrível depois ao desprezo, e, por fim, para pôr fim, ao esquecimento. E ser esquecido e pior do que estar morto, Palavra de quem já morreu e já foi esquecido – e já matou e esqueceu.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Interlúdio

"Todo o problema, repito-o, estava em matar o tempo. Por último, acabei por já não me massar, a partir do instante em que aprendi a recordar. Punha-me às vezes a pensar no meu quarto e, em imaginação, partia de um canto e dava a volta ao quarto, enumerando mentalmente tudo o que encontrava pelo caminho. Ao princípio, isto durava pouco. Mas, cada vez que recomeçava, ia durando mais, pois lembrava-me de cada móvel e, para cada móvel, de cada objeto que lá havia e, para cada objeto, de todos os pormenores e, para os próprios pormenores, de uma incrustação, de uma racha, de um bordo quebrado, da cor que tinham, ou da qualidade de que eram feitos. Tentava ao mesmo tempo não perder o fio a este inventário e fazer uma enumeração completa. De tal forma que, ao fim de algumas semanas, passava horas, só a catalogar tudo o que havia no meu quarto. Assim, quanto mais pensava, mais coisas esquecidas ia tirando da memória. Compreendi então que um homem que houvesse vivido um único dia poderia sem custo passar cem anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se maçar. De certo modo, isto era uma vantagem." (Albert Camus, O Estrangeiro)

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Foolish and weak is any human love, but my bride not this.

[De.cep.ção, s.f. (l. deceptione). 1. Frustração de uma esperança; deslusão, desengano. 2. Surpresa desagradável.]

In extremis tu percebes quem te importas contigo e quem preocupa-se somente consigo. De que lado tu ficas, que que lado tu estás? É o instante de revelação, tão claro, certo e evidente que dá vergonha de tanta covardia e má-fé. Separam-se, então, as crianças dos adultos, pois os fracos não têm vez. Os fracos morrerão sós. Quem é confiável e sincero, quem está do seu lado, de mãos dadas na mesma marcha, e quem só fica à tua sombra, esperando para te usar como apoio enquanto for interessante. Enquanto os fracos em desalento ficam pulando de solidão em solidão, o amor se fortalece, metade a metade. É por um triz, à beira do abismo, olhando fundo nos olhos do Nada, que o amor se separa da carência e da conveniência. In extremis.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Faça uma lista de grandes compositores clássicos.

01. Vitezlav Novak
02. Antonin Dvorák
03. Wolfgang Amadeus Mozart
04. Antonio Lucio Vivaldi
05. Louis Hector Berlioz
06. Sergei Vasilievich Rachmaninoff
07. Piotr Ílitch Tchaikóvski
08. Arcangelo Corelli
09. Jacob Ludwig Felix Mendelssohn Bartholdy
10. Georg Friedrich Händel

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Ser corinthiano é ir além.

"Goiás é Brasil", disseram, na brincadeira de costume. E talvez fosse. Mas ontem a Nação Fiel, com 35 milhões de pessoas, se fez soberana. O Brasil ficou pequeno para o Sporte Club Corinthians Paulista. Nada é maior, nada! (E que venha a Série B.)

quarta-feira, 30 de abril de 2008

So many ways to drown a man.

Tela preta, créditos, sirene. Rosto ensangüentado. Chefe de polícia recebe a notícia. Investigação + hospital + formatura dos policiais. To be a police officer means to believe in the law / and to enforce it impartially / respecting the equality of all men / and the dignity and worth / of every individual. / Every day, your life / will be on the line / and also your character. You'll need integrity, / courage, honesty, / compassion, courtesy / and perseverance / and patience. Chefe segura na mão. No primeiro dia de trabalho, ele vê o furuto chefe como "policial do mês". Trabalha com um vagabundo preguiçoso. Prende o estuprador, mas se negá a torturá-lo – ao contrário, conversa com ele. Talk to me. Save yourself. "Little Italy", música italiana, uma pessoa muito considerada na região. Musica italiana ao fundo. Passa o tempo: bigode, costeletas, cabelo grande. Lembro de Falcões Da Noite, aquele totalmente decalcado deste. Sempre reclamam do preciosismo dele. A mãe, só só fala italiano, dá a entender que ele lutyou na Guerra Da Coréia. Sai dirigindo pelas estradas cantando (mal) árias da terra-avó. Compra um sheep-dog na rua por cinco pratas. É uma pessoa tão boa-boba, desajeitada de tão ideal-idealista. [Lembra-me alguém, mas não me lembro quem.] Vai a uma palestra sobre Cervantes, ou uma aula de Espanhol. Encanta uma moça: é divertido. Ela é "bailarira, atriz, budista". Dançam balé na chuva. O colega tira sarro porque ele está lendo a biogafria de uma coreógrafa. Ele tem brilho nos olhos. Fica uma tempão mostrando ele pop-cult descolado com a loira entre os hippies. Ninguém nem acredita que ele é policial. Vira detetive, muda duas vezes de DP. Só um amigo – ambos dando bandeira e com larica na estação de trem, após aula de "degustação" na Academia. Chega a primeira propipna nas mãos, do "judeu Max". Ele pega, fica em casa, aturdido. Cresce o cão, cresce a barba. Todos o aconselham a aceitar o dinheiro, a fi mde não trazer problemas. Vai perdendo a graça e a iridescência do olhar. Conhece a namorada, vizinha, ouvindo Di Stéfano no quintal. Quer mudar de distrito. Ninguém o quer porque anda à paisana. Alguém já me disse que você tem tendências para a auto-piedade? Policiais mais velhos escondem tudo fingindo ajudar; os mais novos se indignam. Quem confia num policial que não aceita dinheiro? Mãos trêmulas, tensão, crises de culpa. Did you ever hear the story of the wise king? Well, there was this king, and he ruled over his kingdom. Right in the middle of the kingdom there was a well. That's where everybody drank. One night, this witch came along... and she poisoned the well. And the next day, everybody drank from it except the king... and they all went crazy. They got together in the street and they said... "We got to get rid of the king, 'cause the king is mad." And then that night, he went down and he drank from the well. And the next day all the people rejoiced... because their king had regained his reason. [Ele tem um piercing igual ao meu. Ele tem uma figura belíssima. Em comum, acho que só a bebedeira, os olhos caídos envoltos por olheiras e o agir bobo.] Um amigo, um cão, uma mulher. Ele insiste, é meio Carlos Lopes. Frank, você está se comportando como criança. Começa a descontar os problemas nas únicas pessoas que tem. Se eu pudesse trabalhar sozinho... ele surta, sua, seus olhos apagam. Prende um agiota; quando volta, o cara não só está solto, mas conversando com os outros detetives. Num simbolismo – figura de Jesus, roupa branca manchada de sangue – tem praticamente um amok, espanca o bandido, quebra tudo, xinga todos. Não interessa quem sofrerá, mesmo eu. A mulher vai embora. Encontro no café. Continue se torturando! / Fique comigo! / Não, não! Corrida na rua, desespero, a música vem num crescendo – o único momento com trilha sonora que não é na colônia italiana – It's finished! Tomadas inusitadas o tempo todo, misturando cortes bruscos com longos planos-seqüência. O processo é uma farsa, os superiores não dão a mínima. Muda de distrito, briga logo na chegada, é hostilizado, mas o chefe ajuda: ele consegue mais um amigo! Vão à imprensa. Transferido de novo, para ficar só. Scared, miserable, dreading to go to work. Vai para Narcóticos, muito mais dinheiro, propinas de 40 mil dólares. Armam para cima dele. Omitem-se quando ele precisa de cobertura. A mão presa na porta, cortada, o sangue o desespero. Não devemos falar com ele, pois ele não presta. No hospital, despreza o distintivo-de-ouro. What's this for? For being an honest cop? Or for being stupid enough to get shot in the face? Estado deplorável. Quase-choro. Angústia. Tem alta: paralisia do lado esquerdo, surdez de um dos ouvidos, vertigem. Imprensa novamente. Pequena-Itália novamente. Ele e o cão. Sentando à calçada. Sísifo triste. Créditos.