sábado, 29 de fevereiro de 2020

No abstrato abismo equóreo em que me inundo.


Em paisagens monótonas de tédio, arruinadas, recendendo a estreiteza e podridão, tu estavas coberto de insetos, sob um sol gris, apagado, mortiço, e eu te mandava deitar, morrer, sumir. E, de repente, um dilúvio de águas geladas em alamedas tão familiares, noite escuríssima - e eu me perdia e ti e de mim. Mas nenhum de nós estava ali, e penso que não estou mais em muitos lugares, apenas cheio de infindáveis vazios.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Sem perturbar sua claridade, mas também sem diminuir minha tristeza.

Dois meses.

Queria que tivesse visto de perto minha já nem tão nova casa, e novamente o nosso time desde sempre; meus bichos, meu espaço, meus novos e sempre incertos passos. E te contar meus novos erros, e quem já não sou sem você. Nas noites em claro e nos dias escuros.

O que me tornei?, não sei. Alguém diante de uma imensidão de ausências, talvez: tropeçando, caindo, sem ver o caminho ou saber o destino, mas, eu, acho seguindo. Um caminho que já não há, de alguém que jamais fui. Sobra tanto espaço que, por vezes, me sufoca.

Vivo o luto e luto do meu jeito. Alguns dias, mudo, outros, ansiado e contrafeito. Às vezes dá um negócio no peito: viver é, sobretudo, solitário. Talvez mais do que morrer?, mas isso não poderei dizer por ora.

Você gostava de chuva para dormir. Hoje chove bastante e você dorme para sempre. As flores, os pássaros, tudo que você amava resolveu seguir caminho sem ao menos te esperar. O mundo inteiro está por aí, ao meu redor e acima de você, quase igual, em vastidões de esquecimento e mágoa.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Por não te poderes levantar do abismo em que te reclinas.

Noite passada, te vi andando pelas ruas do bairro, em silêncio. Tudo era silêncio. Eu te alcançava nas ruas vazias de uma manhã tépida e perguntava por que você não se cuidava, por que não lutava, por que não tentava ficar. Mas não havia resposta, tudo permanecia sem qualquer som. Acordei como quem morreu um tanto, e não consegui mais dormir.

Já nessa noite, no quintal do que foi nossa casa, eu me preparava pra ir a um lugar que te era muito querido; minha mãe, e tua esposa, perguntava por que, logo num dia tão quente. Ao justificar que te era um local querido, você aparecia, novamente sem dizer nada. No que eu me virava, percebendo estar em terras oníricas, e dizia: mas você está morto. E dormi o sono adoecido de quem já não quer sonhar.

E sempre muito calor. Nenhum som e muito sol. O mesmo sol que ardia quando você se apagou.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

E o sorriso de uma alegria que eu não tive.


"Wherever I am | I'm always walking with you | I'm always walking with you | But I look and you're not there. || Whoever I'm with | I'm always talking to you | I'm always talking to you | And I'm sad that you can't hear | Sad that you can't hear." [Cat Stevens, How Can I Tell You]

Hoje faz dezesseis dias que você morreu. Dezessete da última vez que te encontrei com vida, ainda que já se esvaindo. Dezoito de nossa última breve e aflitiva conversa. Ainda acordo pensando que você está em casa, me assusto com o que seria sua respiração adoecida, penso em te telefonar. E no que você pensaria sobre tudo que faço, penso, sinto, sei, não sei, sou, não sou. Ainda sinto o cheiro do hospital e sei descrever exatamente o barulho que as pás de terra fizeram no teu caixão. Do desamparo de minha família, e da minha sensação de estar no meio de um imenso deserto, e que sempre estivesse lá. Eu e o deserto, só faltando que notássemos um ao outro. Da tua cor no necrotério, do semblante de todos que foram se despedir de você, do brilho alvinegro da tua derradeira veste. De frases, algumas ditas por mim, outras por você, as demais por outrem, como ‘Hoje eu não estou muito bem, não’; ‘Eu te amo. Não desiste, porra’; ‘Por que você fez isso com você?’; ‘E agora, o que vai ser de mim?’; ‘Fica com Deus. Fica com Deus. Fica com Deus’. Ainda falo o tempo todo com você, e às vezes acho que quase posso te ouvir. Suas histórias repetidas, exageradas; suas opiniões cheias de razão, respostas sempre blasé, manias e maneirismos. Mas não posso. Não ouço. Você não fala. Não poderei te ver, porque você já não é e não há. Porém, você ainda está, como esteve, e estará, não apenas na obviedade inevitável das memórias que sucederão o pesar, a dor, o vazio, mas em cada gesto meu. Em cada mínimo gesto. Do jeito de arrastar os chinelos ao modo de torcer em silêncio pelo Corinthians no estádio. Do azeite em tudo quanto é comida ao jeito pragmático de lidar com as coisas. Da intimidade com a natureza ao  cruzar de pernas e reclinar na cadeira ou no sofá. Da teimosia ao fatalismo. Comer pouco, não chorar, esconder a fraqueza com mais força. Sempre se transformar. Porque a vida, até a morte, é tudo reinvenção. E, de tanto ser assim, também repetição. Obrigado por tudo, até pelos erros. Sigo errando por aqui também. E que um dia nossos átomos se rearranjem, juntos, em formas tranquilas e perenes.

The silence of sound [III de III]


Encerrando o Listão do Vanzão 2019, a lista internacional, certamente a mais idiossincrática e difícil de fazer.

Батюшка, Панихида
Projeto polonês [ninguém faz música extrema mais doida que os polacos] que é basicamente uma missa ortodoxa tocada como black metal  - sim, e isso mesmo, o primeiro disco [Litourgiya, de 2015] é sensacional, e ao vivo é uma experiência extasiante, com todo o cerimonial no palco [velas, turíbulos] e as vestimentas sacerdotais. Porém, houve uma treta no projeto, e, assim como no Gorgoroth, enquanto a justiça não decide quem é o dono da marca, há duas bandas ativas com o mesmo nome; a diferença aqui é que esta usa o nome em cirílico e outra grafa a transliteração [Batushka]. Na prática, este Батюшка segue a linha evolutiva do debute, enquanto o outro parece alguém tentando imitar porcamente a estreia do grupo. Abra sua cabeça e mergulhe nisto aqui, é coisa finíssima.
Ouça: Песнь 1


Këkht Aräkh, Night And Love
A estreia desta one-man band ucraniana, aparentemente, não tem nada demais: a capa, os timbres, as levadas, tudo remete ao black metal norueguês noventista. E, de fato, não há nenhuma grande revolução aqui: levadas meio Darkthrone, tecladinhos meio Burzum, aquele vocal áspero, mais falado que cantado [entre o Nocturno Culto e o Satyr]. Mas, olha, deixei o disco rolar aqui na primeira vez, e tudo fluiu de forma excelente: intros, intermezzos e outros de violão [ótimo timbre, aliás] entram e saem de forma coesa; teclados não cedem à autoindulgência travestida de minimalismo; tem momento inesperados de declamações quase sussurradas, de intensa melancolia – e é legal que dá ao mesmo tempo um respiro e um reforço no vazio espiritual que o disco pretende passar. Um disco legal de ouvir, mostrando que não precisa nem negar o passado e nem se apegar demais a ele pra fazer uma obra de arte competente e bem feita.
Ouça: Elegy For The Memory Of Me



Oiseaux-Tempête, From Somewhere Invisible
O som é grandioso como uma trilha sonora. Solene feito uma sinfonia. Tem baixo, guitarra, bateria. Teclados discretíssimos. Orquestrações de sopro e cordas. E Vocais declamados. Ah, e tudo feito na base da improvisação. Fora esse descritivo, não faço ideia de como enquadrar esse ~coletivo~ francês, que me chamou a atenção há quase dois anos, quando ouvi a estreia, Ütopiya, de 2015. É post-rock/metal, progressivo, krautrock, free-jazz, free-rock, free-music?, não faço a menor ideia, e, de repente, nem eles. Mas ouça esse From Somewhere Invisible com atenção, pois a viagem e o assombro são garantidos.
Ouça: We, Who Are Strewn About In Fragments



Rivers Like Veins, Z Iskier Srebrnych Orszaków

Mais um grupo da Polônia, estreando com disco cheio, após um EP [2017] e um split com a banda Stworz; black metal com boa produção, som sujo mas tudo bem audível, e nada mal feito; aquela pegada polonesa única nas timbragem e levadas; uns tecladinhos Burzum [impressionante como é referência nisso], batera meio primitiva, mas sólida, vocal OKzão; cadenciado, nem muito lento, nem muito desesperado [quase não tem blastbeat], com uns ritmos mais roquinho; acaba ficando meio pop [pro quão pop esse tipo de desgraceira pode ser]; som de batera maneiríssimo e – o que mais me atraiu – riffs [coisa meio rara no estilo] matadores, sem guitarras fazendo trêmolo o tempo todo. Baita disco.
Ouça: Kształt Obcego Ducha 


White Ward, Love Exchange Failure

Em 30/07/17, escrevi no Twitter: “E este White Ward mano, um post-black metal impiedoso com SOLOS DE SAX MOENDO no meio. E fica foda!”. No final daquele ano, Futility Report entrou na lista de melhores discos internacionais: “Descobri por acaso este quinteto ucraniano de post-metal, e que belo acaso: black metal gélido, climas contemplativos de post-rock (com leves toques de eletrônica), algumas levadas de pós-punk e hardcore aqui e ali, e muitas viagens malucas de jazz se debatendo em seis longas faixas. Por mais caótico que pareça, o resultado é sempre muito coerente, ainda que inesperado. A música vai aonde você nunca espera, e, mesmo assim, quando ocorre a mudança, você pensa que só poderia ser daquele jeito mesmo. Imperdível”. Pois este Love Exchange Failure está mais coeso: se foram, por exemplo, os climas pós-punk e hardcore; mas, mesmo assim, surpreende, pois as partes brutais estão mais desgraçadas, e a as partes jazzy estão quase chill-out.
Ouça: Love Exchange Failure





That’s all, folks! Se ainda não viu, veja a lista nacional e a lista latina. E até daqui a pouco.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

The silence of sound [II de III]


Chegou a parte mais variada do Listão do Vanzão: a seleta latina tem ritmos e países bem diversos, e é a seção mais prazerosa de ser feita.



Electric Mistakes, Vicente

Conheci estes bogotanos [um duo] meio por acaso – uma vez que a Colômbia não é uma país com tradição em rock [conhecia apenas Nicolás Y Los Fumadores, Aguas Ardientes e Piel Camaleón] – e foi surpreendente descobrir este som melancólico, garageiro [destoando do pop meio electro de grande parte das bandas latinas atuais, especialmente da cena mexicana, a maior e mais influente dos últimos temos]. Juan Hernández [voz, guitarra] + Laura Perilla [bateria], que, ao vivo são um quarteto, com adição de baixo e outra guitarra, fazem um som obsessivo, quase uma opressão sonora: ritmos duros, pesados, secos, hipnóticos, climas de pós-punk, dor e melancolia [mesmo nas músicas sonoramente mais leves, o clima  permanece denso], e letras que falam sobre perturbações mentais sortidas. E com a capa latina mais bonita do ano.
Ouça: La Fe


Little Jesus, Disco De Oro
A estreia destes mexicanos, em 2013 [Azul], é dos meus discos preferidos: indie pop rock dançante malemolente, ao mesmo tempo emocionante e sem se levar a sério [tem horas que lembra o nosso Holger]. Esperei muito este terceiro disco, e logo veio o sorriso que poucas bandas me dão: Little Jesus tem sabor de sábado, duas da tarde, aquele solzão rachando, você com uma long neck de draft, sal + limão. Aí você até lembra dos problemas, sabe que alguns estão além de suas possibilidades de resolução, mas sabe que, no fim das contas, tudo vai dar certo e que você vai ficar bem, e com quem você ama por perto. Leve-os para sua playlist de férias. “Fuegos artificiales | En todas las ciudades | Y en mi estómago también, vem | Entendí las señales | Tú y yo somos iguales | No nos pueden detener | Ni entender.”
Ouça: Los Años Maravillosos


Los Mesoneros, Pangea
Estes venezuelanos [radicados no México]  seguem voando. Em dois anos, dois discos de altíssimo nível. A expectativa por este lançamento estava lá em cima, e não decepcionou, pelo contrário, só confirmou a vitalidade da cena local. A faixa-título, com participação da colombiana Elsa Carvajal [Elsa Y Elmar], é a coisa mais bonita que ouvi neste ano. Melódica e harmonicamente, uma joia pop: simples, bem cuidada, toca fundo em letra & música. O disco em si segue uma linha mais ‘animada’, mas sempre bela e emotiva. Los Mesoneros faturam pelo segundo ano seguido o título de melhor álbum latino que ouvi. "Existen fuerzas | Que nos acercan | Que nos alejan | Y si se enfrentan | ¿Cuál queda?"
Ouça: Pangea



No Rules Clan, Pantone
Desde o debute, Rap Nativo [2012] eu não ouvia falar ou lembrava deste do trio colombiano. Direto de Medellín, Anyone/Cualkiera e Sison Beats, junto do DJ Kario One, fazem um som extremamente consistente neste disco, mesmo sendo bem jovens [média de 25 anos]: rap assumidamente noventista, no estilo relaxadão da saudosa Death Row [ex-gravadora de Dr. Dre], acrescido de jazz, pop, milongas, boleros e outros tantos ritmos, especialmente latinos. Tem o flow necessário pra manter a atenção, mas sem o excesso de discurso que torna muitos discos de rap cansativos de ouvir num fôlego só. Serve pra uma caminhada, serve pra relaxar. “Verdades son verdades por mucho que se escondan | Y como esto es rap yo no digo nada y dale play al disco.”
Ouça: Give Me The Loop


V/A, Fuego: Canciones De Emergencia
Vários artistas chilenos lançaram, neste ano, canções sobre os protestos que chacoalham o país feito terremotos: Leo Saavedra, [ex-Primavera De Praga], Kuervos del Sur, Ases Falsos [que já figurou num Listão do Vanzão], Alex Anwandter, Ana Tijoux... mas a iniciativa de Yorka Pastenes [que apareceu por aqui ano passado, com o duo que tem com sua irmã Daniela], artista engajada full-time, é incrível: pediu a seus alunos de uma oficina de composição musical que trouxessem composições sob o tema ‘fogo’, dirigiu e produziu o resultado, lançado por um coletivo chileno, acrescido de uma canção da própria dupla Yorka. Um disco obviamente irregular, muitas vezes urgente demais, às raias da pressa [o que é perfeitamente compreensível], que por ora resvala na ingenuidade, porém, absolutamente necessário. Uma obra já destinada à História.
Ouça: Cae



Aqui tem a lista nacional e logo mais ter a terceira e última parte, com meus discos internacionais prediletos do ano.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

The silence of sound [I de III]




[Devido ao adoecimento e à consequente morte do meu pai [4/12], com todas as questões práticas, para além das metafísicas, que isso trouxe, traz e trará, neste ano o Listão do Vanzão será mais enxuto em comentários, e sem as menções honrosas, senão não ficaria pronto neste ano; vai ficar muita coisa boa de fora, mas paciência. Pelo menos os selecionados são, como de praxe, gabaritadíssimos.]


Pois vamos à seleta nacional de disco que mais curti escutar neste ano.


Ave Sangria, Vendavais
Em 18/04/2014 escrevi isto no Twitter, após um espetáculo no Sesc Belenzinho: “Esse show do Ave Sangria foi das coisas mais ricas musicalmente que já vi: hard rock, psicodelia, prog, samba, maracatu, latinidad à Santana...”. Pois a mistura continua neste disco novo, após hiato de incríveis 45 anos!, com essa mistura toda que já citei - só que mais coesa, com os elementos mais espalhados pelas faixas do que tudo de uma vez só -, soando tudo redondinho, como um Alceu Valença tendo os Novos Baianos, fase ‘Ferro Na Boneca’, como banda. Bem tocado, bem gravado, bem produzido, com belas e esclarecidas letras [ "Eu tenho medo | Por mim e por vocês | E pelo que vem depois do fim deste mês."]. Vai bem a qualquer hora, ouve que não tem erro.
Ouça: O Poeta






Beto Cupertino, A Gente Vai Encontrar Sossego

Segundo disco do maior artista que Goiânia nos deu desde Mirosmar, finalmente temos um trabalho do nível de sua eterna banda Violins. Para quem gosta do já clássico Direito De Ser Nada [2014], não tem erro aqui: aquela insustentável leveza no meio de tantas arestas, a busca por alguma paz no meio e tanto caos, a crescente maturidade e, tempos tão niilistas e desesperançosos. Beto aceita o fado e encara os fatos. Um álbum inspirador, mesmo em sua aparente incompletude filosófica do ser-aí-em-qualquer-lugar ["Fica a gratidão do meu pesar | E meu constrangimento por viver | Sem graça do Divino | Sem compromisso."]. E, por tudo isso, o disco nacional que mais curti ouvir em 2019.
Ouça: Baque Do Instinto




Continental Combo, Cósmica Conexão
Os sazonais paulistanos do CC estão de volta, com seu rock sessentista à Byrds [guitarra de 12 cordas é característica demais, não tem jeito]; eles sempre me atraíram, desde a estreia epônima lá em 2005. A boa notícia, além da volta, é que o  som ganhou bastante em psicodelia, ficando bem mais denso, e, melhor!, com uns toques meio Clube da Esquina, aquele proguinho nacional maroto 1970s. Tem faixas predominantemente acústicas, percussões insuspeitas, abrindo muito , leque, porém, sem descaracterizar o som já estabilizado. Discão pra dar uma viajada suave.
Ouça: Andaimes E Cavalos





Dresden, Azul

A capa nacional mais bonita do ano embala o post-rock bacana do Dresden, de Ribeirão Preto, que estreia com este belo EP. Se você curte post-rock nacional, como Kalouv, E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, ruído/mm, num tem erro: é aquele som tranquilo que gira concentricamente até o caos controlado – porém, com mais melodia do que caos, e mais para o formato ‘canção’ [o quão uma faixa instrumental possa estar nesse âmbito], do que longas viagens eletroeletrônicas – ou seja, bem mais pro Explosions In The Sky do que pro Mogwai, por exemplo. Ótimo para momentos contemplativos, de ser-em-si.
Ouça: L'appel Du Vide (Chamado Do Vazio)



Jair Naves, Rente
Nunca havia me interessado pelo trabalho desse rapaz porque não me aprouvia sua voz no Ludovic [embora o som e as letras fossem de qualidade], sua famosa? Ex-banda. Continuo achando seus vocais estranho, porém, com a sonoridade mais contida, do que o rock tenso e intenso de outrora, dá outra conotação a suas tonalidades. Combina, ou, ao menos, não incomoda. E que melodias e harmonias bacanas, parece, vá lá, o Violins do Tribunal Surdo tocando as músicas do Aurora Prisma, aquela tensão contida, “a ponto de explodir”, como o próprio Jair canta na primeira faixa. Baladas tortas, roquinhos tortos, tudo bem instigante, e visceral mesmo quando delicado: “Quão forte é o instinto que me faz sobreviver | Eu ainda existo, não me deixa esquecer!”. Surpreendeu-me. Discão!
Ouça: Alívio Cômico/Palanque




Nos próximos dias, vêm as partes II [latina] e III [internacional] da lista, fiquem ligadinhos.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

E, ao seu olhar, tudo que é cor muda de tom.

Faz tempo que não escrevo aqui; nos últimos anos, este blog, o mais antigo que tenho em atividade ininterrupta, virou mero repositório das listas de melhores discos nos finais de ano. Em muito, é porque acabou a sutileza no país, nas relações: não tem mais cor, nem preto e branco, é só um acinzentado rude que contaminou toda a nação [e noção]. Doente eu, doentes parentes, doentes amigos, doente nação. Mas, a gente vai levando. E, de leva em leva, às vezes trazido pra trás, às vezes sendo levado sei lá aonde, cá estou, com quarenta anos. Se me sinto melhor ou pior que antes? Não é questão válida, assim como não tenho saudade de nada que vivi: a cada época, um Fábio, e procurei – muitas vezes falhando – ser e fazer o melhor possível. Tem coisa, gente, amores, que ficam, outras que passam, e tudo tem o seu lugar, a sua importância, pro bem e pro mal. Só sei que estou aqui, errando muito, acertando às vezes, fazendo amigos & inimigos, ouvindo música feia, propagando o comuno-satanismo, contando piada ruim e passando raiva com meu time. Cara velha, barba branca e lábios rotos. Mais vivido do que tendo o que viver, muito prazer, aquele abraço e até mais [não] ver.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Confesso que ouvi (III de III)

Depois das listas internacional e nacional, vamos agora com a lista latina [que, como expliquei no primeiro post, resolvi fazer separado neste ano].
   
 
LATINOS

Amanda [El Cómodo Silencio De Los Que Hablan Poco]
Uma banda com esse nome já chama a atenção; com uma capa bonita dessas, mais ainda. Fui ouvir e, desta vez, a boa cena chilena traz um pop ora como os argentinos do Julio Y Agosto [meio folk, meio indie], ora mais melancólico, como o mexicano Siddharta, com várias letras de solidão e despedida como Reyno [também do México] – mas sem o ar sombrio que a capa sugere. E, de repente, podem vir guitarras pesadas e um refrão viajante pra quebrar expectativas. É um disco pra ser ouvido e absorvido sem pressa: a recompensa é garantida.
Ouça
: Zapatillas



Aztlán [Zoé]
Conheci a banda há uns três ou quatro anos com seu MTV Unplugged/Música de Fondo [de 2011], que inclusive tem participação de Denise Gutierrez, do Hello Seahorse!, que daqui a pouco aparece nesta lista, e só depois fui conhecer as versões originais, mais 'modernas', com bastante eletrônica, porém, já com as harmonias e melodias que me encantaram na versão 'violas'. Este Aztlán chega após longo hiato [o último de inéditas foi Programáton, de 2013] em que cada um foi cuidar da vida e de projetos solo [como o vocalista León Larregui, que lançou dois bons trabalhos nesse ínterim]. E o Zoé em 2018 vem sem grandes surpresas - talvez os teclados, que estão mais oitentistas, o que deveria ser ruim, mas funciona - só qualidade nas alturas, mesmo. Discão.
Ouça: Luci


Caiga La Noche [Los Mesoneros]   
Descobri esta banda por acaso, há pouco tempo, e olha que a cena venezuelana atual é bem legal, talvez a mais bacana que descubro desde a mexicana, mesmo com todos os problemas que o país enfrenta – o que faz com que muitos artistas se mudem para países como o Chile e o México [é o caso aqui], ainda que haja muita coisa legal em Caracas e nos arredores mesmo. Pop-rock dançante-melancólico bem na linha mexicana, porém, com momentos mais climáticos um pouquinho de anos 1980s e uma balada matadora [que escolhi pra vocês ouvirem].
Ouça: Riesgo


Humo [Yorka]
Tem disco [livro, filme, etc.] que simplesmente surge na hora certa, que combina com algum estado de espírito que você quer alcançar, afastar ou nele mergulhar de vez. E este duo feminino chileno [Yorka Pastenes e sua irmã Daniela] veio com um pop acústico, bucólico, sem pressa, tudo de que eu precisava num dia ruim. As dezesseis (!) faixas passaram e continuam passando feito brisa fresca no verão concreto de São Paulo. E, de quebra, ainda descobri isto: “Yorka tiene como uno de sus objetivos la implementación de actividades inclusivas para la comunidad sorda, por lo que el recital cuenta con interpretación en lengua de señas”.
Ouça: Humo




Son [Hello Seahorse!]
Um mero single competindo com discos cheios e EPs? Sim, porque é a melhor coisa que ouvi este ano, e me pegou desprevenido, de tão boa que é esta música. Já gostava da banda [conheci a vocalista, Denise Gutierrez, participando do acústico do também mexicano Zoé, com sua belíssima voz], mas o pop da banda, ora doce, ora semidançante, porém, sempre radiofônico, adquiriu aqui climas densos que lembraram meu amado The Gathering – e sem tirar a identidade da banda, apenas acrescentando mais camadas e caminhos a serem seguidos. Surpreendente e muito promissor.
Ouça: Son [óbvio!]



Menções honrosas pro meu já citado e amado Reyno [com o bom Fuerza Ancestral, porém, aquém do patamar alto que a própria banda estabeleceu nos discos anteriores], e pro indie meio power-pop argentino Las Ligas Menores, com Fuego Artificial.



Da Venezuela também vêm os pop-rocks honestões de Rech [Mentiras Cotidianas], La Fleur [debutando com Interestelar] e Vel France [Memorias Al Mar] e a jazzêra heterodoxa do Yilmer Vivas [Colors In My Mind]; pra não dizer que só tem o pop do Aterciopelados [que, aliás, veio com disco novo na qualidade de sempre] na Colômbia [que, de fato, não é um país com tradição de rock], tem o indie viajante do Nicolás Y Los Fumadores; a aparentemente inesgotável cena mexicana merece também a menção do post-dream-psicodélico? garage? pop? do Mint Fields, com Pasar De Las Luces; a Argentina também tem disco novo do indiezinho veterano El Mató A Um Policía Motorizado e o pós-punk divertidinho do El Sur; e, por fim, recomendo o ótimo rap cubano do veterano El Tipo Este [aqui em colaboração com o produtor e multi-instrumentista Al Quetz].


Espero que tenham curtido as dicas dos posts, e que tenhamos todos muito som bacana em 2019 :)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Confesso que ouvi (II de III)

Após a lista internacional, vamos o que topou de melhor com os meus ouvidos aqui na Terra de Santa Cruz.

NACIONAIS


Consertos em Geral [Manoel Magalhães]
Eu vi a capa e falei “ah não, mais um sub-hermanos, num dou 10s pra eu tirar esse disco e xingar”. Bom, de fato, é um hipster barbudo com terno de brechó e violão de náilon; é carioca, mas tem ecos do som ‘centro expandido sensível’ que infestou também São Paulo, e provavelmente do Oiapoque ao Chuí. Sim, tem aquelas letras que você nunca sabe se são certeiras ou simplórias; sim, tem a voz calma e sensível do Camelo, tem os metais da banda dele, tem a vontade doida de ser o Caetano do Leme. Porra, mas, com tudo isso, o disco é bom, é muito legal, provavelmente o disco nacional que mais curti ouvi neste ano. Não conhecia Manoel Magalhães, não sei de onde ele vem [além do RJ], nem aonde ele vai, porém, ele usa essas influências, e provavelmente tudo que ele ouviu na vida – Erasmo, tropicália, Beatles, pop-rock 80s, Skank, Clube da Esquina... e tudo se encaixa, a voz suave, as canções sem pressa, os dedilhados de violão, as guitarrinhas melódicas, tudo feito com bastante certeza.
Ouça: Fica




Fundação
[E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante]

Confesso que já gostei do EATNMPTD mais pelo pela potência do que pelo ato: uma banda paulistana de post-rock, na época [2014?], me fazia relevar, que, fosse no disco, ou fosse ao vivo, era legal, mas nada extraordinário [e o nome da banda me encanta(va) também]; fui vendo shows, vendo shows, saiu disco, saiu EP, mas este disco novo, embora não transmita o poder que a banda tem no palco atualmente [mas tudo bem, pior quando é o contrário, né?, banda boa de disco e decepcionante no show] já mostra claramente segurança e maturidade, apontando pra mais caminhos que a seara Mogwai-Explosions de dedilhadinhos x barulheira: tem uns grooves, tem metais, tem coisas mais pop, tem até um refrão repetido ‘feito mantra’ na última música. Divertido e, sobretudo, promissor.
Ouça: Karoshi
   


OK OK OK
[Gilberto Gil]

Gilberto Passos Gil Moreira, do altíssimo de seus setenta e seis anos, não precisa provar nada pra ninguém, inda mais pra mim, né. Tampouco eu precisei fingir interesse por tudo que ele fez desde o Realce [1981], quando passou a flertar com coisas funestas como [mais] reggae [acho um desperdício um violonista com ele passar décadas tocando guitarrinha em arranjos nheco-nheco], tecnopobre e gírias de tiozão pagando de antenado, até o lindão Luminoso, de 2006. Mas, neste lançamento, o nome é bem apropriado: após flertar com doença, velhice, morte, devido a problemas renais, nos últimos tempos, ele vem com um disco irregular, mas bem digno: quando adquire tons mais reflexivos [nunca sombrios ou fatalistas], analisando seus momentos recentes, alcança grandes momentos; nos momentos mais, digamos, ‘bobos’, mantém a dignidade, não compromete. Disco gostoso de ouvir, deixa aquele sorriso bonito igual ao do próprio Gilberto.
Ouça: Ouço



Pentimento [Odradek]
Post/math rock, direto de Piracicaba, com nome advindo de uma criatura de conto kafkiano [Os Cuidados De Um Homem De Família, de 1917], num caminho perdido que não é nem o ensolarado Totorro, nem o resto de pesadelo do Máquinas. Pelo que li por aí, ‘pentimento’ [‘arrependimento’, em italiano], é a alteração de um quadro durante o processo de pintura, o que deixa marcas na obra final, esse processo de mudança de ideia fica visível a olhos de especialistas. E isso tem muito a ver com o universo sonoro que a banda escolheu, onde tudo é sempre inesperado, quebrado, e tudo pode se desmanchar de uma hora pra outra. Não vai mudar sua vida, especialmente se você já é íntimo desse tipo de som, e nem é algo pra ficar ouvindo toda hora – tem que estar no clima ‘ordem na desordem’ [ou o contrário, sei lá] exigido, pois até as letras e os vocais são ~muito pouco usuais~, mas é tudo muito competente. Fiquei bem curioso para vê-los ao vivo.
Ouça: Curta Os Meus Medos E Anseios, Depois Curta Os Seus Em Silêncio



Saudade - O Corte 腹切り [Ventre]
Pena que, finalmente livre do loshermanismo vocal, e ainda mais próximo das dissonâncias do Gram, ou das paredes de guitarra do Violins, por exemplo, além dos climas d’E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante [com quem fizeram ótimos shows anos passado], a banda decida lançar este EP para anunciar um hiato. Sem grandes destaques, porém, não é demérito, longe disso: os climas vão se alternando, com maturidade e coerência, fossem uma só canção. Tem peso, melodia, boas letras, e tudo bem tocado e bem produzido. Que retornem logo, ou ressurjam logo, com projetos tão legais quanto este.
Ouça: Pulmão/Alfinete




Menções honrosas pr’A Era Do Vacilo [Violins], que, se não alcança a excelência difícil de ser superada de Direito de Ser Nada [2013], pelo menos não é decepcionante ou pouco inspirado como as duas últimas incursões musicais de Beto Cupertino [o projeto Tonto e seu disco solo], mantendo o interesse com boas letras, melodias honestas e a voz sempre belíssima do bandleader, e pro lindão, sincerão e comoventão Amor É Isso [Erasmo Carlos], que, com seus setenta e sete anos, segue tendo como único erro na carreira ter dado tanto cartaz pro tal do Roberto lá, e segue criando e produzindo, e seu novo trabalho é digníssimo, gostoso de ouvir e tem participações de Camelo e Emicida que caem muito bem nas respectivas faixas.




Confesso que, não só de rap, ouvi pouca coisa nova nacional [e, disso, não teve muita coisa que me interessou], por motivos de SEI LÁ, então esta segunda parte da seleta musica de dois mil e dezoito vai ficar mais curta que as outras, contamos com a compreensão da audiência, aguardem a terceira e última parte que a secção sudaca estará o puro creme da latinidad.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Confesso que ouvi (I de III)


Neste ano, resolvi dividir as listas entre internacionais, nacionais e latinos, pras coisas não ficarem nem tão injustas, nem tão díspares, nem tão enlouquecedoras pra serem escolhidas. Já aviso que, de internacional, meu interesse pelo mainstream continua baixíssimo, que os sudacas continuam mandando muitíssimo bhem em todas as áreas do pop-rock, e que, vergonha!, só ouvi rap antigo em 2018, não tenho nada novo pra comentar decentemente. Mas, vamos lá.


INTERNACIONAIS

Geometria [Thy Catafalque]
Certos caminhos da música extrema underground ora levam a arestas que chegam a machucar, ora a tempestades de névoa escura, atordoante, e ora, como no caso deste novo disco dos húngaros do Thy Catafalque, em que você se vê diante de uma paisagem tão esquisita e diversa do que você já presenciou, que fica até difícil descrever: sei lá se é black metal, se é metal, se é rock...?, tem jazz, pop, barulho, ambiente, você até se perde nos círculos concêntricos, sem que tudo vai acontecendo, ainda que sem muita pressa. O rótulo avant-garde cabe perfeitamente aqui, só não sei do lado que qual subgênero mais. E isso é muito, muito legal.
Ouça: Sárember




Heir To Despair [Sigh]
Terei que me repetir novamente [texto de 2015], só trocando o disco: "Os japoneses malucos do Sigh também são obrigatórios em qualquer lista de melhores sempre que lançam álbum, uma vez que a mistura de black/thrash metal com j-pop, heavy tradicional, jazz e eletrônico, às vezes tudo ao mesmo tempo, é sempre imperdível (...) mais uma boa mostra do quão amplo é o horizonte dos extremos da extremidade musical". O legal da banda é isso, tudo pode acontecer, tudo sempre acontece, você só não sabe pra qual dos TUDOS o disco vai puxar em cada lançamento. Em Heir To Despair, puxa mais pra melodia, como em Graveward [2015], por exemplo, do que pra desgraceira, como em In Somniphobia [2012], pra ficar nos lançamentos mais recentes. Mas quem é fã pode ficar tranquilo que as esquisitices e imprevisibilidades estão todas lá – como um power-thrash com flautas renascentistas e escalas asiáticas de guitarra ao mesmo tempo –, do jeito coeso & competente de sempre. E, de lambuja, a capa mais bonita do ano.
Ouça: Aletheia





Höllenzwang – Chronicles Of Perdition [Abigor]
Os veteranos austríacos apareceram lá na ‘segunda onda’ do black metal já fazendo um som bem diferente dos então referenciais nórdicos, com vocais afundados na mixagem, três guitarras e baixo que até hoje não se sabe se é feito na guitarra mesmo ou apenas está em volume mínimo, além de criativo uso de levadas medievais obscuras e uso de tímpanos na bateria. Após longo hiato, tentaram voltar duas vezes, com discos irregulares, que nitidamente tateavam por um lugar na cena atual, chegando a ‘modernizar’ o som com elementos eletrônicos. Mas desta vez deu certo: este disco mantém as características essenciais do grupo, tem tudo para agradar fãs de Deathspell Omega, com seu som massivo e sufocante que infestou a cena atual, para o bem [novos paradigmas] e para o mal [centenas de cópias], fornecendo uma cinzenta queda direto para a escuridão.
Ouça:
Christ's Descent Into Hell





In The Blue Light
[Paul Simon]

A luz melancólica parece ter finalmente incidido sobre o incansável Paul Frederic Simon: aos 77 anos, resolveu regravar versões [na minha opinião] mais melancólicas de canções suas de outrora [tem coisa do There Goes Rhymin’ Simon (1973) até o So Beautiful Or So What (2011)]. Mas claro que alguém que há dois anos fez o excelente Stranger To Stranger [que figurou na lista daquele ano, inclusive] não faria nada preguiçoso: mudaram-se arranjos, estruturas harmônicas e até letras. Goste-se ou não das versões, nenhuma delas é preguiçosa ou protocolar. Porém, quase todas mais reflexivas, agridoces, ainda que sem perder o tom instigante. Para ouvir em momentos de desejada solitude. Pois, talvez, Paul Simon esteja apenas dando aquela respirada mais prolongada, de quem já não precisa se apressar.
Ouça: Can't Run But




Penumbra [MØL]
Para este terceiro disco do quinteto dinamarquês MØL eu vou copiar o que escrevi na lista de 2015 sobre Laurestine, do nova-iorquino So Hideous: “...disco de post-metal/shoegaze que é meio como viver: desesperado, barulhento, ora apenas caótico, hora por demais emotivo, mas sempre intenso, ao ponto da exaustão, quando vê interstícios de calmaria pra você tomar fôlego e viver/ouvir mais”. Quem não estiver iniciado nesse subestilo de extremidade, pode até, vejam só, descobrir agora, ouvir o disco em versão instrumental, sem os vocais sofridíssimos, degustando apenas as dinâmicas post-róquicas do disquinho.
Ouça: Storm




Menções honrosas para Faunalia, dos italianos do Selvans, uma espécie de mistura de Agalloch com Panopticon – vai do black metal intenso e desesperado à placidez dos interlúdios cheios de folk e melodia, mas sempre com ares de solidão numa imensidão de neve e floresta numa manhã congelada [e que capa bacana]; Ordinary Corrupt Human Love, quarto disco dos american black metal hipsters que tanto amo, mas que, neste disco, ainda que muito bonito e sempre emocionante, mostra a banda nitidamente atirando em várias direções para tentar ir além da mistura de black metal desesperado + post-rock, que chegou ao mesmo tempo à perfeição e a um beco sem saída no disco anterior [New Bermuda, de 2015]; e para Down Below, com o black-thrash-rock sempre divertido do sueco Tribulation, com muitos riffs e levadas entre o bangueante e o pop para distrair a mente dos lançamentos mais intensos desta listinha.




En passant, também recomendo: o EP novo do Iron & Wine [Weed Garden], habitué deste blog [citado pelo terceiro ano], com seu folk sempre repleto de serenidade; os discos novos de Mouse On The Keys [Japão] e The Reign Of Kindo [EUA], ambos mais relaxados e menos intensos/virtuosos em suas misturas de pop, prog e jazz que o de praxe, mas mantendo bons momentos; I Loved You At Your Darkest, do death/black polaco Behemoth, que, se não é uma revolução como o trabalho anterior, é um passo bem certeiro no mesmo caminho, um aperfeiçoamento da nova fórmula, por dizer assim; o retorno do black metal psicodélico norte-americano do Nachtmystium, sempre bem-vindo, ainda que me nível ligeiramente inferior aos últimos trabalhos; o epônimo dos espanhóis do Hyedra, um post-rock/metal imponente à Tides From Nebula e Russian Circles; Aura Noire, dos noruegueses do Aura Noir, fazendo o divertido black-thrash de sempre, na linha Tribulation/Hail Spirit Noir, só que bem mais tosco e descompromissado; os caipiras black-metal do Wayfarer e seus climas dark-faroeste em World’s Blood, direto do Colorado; o post-rock melódico e grandiloquente, cheio de cordas, à Sleepmakeswaves, do Autumn Creatures [EUA]; da Finlândia, Solitude, trabalho em que o Totalselfhatred atinge a maturidade para equilibrar o desalento e a beleza melancólica do seu post-black metal; e Sylvaine – nome artístico da one-woman band Kathrine Shepard – cujo único defeito em seu Atoms Aligned, Coming Undone é a excessiva duração das músicas, o que às vezes deixa seu post-metal pesadão + viajante um pouco carente de novidades; e ainda descobri que o Opera IX continuou lançando discos após a saída da vocalista Cadaveria [este The Gospel é simpático], que o Mayhem remixou/remasterizou o já excelente A Grand Declaration Of War [2000] e ficou FODA, com um som mais quente/cheio, e uma capa igualmente impactante, e que saiu full-length do The Smashing Pumpkins [nunca sei quando tem banda e quando Sr. William demite todo mundo], mas aí não deu tempo de ouvir.

Logo mais, as listas brasileira e latina. Fiquem ligadinhos.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

O som do sim (II de II)

Depois da lista nacional, vamos com a seleta ‘importada’ de melhores disco de 2017 que ouvi. Alea jacta est!


A Deeper Understanding (The War On Drugs)

Na lista de melhores de 2014, escrevi, sobre Lost In The Dream: “Sabe aqueles discos que parecem inesgotáveis? Este é um. Mesmo as baladinhas mais dylanescas são cheias de nuances, e a cada audição você vai vendo cores que não via antes (não à toa, levou dois anos pra ser feito). Agrada tanto a fãs de Bruce Springsteen quanto de Alcest. Tanto de pop oitentista e folk quando de ambient music dos 1970s ou post-rock. Ora reconfortante, ora melancólico, deve influenciar muita coisa daqui por diante”. Não sei se já tem alguém influenciado pela banda, e este A Deeper Understanding tem menos detalhes que o disco anterior, também sendo bem mais oitentista. Mas a beleza continua lá, intocável.
Ouça: Strangest Thing




As You Were (Liam Gallagher)

Não, não parece com Oasis. Não parece nem com Beady Eye (que aparentemente só eu curtia). E é mais legal que os discos do Noel (que eu também curto). Que belezinha este primeiro disco solo do Liam. Britpop da melhor qualidade, redondinho, maduro, com muita personalidade. Aliás, falando em Oasis, é melhor que os dois discos pós-Heathen Chemistry (não por acaso o disco do qual Liam mais participa em composições).
Ouça: Paper Crown


El Retorno (Rey Puesto)
Direto de Victoria, no Chile, e com integrantes de bandas conhecidas da cena local, como Siberia, Trakto e Sector 2, vem o rock denso e climático do Rey Puesto, bem mais cheio de nuances que a produção latina de pop-rock dos últimos anos (pelo menos do tanto que pude ouvir), mais concentrada no indie rock 2000s. Tem modernidades no som, sim, claro, mas há também influências mais pesadas com o rock noventista e até um pouco de stoner. Pesado e assertivo, sem ser caricato. Desde Enjambre e Los Bunkers uma banda chilena não me chamava tanto a atenção
Ouça: Sexy Boom





Futility Report
(White Ward)

Descobri por acaso este quinteto ucraniano de post-metal, e que belo acaso: black metal gélido, climas contemplativos de post-rock (com leves toques de eletrônica), agumas levadas de pós-punk e hardcore aqui e ali, e muitas viagens malucas de jazz se debatendo em seis longas faixas. Por mais caótico que pareça, o resultado é sempre muito coerente, ainda que inesperado. A música vai aonde você nunca espera, e, mesmo assim, quando ocorre a mudança, você pensa que só poderia ser daquele jeito mesmo. Imperdível.
Ouça: Stillborn Knowledge




1755
(Moonspell)

O DNA da banda está lá: mistura de black metal, metal gótico, doom metal, pop e um glacê mouro. Só que, desta vez, canções inteiramente em português e um clima épico a serviço de um disco conceitual sobre o terremoto que destruiu grande parte de Lisboa em 1755 – e cuja sensação de desalento e de abandono por parte das divindades e autoridades é obviamente refletida nos dias de hoje. De quebra, ainda tem uma cover incrível de Lanterna Dos Afogados, d’Os Paralamas, que supera em muito a original, ressaltando a melancolia e desesperança da letra de Herbert (que por sua vez é inspirada em um trecho de Jubiabá, de Jorge Amado). Discaço de uma banda única.
Ouça: Todos Os Santos [e depois o disco inteiro, do começo ao fim]




Paraíso
(Adelaida)

Também do Chile, mas de Valparaíso, este power trio, em seu terceiro disco ‘cheio’, vem com levadas de Smashing Pumpkins, dissonâncias de garage rock e até momentos de peso monolítico digno de sludge metallers como Cult Of Luna. Tudo costurado pelos típicos vocais do rock latino dos últimos tempos, e de muita manha pop, que deixa o disco bem palatável, a despeito do peso insistente. Foi um dos últimos discos que ouvi desta lista, e foi uma baita surpresa. Surpreenda-se também.
Ouça: Cienfuegos



Prédateurs
(Les Discrets)

Projeto musical do artista plástico (e multi-instrumentista) francês Fursy Teyssier, Les Discrets, em seu retorno após um breve hiato, conseguiu se desgrudar do “som Alcest” (principal banda da cena post-rock/shoegaze francesa) e se aproximar mais do Amesoeurs (banda na qual Fursy já tocou inclusive): isso significa que, ao clima onírico feito Cocteau Twins e classudo como Portishead, o (também chamado) blackgaze da banda agora agrega timbres de pós-punk oitentista, o que deu um resultado muito bacana ao disco. Pode ouvir sem receio, que Prédateurs é um álbum de beleza invulgar.
Ouça: Virée Nocturne




Songs Of Love And Death (Me And Death Man)

Este duo polonês foi um dos discos que mais ouvi em 2017: Adam ‘Nergal’ Danski, frontman do Behemoth + John Porter, indie rocker inglês, radicado na Polônia, fazendo um folk-country rock ao mesmo tempo elegante e despretensioso, porém, sempre com tonalidades obscuras – como um Nick Cave mais amargo, ou um Johnny Cash que se orgulha da ausência de redenção. Ótimo disco pra pegar a estrada.
Ouça: Cross My Heart And Hope To Die



The Assassination Of Julius Caesar (Ulver)
Pode-se esperar de tudo destes noruegueses: já foram black metal melódico, black metal esporrento, acústico, psicodélico, eletrônico minimalista, eletrônico mais dark, indie... e agora um eletrônico mais pop – ainda que os temas sigam herméticos e sombrios. Tem músicas neste The Assassination Of Julius Caesar que poderiam estar tranquilamente num disco do Depeche Mode, ou numa balada gótica oitentista. Aliás, assim como o disco do Les Discrets, é um grande mérito do Ulver apresentar um trabalho com cores 1980s, porém, com timbres atuais (e timbragem é o que mais ficou datado daquela época, convenhamos). Grande disco.
Ouça: Angelus Novus



Residente (Residente)


René Pérez, ex-Calle 13 (célebre trio de rap-pop porto-riquenho), surge como Residente neste debute epônimo: incessante, o disco atira pra todos os lados (e nem sempre acerta); como o conceito do disco é a de pertencer a todos os lugares (e nenhum), cada faixa é uma viagem – China, Sibéria, África Negra, guetos latinos –, a profusão de referências e reverências chega a atordoar. Mas é indubitavelmente um grande disco, com rap, pop, world music, rock, canto gregoriano, samba, reggaeton, pancadão e mais um monte de coisa inclassificável. Discão pesado e necessário. Pra ouvir bem alto. 
Ouça: Somos Anormales


 Não entraram na lista, mas valem a audição: o sempre digno pop rock do U2 (é comovente vê-los tentando encontrar caminhos novos, ainda que não os encontrem desta vez); o poderoso, ainda que demasiado longo, disco do Fito Páez, em que se posiciona contra toda a patifaria antiprogressista da América Latina atual; o post-rock honesto do Woodsplitter; o britpop, mais pop que brit, do Noel Gallagher; o pop acústico agridoce de Jorge Drexler (que já esteve na lista de 2014); e o sempre inpirador folk rock de Iron & Wine (presente na lista de 2015).






Espero que tenham gostado e se inspirado; ou, pelo menos, conhecido coisas novas. Até 2018 com mais esquizofrenia musical pra todos nós!