quinta-feira, 6 de abril de 2017

Another chapter in the handbook for exercises in futility

Faz calor, o vento quente e seco só faz trazer poeira para grudar com o suor junto às roupas. E as lentes dos óculos não ficam limpas de jeito nenhum. Ou serão meus olhos? Não, são as lentes, eu sei. São as lentes. Passo na camisa, no lenço, no lençol. Lavo na torneira, na pia, passo limpa-vidro, sabão, cuspe, esfrego nas toalhas e rosto e banho. E nada de aquelas manchas saírem. Aquele embaçado de baforada quente no vidro gelado. Colo contra a luz: parecem limpas agora. Olho novamente: parecem riscadas. Outra vez: estão sujas. Sempre estiveram. Ruim de enxergar com, ruim de enxergar sem. Mas já comprei, paguei, gastei bem. Que mal faz tentar limpar uma vez mais?, só mais uma. A armação já está ficando torta de tanto que eu coloco, tiro, guardo, pego de novo, lavo, lavo de novo, seco e esfrego. E arrumo, mexo ele na cara, entorto pra dentro, remexo de novo pra fora. Deve ser algum problema com a água, está cheia desses cloros, flúores, um monte de ferro de cano, plástico de junta, resto de vedação mal feita. Esses produtos de limpeza, sabão, sabonete líquido, os amaciantes dos panos, deve ser isso que está impedindo os vidros de ficarem cristalinos. Não devia ter passado saliva daquela vez, nem tinha escovado os dentes. Ou será coisa da pasta de dente que estragou a lente? Preciso tomar cuidado depois de lavar, deve ser minha pele oleosa, vai secar, aí encosta, suja, não sai mais direito. Será meu hálito?, serão meu hábitos?, ou, em vez de sabonete ou sabão, será só impressão? Passam horas, dias, semanas. Já faz séculos que estou vendo tudo através dessa sujeira, dessa névoa que não me deixa enxergar direito. Essas manchas, elas sim, parecem grandes olhos turvos me encarando de muito perto. Serão minhas lágrimas? Serão minhas mãos? Mas elas nunca me banham os olhos, e estou sempre a lavar as mãos. Já nem sei o que enxergo e o que são rabiscos e borrões. Quando é que o mundo ficou assim? Já nem existe humanidade, nem sequer prédios em pé. Não há mais planta, nem bicho, nem gente. Mil anos se passaram e eu ainda estou aqui. Só eu e essa droga de armação, que já está toda torta de tanto ser chacoalhada e esfregada, e essas malditas lentes, sujas, imundas, impuras. Os óculos se partem: um pouco de armação retorcida pra um lado, o que sobra, inútil, em minhas mãos. Olho as lentes. Estão lá, me encarando. Deito tudo ao lixo. Desmancha-se tudo como o vidro desfeito retornasse a ser areia. Volto o olhar: as manchas continuam lá. Sigo sem enxergar.