quarta-feira, 3 de maio de 2017

Comum no seu tempo


_Belchior, hoje você tem uma chance única na vida, hein?

_É? Qual?

_Ser a primeira pessoa a me dar feliz aniversário!


Quando ouvi Belchior com atenção pela primeira vez, nos idos de 1995, quando meu irmão comprou uma coletânea bem fuleira do Bigode, achei tudo muito estranho. Até então, o artista pra mim era só um cara de bigode cafona que cantava, com voz engraçada, sobre segurar na mão de alguém durante um voo.

Não conhecia ninguém que gostasse – em eras pré-internet, era difícil ter amigos mais velhos que nos mostrassem coisas de MPB, e tal estilo nunca foi vigente em minha família –, e a internet, um território em que era bem difícil achar informações sobre qualquer coisa, uma vez que, antes do Google, os mecanismos de busca eram tão ruins que se ninguém te passasse o endereço do site você dificilmente conseguiria encontrá-lo.

Então só restavam coletâneas toscas mesmo, uma vez que nem a discografia do Belchior estava em catálogo (apenas o irregular Bahiuno, de 1993); ficávamos à mercê de músicas soltas, descontextualizadas, a granel.

Porém, a primeira música da coletânea já era Como Nossos Pais, e já achei tudo incrível: aquilo sim era uma interpretação condizente com a música – melancólica, desesperançosa, em tom menor. E fui descobrindo que o Bigode tinha outros tantos hits – Paralelas, Velha Roupa Colorida – todas famosas por versões sempre aquém das originais.

Virei fã, convenci um ou outro amigo de que aquilo era sensacional – uma MPB roqueira, vigorosa, mas sem as caricaturas raulseixianas, e muito menos hermético que Zé Ramalho (Alceu Valença eu viria a conhecer depois), fui descolando outras coletâneas de qualidade duvidosa, até que surgiu a oportunidade de vê-lo ao vivo.

Teatro TBC, na Bela Vista. Uma sexta-feira mais fria para o que de costume para um final de novembro. Show em uma sala pequena, pelo que me lembro, mas bem aconchegante. Sala não totalmente cheia, porém, com bom público. Só eu e um amigo com menos de 40 anos no recinto.

Não sabia o que esperar, se tinha disco novo, se era show com banda, se era mais acústico, se tocava hit, se tocava lado B, se ele falava ou não falava entre uma música e outra... nada. Pura expectativa. E o show ainda atrasou bastante. Ficávamos brincando, pra disfarçar a ansiedade, que ele vinha de ônibus e tinha perdido a baldeação no Terminal Sacomã, coisa e tal.

Por fim o show começou, e era com banda, formação e arranjos de pop rock, menos folk dylanesco que nos discos, com peso balanceado e duas guitarras. Não me lembro de ele falar nada durante as músicas, mas andava com leveza (e certa timidez) de um lado pro outro do palco, com gestos quase femininos de tanta finesse.

Fim de show, tinha uma coletânea oficial sendo lançada (na verdade as músicas foram regravadas, e com arranjos bem ruins, só gosto da versão de Pequeno Perfil De Um Cidadão Comum). Já passava de meia-noite, portanto eu já estava aniversariando. Ah, vamos lá comprar o disco, né. CDzinho (duplo) adquirido, fui lá pegar autógrafo – na verdade nem fazia muita questão, era mais pra conversar com ele mesmo.

_Pois feliz aniversário, então! Está fazendo quantos anos?

_Vinte.

_Ah, meus vinte anos!


Fico feliz de que, além de quem era meu amigo na época e quem gostava de Engenheiros do Hawaii (que gravou Alucinação em 1997), hoje ele tenha o devido reconhecimento por parte da minha geração e dos mais jovens, e até quem é mais velho possa falar que curte sem ouvir muxoxos em troca. Hoje tem bem mais coisa do o catálogo na internet, incluindo remasterizações feitas por Charles Gavin.

Apertou minhas mãos e deu um sorriso de tiozão saudoso. Um tiozão baixinho, de cabeça grande, cabelos grandes e bem cuidados, bigode milimetricamente aparado, talvez um chapéu, certamente botas, e um colete sobre a camisa.

Dei uma reclamadinha que ele não havia tocado Coração Selvagem, para corrigir em seguida que foi melhor não tê-la tocado mesmo, visto que andava sendo a trilha sonora do coração em cacos de quem havia levado pé na bunda da primeira namorada.

Depois disso o vi ao vivo mais umas três ou quatro vezes, na década seguinte, em formato acústico, sem lançar mais discos, e já sem o mesmo encanto da primeira vez. Belchior, sempre desapegado, com seus suspiros de saudade da juventude, de quem parecia sempre incompleto em seus caminhos, em busca de outras venturas, alma de alguém muito culto e refinado em busca de simplicidade, já havia me ensinado que nós, as coisas, os sonhos e as pessoas estamos sempre deixando e sendo deixados para trás.

Que ele tenha encontrado o mundo inteiro em alguma estrada qualquer.

Obrigado por tudo, Bigode.


quinta-feira, 6 de abril de 2017

Another chapter in the handbook for exercises in futility

Faz calor, o vento quente e seco só faz trazer poeira para grudar com o suor junto às roupas. E as lentes dos óculos não ficam limpas de jeito nenhum. Ou serão meus olhos? Não, são as lentes, eu sei. São as lentes. Passo na camisa, no lenço, no lençol. Lavo na torneira, na pia, passo limpa-vidro, sabão, cuspe, esfrego nas toalhas e rosto e banho. E nada de aquelas manchas saírem. Aquele embaçado de baforada quente no vidro gelado. Colo contra a luz: parecem limpas agora. Olho novamente: parecem riscadas. Outra vez: estão sujas. Sempre estiveram. Ruim de enxergar com, ruim de enxergar sem. Mas já comprei, paguei, gastei bem. Que mal faz tentar limpar uma vez mais?, só mais uma. A armação já está ficando torta de tanto que eu coloco, tiro, guardo, pego de novo, lavo, lavo de novo, seco e esfrego. E arrumo, mexo ele na cara, entorto pra dentro, remexo de novo pra fora. Deve ser algum problema com a água, está cheia desses cloros, flúores, um monte de ferro de cano, plástico de junta, resto de vedação mal feita. Esses produtos de limpeza, sabão, sabonete líquido, os amaciantes dos panos, deve ser isso que está impedindo os vidros de ficarem cristalinos. Não devia ter passado saliva daquela vez, nem tinha escovado os dentes. Ou será coisa da pasta de dente que estragou a lente? Preciso tomar cuidado depois de lavar, deve ser minha pele oleosa, vai secar, aí encosta, suja, não sai mais direito. Será meu hálito?, serão meu hábitos?, ou, em vez de sabonete ou sabão, será só impressão? Passam horas, dias, semanas. Já faz séculos que estou vendo tudo através dessa sujeira, dessa névoa que não me deixa enxergar direito. Essas manchas, elas sim, parecem grandes olhos turvos me encarando de muito perto. Serão minhas lágrimas? Serão minhas mãos? Mas elas nunca me banham os olhos, e estou sempre a lavar as mãos. Já nem sei o que enxergo e o que são rabiscos e borrões. Quando é que o mundo ficou assim? Já nem existe humanidade, nem sequer prédios em pé. Não há mais planta, nem bicho, nem gente. Mil anos se passaram e eu ainda estou aqui. Só eu e essa droga de armação, que já está toda torta de tanto ser chacoalhada e esfregada, e essas malditas lentes, sujas, imundas, impuras. Os óculos se partem: um pouco de armação retorcida pra um lado, o que sobra, inútil, em minhas mãos. Olho as lentes. Estão lá, me encarando. Deito tudo ao lixo. Desmancha-se tudo como o vidro desfeito retornasse a ser areia. Volto o olhar: as manchas continuam lá. Sigo sem enxergar.