terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Sons, palavras, são navalhas (II de II)

Como já disse na seleta de discos internacionais, tenho ouvido pouca coisa convencional, e isso se reflete nesta lista, pois ouvi pouca coisa nacional neste ano, inclusive tendo que receber sugestões [valeu, Laíssa] e ler listas pra cavoucar algo de meu agrado que tenha sido lançado em 2015. Não tem a força da lista ‘importada’, até pelo universo muito maior de escolhas desta, mas até que tive boas surpresas.

Também vale mencionar que não acompanho de perto a carreira da maioria dos artistas citados, logo relevem qualquer incoerência - foi intencional me ater apenas à obra que ouvi, sem procurar saber do background do artista. Mas vamos lá.

Este Loucura Total entra como nacional mesmo, uma vez que tem música em português mesmo na versão em castelhano, e quem produz é o Liminha, então foda-se. Não gosto do Moska, acho bem chato pra falar a verdade, mas este disco é leve, divertido – fofo. Cê ouve sorrindo do início ao fim, vale muito a pena, uma bela brincadeira com pop, rock, samba, tango, etc., num clima 'pra curtir as férias', despretensão total.



[Ouça: Garota Muchacha]




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Falando nisso, Caleidoscópio, tributo ibero-americano feito pelo Scream & Yell a’Os Paralamas Do Sucesso, é o melhor dos discos-homenagens feitos pelo site até agora. Tem música brasileira, portuguesa, espanhola e latina, tudo misturado com pop rock, do jeito que a maior banda que este país já teve sempre fez tão bem. É legal até pra revalorizar o quão rico é o som d’Os Paralamas, tudo que veio deles e com eles. Até músicas que nem curto na versão original, como a que indico abaixo, ficaram legais.



[Ouça: Una Brasilera]

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Voltemos pro Brasil, então: bem-vindos de volta, Los Porongas. O retorno dos acreanos, Infinito Agora, após hiato de quatro anos, traz um primeiro lado mais pop rock convencional oitentista (com participação do Bruno Gouvêia, inclusive) que é bacana, mas não chega a empolgar tanto, é despretensioso como a banda sempre foi, pop-indie-rock com instrumental simples e sólido, bons vocais e letras bacanas, mas entra na lista pela parte final, em que sentam mais o pé na psicodelia.




[Ouça: Sobre Mim]

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Cidadão Instigado nunca havia me descido por causa do vocal fraco do Fernando Catatau [aliás, vocal fraco é o grande problema do rock 1990s, especialmente a seccional nordestina], mas desta vez a lisergia bateu forte com um peso inesperado e olha!, que belo disco o Fortaleza, a sonzêra compensa muito as vozes não muito inspiradas. Catatau finalmente colocou seu gosto por Pink Floyd e afins em nome de um som de muito de respeito, sem abrir mão da gentil breguice intencional setentista que acompanha os arranjos desde o início da banda.




[Ouça: Dizem Que Sou Louco Por Você]

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Supercordas finalmente entregou o grande disco que se esperava deles. Largou o mal de tantas bandas nacionais, que acham que precisam remeter o tempo todo a Mutantes [como se ninguém mais tivesse feito psicodelia no Brasil], com instrumental datado e letras desleixadas cantadas com aquele vocal cheio de efeitos, e fez uma obra concisa, Terceira Terra, que ecoa Beatles e Clube da Esquina na medida certa, e com muita personalidade e letras muito boas, num som que não tem medo de sentar o braço nas guitarras quando necessário.




[Ouça: Maria³]

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Boogarins, pelo menos, não tem [quase] nada de Los Hermanos, pelo menos, neste trabalho (o que já é uma alívio pros ouvidos), mas seu som à Lô Borges ainda carece de lapidação – as ideias soam esparsas, meio sem unidade, ainda que haja faixas muito boas, como a escolhida abaixo. Mas tá na lista porque é agradável de ouvir, de qualquer forma. E o caminho é promissor.




[Ouça: 6.000 Dias]
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Maglore vem com o setentão III, disco muito bonito, ainda que derrape nos vocais loshermanísticos em muitas partes (quando isso não acontece, são os pontos altos do disco), tem um instrumental redondinho, tem uns lances meio Novos Baianos [bem de leve] nos arranjos, aquele rockinho maroto suingado com timbres do Revolver. Ou, vendo de outro lado, é o que o 4 seria se Los Hermanos não tivessem naquela egotrip. Quem sabe no próximo disco não se libertam e fazem um disco ainda melhor que este? ;)




[Ouça: O Sol Chegou]

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Também loshermanístico, porém, mais pesado e intenso, com ótimo instrumental, o epônimo do Ventre tem guitarras dissonantes que remetem, bem de leve, a Gram e Violins (nos climas tensos), mas também precisa urgentemente se livrar dos vocais camelo-amarantísticos. Discaço, mesmo assim, foi uma grata surpresa conhecê-los.




[Ouça: Peso Do Corpo]


[O que me alegra em quase todos esses discos é que, finalmente/aparentemente, a geração Bizz-Ilustrada foi deixada pra trás (descanse em paz). A história é contada pelos vencedores, disso todos sabemos, e, da mesma forma que os modernistas de 1922 perpetuaram que qualquer coisa com mínimo rigor formal (parnasiana ou não) era automaticamente ultrapassada e execrável, a geração de jornalistas musicais paulistanos, especialmente no final dos 1980s e começo dos 1990s, amamentada com pós-punk, passou anos a fio (a despeito de todo o trabalho de óbvia qualidade) doutrinando a molecada com o corolário de que qualquer coisa feita antes de 1976, e/ou com apuro melódico-instrumental, era ruim: prog, psicodelia, tudo era automaticamente jogado fora. E, numa época sem internet, uma geração inteira deve ter ficado sem conhecer direito de Clube da Esquina a Yes, passando por Pink Floyd, Módulo 1000 e Lula Côrtes. Por isso é uma grande satisfação ver que quase tudo nesta lista tem um pé nessa época injustamente proscrita no Brasil. Ouçam mais música chapada, moleques, vocês ‘tão indo bem demais. Até porque finalmente o pessoal parece estar se livrando um pouco da síndrome-da-vergonha-da-guitarra que nos assolou desde o Ventura, e qualquer um que quisesse "estar conectado à música brasileira" achava que era só pegar um violão de náilon e cantar como quem tá com deficiência vitamínica. Pisa nesses overdrive aí, porra.]

                                                         

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Ramil. Com esse sobrenome, já esperava algo bem feito, competente, mas obviamente açucarado, o que definitivamente não se aplica a Derivacivilização. Ian Ramil vem com um trabalho que parece mais com Rogério Skylab e Patife Band – pesado, visceral e nonsense – do que com seus parentes já famosos. E, sobretudo, caótico. No melhor dos sentidos.




[Ouça: Coquetel Molotov]

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Cê olha este gordinho com cara de nerd na capa e não dá nada pra ele, né. Mas Tremor é claramente o melhor disco nacional que ouvi neste ano. Guilherme Eddino tem uma voz andrógina à Ney Matogrossso, toca um monte de instrumentos, e o disco tem de rock safado oitentista e indie-pop a samba e bolero, passando por baladas folk e grooves dançantes. É muita informação?, sim, mas tudo soa coeso, coisa de quem sabe o que tá fazendo e aonde tá indo. Ô disco foda.



[Ouça: Mea Culpa]

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Sons, palavras, são navalhas (I de II)

Minha lista internacional de coisas mais legais ouvidas reflete certo desinteresse atual por música convencional; tenho ouvido mais post-rock instrumental e as bordas do metal extremo, os post-atmospheric-folk-black-gaze, que desafiam muitas convenções musicais. Inclusive tive que dar umas pesquisadas para ver o que saiu de bom musicalmente fora desse universo mais ‘climático’ – até porque muito do que tenho ouvido não é necessariamente lançamento, mas sim algo novo para mim, uma descoberta, e é o que importa, né?, em arte, a sua vez de experimentar.

Mas não dá pra deixar de mencionar que o Iron Maiden fez The Book Of Souls, seu melhor disco em 25 anos [desde No Prayer For The Dying], épico, pesado e bem feito; entra na lista por ser uma banda da qual eu já não esperava nada, apesar de curtir muito. É o primeiro disco deles desde a volta de Bruce sobre o qual não penso “era melhor o cara ter ficado na carreira-solo”.


[Ouça: The Red And The Black]



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E o Faith No More?, que retornou com um disco redondinho, Sol Invictus, mais pop que se esperava dele, mas ainda soando atual, necessário, digno. Não é nem o funk metal do início, nem a esquizofrenia moderna de quando Mike Patton dominou a banda, mas é uma obra bem sólida.



[Ouça: Separation Anxiety]



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O noruegs Enslaved vem cada vez mais próximo da perfeição a cada disco, numa longa ascendência, mas desta vez, com In Times, eles parecem ter olhado no olho de Odin, com melodias intrincadas e belíssimos vocais limpos perfeitamente entremeados com o peso do black metal norueguês. 





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Menos técnico e melódico, mas igualmente intrincado, muitas vezes sufocante, o também nórdico Dødheimsgard, que já passou do black metal tradicional/épico para o norsecore-motosserra e para uma versão moderna com toques eletrônicos, lançou este opus avant-garde/experimental, A Umbra Omega, burlesco e macabro como uma mistura entre Arcturus e Thorns, progressivo & jazzístico, solene, uma ambiciosa música de câmara – mortuária.


[Ouça: The Unlocking]

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Os japoneses malucos do Sigh também são obrigatórios em qualquer lista de melhores sempre que lançam álbum, uma vez que a mistura de black/thrash metal com j-pop, heavy tradicional, jazz e eletrônico, às vezes tudo ao mesmo tempo, é sempre imperdível, então Graveward é mais uma boa mostra do quão amplo é o horizonte dos extremos da extremidade musical.



[Ouça: The Trial By The Dead]
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Falando sobre mostras ao público, este New Bermuda do Deafheaven (da sempre surpreendente cena americana de USBM) foi bem menos incensado pela crítica do que o debute Sunbather – que pra mim é bem comum e só serviu para apresentar o black metal moderno a um público maior (não que isso seja pouco), não acostumado a esse tipo de experiência sonora intensa, mas que achou interessante um bando de hipsters tocarem aquela barulheira toda. Mas este disco, ainda que não seja nenhum clássico (os riffs, por exemplo, seguem meio fracos), já aponta para novos caminhos, como os interlúdios semiacústicos aparentados do post-rock, em canções que se desenvolvem sem pressa.




[Ouça: Luna]
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Mantendo esse tem da apresentar universos extremados a não-iniciados temos o nova-iorquino So Hideous com Laurestine, disco de post-metal/shoegaze que é meio como viver: desesperado, barulhento, ora apenas caótico, hora por demais emotivo, mas sempre intendo, ao ponto da exaustão, quando vê interstícios de calmaria pra você tomar fôlego e viver/ouvir mais. Não está entre os melhores discos que já ouvi, mas é coerente dentro desta lista.


[Ouça: Yesteryear]

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Saindo do lado barulhento da força, direto pro Arizona, o Calexico lançou um disco redondinho com seu ‘indie-folk tex-mex’ (sim, parece horrível, mas o resultado é ótimo), Edge Of The Sun, que parece remeter ao mesmo tempo a Jorge Drexler, Grateful Dead, Gram Parsons, Wilco e Travis, mas ainda assim soando com cara própria. 




[Ouça: Falling From The Sky]
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Ainda na seara folk/country, temos o ótimo e inesperado (pelo menos pra mim) Sing Into My Mouth, álbum de covers bem variado do Iron And Wine, caipira da Carolina do Nortye, em parceria com Ben Bridwell, do Band of Horses. De tanto folk de condomínio assolando a humanidade, eu tinha até medo de ouvir ‘novidades’ de folk, mas achei o moço Iron And Wine digno da tradição de Simon & Garfunkel, no trabalho de violões e vocais.


[Ouça: No Way Out Of Here (cover de Unicorn)]

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A melhor coisa internacional lançada neste ano que ouvi? Ellipsism, o post-rock (quase todo instrumental) boliviano do Enfant. Deve ser a primeira coisa boliviana que ouço na vida (flautinhas tocando Let It Be e My Heart Will Go On no Centrão não contam). É uma obra inquieta, às vezes transmitindo vazio, às vezes parecendo preencher tudo que há. O som vai, vem, ora torto, ora melódico, sem pressa de distinguir peso e melodia ou apontar seus caminhos, mas é sempre surpreendente, de muito bom gosto, com ocasionais pinceladas regionais, de você se pegar ouvindo e pensar “como é bom isto existir e eu poder ouvi-lo”. Quintessencial.


[Ouça: o disco inteiro, de uma vez]


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Menções honrosas para Extinct, melhor disco do lusitano Moonspell em muitos anos, com perfeito equilíbrio em seus elementos básicos – black, doom, gótico, pop, eletrônico e eventuais nuances mouras, e o Live At Roadburn¸ que encerra o belíssimo projeto francês de post-black-gaze Les Discrets, um álbum de raríssima beleza e intensidade, de elevar o espírito.

[Aqui tem a seleta de discos nacionais.]

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

By pouring their derision upon anything we did.

Hoje, terça-feira, primeiro de dezembro de dois mil e quinze, é um dia especial. Para o bem e para o mal. Hoje, o autoritário governador Geraldo Alckmin e seu birrento secretário de Educação, Herman Voorwald, publicam o decreto de “restruturação” do ensino estadual, que inclui fechar mais de noventa escolas (alguém aí pensou em superlotação das demais?) e mandar alunos para instituições a quilômetros de distância, ignorando questões financeiras-logísticas e laços afetivos/de pertencimento ao local e aos colegas.

O tal plano tucano é bom? Nem dá para saber, uma vez que ninguém foi consultado a respeito. Nem alunos, nem seus pais, nem professores, nem os demais funcionários, nem o resto da sociedade. Já ouvi dizer que já ouve essa experiência de divisão por “ciclos” e que não houve diferença na qualidade do ensino, mas não é esse o ponto.

Independentemente de a medida visar a melhorias ou não, é o reflexo da intransigência e do autoritarismo com que o PSDB, e especialmente o #Geraldo, veem a política. Qualquer discordância é resolvida com PM. Bate em professor, em aluno, em dependente químico. Se a imprensa desiste de passar pano – afinal, não dá mais para fingir que mais de duzentas escolas ocupadas seja assunto secundário –, o Governo Estadual entra em parafuso.

Na verdade, a sequência é sempre: ignorar, negar, mentir, falar que é “picuinha”, e, se o problema ainda estiver lá, manda a PM bater. Problema?, não estou sabendo. Não tem nenhum problema. Já estamos resolvendo o problema. Isso é coisa política, tem um lado político. “PM ~entra em confronto~ com manifestantes”. Seja falta d’água, cartel de metrô, greve de professores, assassinos fardados... e agora, estudantes secundaristas.

O ditadorzinho de Pindamonhangaba, com a confiança de quem governa o estado há uns trezentos anos, e recém-eleito em primeiro turno, com a grande imprensa no bolso, achou que o problema com escolas seria só mais uma bobagem que ele tiraria de letra, com a pobreza vocabular habitual.

Mas deu ruim: Diadema, depois Pinheiros, e de repente temos duas centenas de escolas ocupadas. Não adiantou o expediente de sempre, falar que é tudo “picuinha/manobra política” (como se existisse protesto sem política, e como se política fosse ruim), sempre atribuindo a si um lugar privilegiado entre o eleitorado de politização manca.

Bateu o desespero: tem PM tentando invadir escola, batendo e jogando spray de pimenta em adolescente; #Geraldo apostava que esse bando de moleque indolente não aguentaria mais de um final de semana; depois, apostou que não passarão do fim do ano.

Enquanto isso, o discursinho oficial era de “diálogo” – desde que, é claro, os alunos voltem à rotina primeiro. Valeu até cortar bônus das escolas que boicotaram o Saresp, na tentativa de jogar os funcionários das escolas contra aos alunos.

Só que, desde ontem, o movimento avançou, literalmente: passaram a ocupar ruas e avenidas, fazendo delas espaço para aulas-protesto. Hoje, dia do nefasto decreto, #Geraldo perdeu de vez a vergonha e está mandando a polícia invadir geral as escolas, prendendo jornalista, batendo em manifestante. Esse é o tipo de “diálogo” que o PSDB aprecia em São Paulo: eu te ouço desde que você concorde comigo.

Por isso, hoje, mais do que nunca, é um dia de luta. Dê um pouco de tempo, divulgação, dinheiro ou torcida para essa molecada toda. Eu fui tanto ao badalado Fernão Dias, de Pinheiros, quanto ao combalido Pio Telles, perto de casa, beirada da Zona Oeste, e onde estudei por oito anos [e onde, com o auxílio luxuoso de bons amigos e grandes pessoas, levei muitos mantimentos, além de apoio].

E a vibe é a mesma: eles estão muito certos do que pretendem, organizados, aprendendo, sozinhos e com quem vai lá fazer atividades com eles, muito mais do que o fariam nas escolas caindo aos pedaços do #Geraldo, com grade curricular anacrônica e professores em sucata.

#OcupaEscola. Ocupa mais, ocupa a porra toda, tá pouco de ocupação. Muito orgulho desses jovenzinhos. E falo como alguém que só foi realmente se interessar por política depois dos vinte anos. Por isso minha admiração por eles é ainda maior.

Vai às escolas da quebrada e vê se é coisa de “sindicato e movimento social aparelhado” (e se fosse, haveria problema?, ou só pode quando é tucano apoiando passeata pelo impeachment?). Você vai ver um monte de moleque fodido querendo manter os laços com a escola caidaça, ao mesmo tempo em que denunciam toda a precariedade do sistema, física e conceitualmente.

E você, #Geraldo, vai aprender do pior jeito que não é com PM que se convence os outros de que você tem razão. Não é secretário e assessor falando em “guerra” contra secundaristas que, aliás, estão cuidando, melhor do que você, das  escolas onde estão. E, pelo que tenho visto, razão é o que você menos tem. É só autoritarismo e imprensa camarada para lustrar sua careca de pau.

É um lance meio Al Capone, né, governador: falta d’água, matança policial, cartel do metrô... quem diria que sua grande pedra no sapato seria um imprevisível bando de adolescentes periféricos, a maioria de bairros que você provavelmente nem sabia que existiam. Agora todo desgaste é pouco, esse jogo você já perdeu, não importa o resultado. Quando menos se espera, o que seria já era.

sábado, 7 de novembro de 2015

O horizonte paradigmático que modifica o buraco negro da luz ofuscante da melancolia

Tento escrever. Começo a escrevinhar, no Word™ mesmo, não no papel. Papel, no máximo, quando estou em trânsito e tenho alguma ideia. Em casa ou na #firma, se há algum motivo para registrar qualquer coisa, é direto no processador de texto. Mas, continuando – sou excessivamente digressivo, às vezes, e os travessões e colchetes [fazendo as vezes de parêntesis, por serem mais elegantes], que já prevejo permearem este texto, não me deixarão mentir –, enquanto ouço The Beatles, depois de uma semana alternando entre Judas Iscariot e Rotting Christ: começo a rascunhar alguma coisa em prosa [o blog em versos anda bem encaminhado], penso em temas, absolutos e relativos, concretos e abstratos; faço anotações, pequenas listas, marco tópicos, deixo prontas algumas frases de efeitos, sobre eternidades da semana [nome de uma seção recorrente neste blog, em tempos idos], ou sobre grandes questões existenciais. Penso se não é algo que já tenha passado do tempo, que hoje é cada dia mais fugidio, mas, até aí, o que é a permanência nestes dias?, e também este espaço nunca foi de se pautar mais pelo tempo lá de fora do que pelo daqui de dentro; vejo Twitter, Facebook, onde tudo & nada parece estar sendo discutido e remoído ao mesmo tempo, em uma grande singularidade de vazios intercalados onde flutuam palavras, muitas vezes desconexas, e me agarro às minhas revistas, no afã de encontrar algo mais sério (?), soubesse o que estou procurando. Ei, na verdade, sei: qualquer coisa que me sirva de salvação desta deriva. Volto ao papel de mentirinha, este, digital, e os espaços em brancos parecem engolir avidamente qualquer palavra que lhe jogo. Nunca preencherei este espaço, ele parece aumentar, feito um deserto. Grandes são os desertos, e tudo é deserto. Como colocasse os pés na água gelada, e se assustasse com o frio, jogo timidamente algumas discussões: psicotrópicos, cobradores de ônibus, táxis por aplicativo, campeonato por pontos-corridos. Arrisco algumas conexões, sou bom nisso, acho; olho em volta e pra dentro de mim, e desisto, apago tudo. Preservação? Preguiça, também. Tem muito textão por aí. Mas, e daí? Não tem nenhum meu já faz um tempo. Recomeço. Apago tudo de novo. Isso tudo se resume a alguns tuítes!, ora porra. Penso no tanto de palavrão que falo e não escrevo. Já pode beber cerveja? Tem Corinthians hoje. E dois aniversários. Sempre haverá Corinthians e gente fazendo aniversário. Aliás, logo é o meu. Ao mesmo tempo me anima e me angustia. Ansiedade, né. Chegar depressa a lugar nenhum. Escreva, vamos escrever!, e penso na Maratona Herzog, o terceiro blog, que precisa de atualização. Acho que a vida é isto, um monte de blog esperando atualização e você não sabe o que fazer, como se dividir, como se destacar, como destacar algo pra você. Um grande problema de conteúdo, da falta dele. Da falta que às vezes me faço. Do excesso de mim que às vezes tenho. Daqui a pouco preciso sair e nem terminei, aliás, nem comecei direito nada. Apago tudo de novo. Fecho o arquivo. Um, dois, três, quatro segundos, abro de novo. Ainda está lá, à minha espera, olhando pra mim. E vai continuar lá. O vazio, que imensidão!, quase não dá pra ver onde estão as palavras que deixei, elas mesmas não devem ver umas às outras, tamanha a distância, nesse branco brilhante que me dói os olhos. Procuro desculpas, mas a tendinite até deu uma melhorada, né. Se eu me forço a escrever para o trabalho, e até o faço com versos [com relativa facilidade], por que não com uma prosa qualquer. Albert Camus, aniversariante de hoje, me olha com reprovação. Cecília, outra que festeja, do jeito dela, encabulado, esta vem satisfeita com os versos que busco renovar depois de uma fase de rigidez cadavérica poética, de grandes desertos. O assunto, o assunto. Já, já, os Beatles se reúnem (?) e eu nem tenho um texto para lhes mostrar. Mas eu nem estou falando de música. Não estou falando de nada, de verdade. Bom, tenho meus afazeres. Deito tudo para o chão, palavras pra debaixo do tapete. Escrevi sobre não escrever, grandes coisas. Quem ainda se impressiona com isso? Não é uma ideia nova, acho que eu mesmo já fiz isto algumas vezes, mas o que é novidade em treze bilhões de anos de Universo? Nem a matéria. Nem a metafísica. Desculpo-me. Não fui correr hoje, dor no joelho esquerdo. Peraí, falta um título profundíssimo, à moda do Ἀποκαθήλωσις [ou de um uma pintura do Miró], citação não creditada, tal. Pronto. 'Tava esperando havia um tempo para usar isso. Tem gente melhor e pior que eu falando sobre todas as coisas. Até sobre mim, se bobear. Mas duvido que alguém fale tão bem sobre o Nada. Hmpf.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A witch! A witch!

O choro futebolístico preventivo beneficia muita gente.

Beneficia jornalista vagabundo que vive de merchan e caça-clique com programas e mais programas, matérias e mais matérias, com polêmicas vazias e frases de efeito histriônicas.

Beneficia dirigente canalha, que joga fumaça sobre sua má gestão, que cria dívidas, monta elencos ruins, contrata técnicos fracos, e ora luta para não cair, ora pipoca na luta pelo título em momentos críticos.

Beneficia técnico incompetente, que tranfere suas limitações e as de seu elenco, que não faz sua própria parte no campeonato e transfere a culpa para um suposto esquema, que beneficia times que, na verdade, são melhores que o dele - e às vezes o time entra em campo tão pilhado com isso que acaba metendo os pés pelas mãos e perdendo um jogo em que era melhor que o rival.

Por parte de técnicos e dirigentes, o choro futebolístico preventivo tem muitas utilidades sórdidas: além de justificar previamente a derrota, enaltecer eventual vitória [ganhamos mesmo com esquema!] e pressionar a arbitragem para que não apite nada a favor do rival, tem as benesses do esquecimento seletivo típico das previsões furadas – se o rival ganha (o jogo, ou mesmo o título), o esquema está provado, e, se o rival naufraga, o jornalista vagabundo do começo do texto não vai mencionar nada depois, e fica por isso mesmo (e o dirigente ainda pode falar que o esquema acabou porque ele denunciou a tempo).

O choro futebolístico preventivo ilude o torcedor mais ingênuo, sanguíneo, que consome, com pouco ou nenhum senso crítico, essas lágrimas de canalhice que vertem dos três elementos acima, e passa a acreditar que, em vez de criticar os jogadores, técnicos e dirigentes de seu time de coração, o alvo é o time que está liderando (com folga, com autoridade).

E, assim, suas memórias vão sendo construídas, ano após ano, dessa forma distorcida: vendo conspiração a cada erro contra seu time e a favor do rival, e, ao mesmo tempo, ignorando quando seu time é beneficiado e o rival, prejudicado [como é normalíssimo acontecer contra e a favor de todo mundo, ainda mais em um campeonato de pontos-corridos, com 114 pontos em disputa]; desse modo, ele passa a enxergar, aceitar e sai falando por aí que seu time é sempre roubado, é o mais roubado do país, é roubado desde sempre, e que o rival está mancomunado com a Globo, a Fifa, a CBF, os reptilianos e o fantasma do PC Farias.

Quem perde com o choro futebolístico preventivo? O futebol, pois a discussão nunca sai das fossas abissais. Não se discute a sério por que as arbitragens são/estão tão ruins, se é problema só nosso ou do futebol em geral, se é hora de profissisonalizar os árbitros e adotar de vez os recursos eletrônicos. Todos estão muito ocupados – uns faturando com a ingenuidade alheia, outros, os próprios ingênuos, financiando canalhas e incompetents que ajudam a estragar, ano após ano, o futebol (porque eles não gostam de futebol), que vira um negócio em que se discute mais teorias conspiratórias do que lances e esquemas táticos. A witch! A witch!