quarta-feira, 3 de maio de 2017

Comum no seu tempo


_Belchior, hoje você tem uma chance única na vida, hein?

_É? Qual?

_Ser a primeira pessoa a me dar feliz aniversário!


Quando ouvi Belchior com atenção pela primeira vez, nos idos de 1995, quando meu irmão comprou uma coletânea bem fuleira do Bigode, achei tudo muito estranho. Até então, o artista pra mim era só um cara de bigode cafona que cantava, com voz engraçada, sobre segurar na mão de alguém durante um voo.

Não conhecia ninguém que gostasse – em eras pré-internet, era difícil ter amigos mais velhos que nos mostrassem coisas de MPB, e tal estilo nunca foi vigente em minha família –, e a internet, um território em que era bem difícil achar informações sobre qualquer coisa, uma vez que, antes do Google, os mecanismos de busca eram tão ruins que se ninguém te passasse o endereço do site você dificilmente conseguiria encontrá-lo.

Então só restavam coletâneas toscas mesmo, uma vez que nem a discografia do Belchior estava em catálogo (apenas o irregular Bahiuno, de 1993); ficávamos à mercê de músicas soltas, descontextualizadas, a granel.

Porém, a primeira música da coletânea já era Como Nossos Pais, e já achei tudo incrível: aquilo sim era uma interpretação condizente com a música – melancólica, desesperançosa, em tom menor. E fui descobrindo que o Bigode tinha outros tantos hits – Paralelas, Velha Roupa Colorida – todas famosas por versões sempre aquém das originais.

Virei fã, convenci um ou outro amigo de que aquilo era sensacional – uma MPB roqueira, vigorosa, mas sem as caricaturas raulseixianas, e muito menos hermético que Zé Ramalho (Alceu Valença eu viria a conhecer depois), fui descolando outras coletâneas de qualidade duvidosa, até que surgiu a oportunidade de vê-lo ao vivo.

Teatro TBC, na Bela Vista. Uma sexta-feira mais fria para o que de costume para um final de novembro. Show em uma sala pequena, pelo que me lembro, mas bem aconchegante. Sala não totalmente cheia, porém, com bom público. Só eu e um amigo com menos de 40 anos no recinto.

Não sabia o que esperar, se tinha disco novo, se era show com banda, se era mais acústico, se tocava hit, se tocava lado B, se ele falava ou não falava entre uma música e outra... nada. Pura expectativa. E o show ainda atrasou bastante. Ficávamos brincando, pra disfarçar a ansiedade, que ele vinha de ônibus e tinha perdido a baldeação no Terminal Sacomã, coisa e tal.

Por fim o show começou, e era com banda, formação e arranjos de pop rock, menos folk dylanesco que nos discos, com peso balanceado e duas guitarras. Não me lembro de ele falar nada durante as músicas, mas andava com leveza (e certa timidez) de um lado pro outro do palco, com gestos quase femininos de tanta finesse.

Fim de show, tinha uma coletânea oficial sendo lançada (na verdade as músicas foram regravadas, e com arranjos bem ruins, só gosto da versão de Pequeno Perfil De Um Cidadão Comum). Já passava de meia-noite, portanto eu já estava aniversariando. Ah, vamos lá comprar o disco, né. CDzinho (duplo) adquirido, fui lá pegar autógrafo – na verdade nem fazia muita questão, era mais pra conversar com ele mesmo.

_Pois feliz aniversário, então! Está fazendo quantos anos?

_Vinte.

_Ah, meus vinte anos!


Fico feliz de que, além de quem era meu amigo na época e quem gostava de Engenheiros do Hawaii (que gravou Alucinação em 1997), hoje ele tenha o devido reconhecimento por parte da minha geração e dos mais jovens, e até quem é mais velho possa falar que curte sem ouvir muxoxos em troca. Hoje tem bem mais coisa do o catálogo na internet, incluindo remasterizações feitas por Charles Gavin.

Apertou minhas mãos e deu um sorriso de tiozão saudoso. Um tiozão baixinho, de cabeça grande, cabelos grandes e bem cuidados, bigode milimetricamente aparado, talvez um chapéu, certamente botas, e um colete sobre a camisa.

Dei uma reclamadinha que ele não havia tocado Coração Selvagem, para corrigir em seguida que foi melhor não tê-la tocado mesmo, visto que andava sendo a trilha sonora do coração em cacos de quem havia levado pé na bunda da primeira namorada.

Depois disso o vi ao vivo mais umas três ou quatro vezes, na década seguinte, em formato acústico, sem lançar mais discos, e já sem o mesmo encanto da primeira vez. Belchior, sempre desapegado, com seus suspiros de saudade da juventude, de quem parecia sempre incompleto em seus caminhos, em busca de outras venturas, alma de alguém muito culto e refinado em busca de simplicidade, já havia me ensinado que nós, as coisas, os sonhos e as pessoas estamos sempre deixando e sendo deixados para trás.

Que ele tenha encontrado o mundo inteiro em alguma estrada qualquer.

Obrigado por tudo, Bigode.


quinta-feira, 6 de abril de 2017

Another chapter in the handbook for exercises in futility

Faz calor, o vento quente e seco só faz trazer poeira para grudar com o suor junto às roupas. E as lentes dos óculos não ficam limpas de jeito nenhum. Ou serão meus olhos? Não, são as lentes, eu sei. São as lentes. Passo na camisa, no lenço, no lençol. Lavo na torneira, na pia, passo limpa-vidro, sabão, cuspe, esfrego nas toalhas e rosto e banho. E nada de aquelas manchas saírem. Aquele embaçado de baforada quente no vidro gelado. Colo contra a luz: parecem limpas agora. Olho novamente: parecem riscadas. Outra vez: estão sujas. Sempre estiveram. Ruim de enxergar com, ruim de enxergar sem. Mas já comprei, paguei, gastei bem. Que mal faz tentar limpar uma vez mais?, só mais uma. A armação já está ficando torta de tanto que eu coloco, tiro, guardo, pego de novo, lavo, lavo de novo, seco e esfrego. E arrumo, mexo ele na cara, entorto pra dentro, remexo de novo pra fora. Deve ser algum problema com a água, está cheia desses cloros, flúores, um monte de ferro de cano, plástico de junta, resto de vedação mal feita. Esses produtos de limpeza, sabão, sabonete líquido, os amaciantes dos panos, deve ser isso que está impedindo os vidros de ficarem cristalinos. Não devia ter passado saliva daquela vez, nem tinha escovado os dentes. Ou será coisa da pasta de dente que estragou a lente? Preciso tomar cuidado depois de lavar, deve ser minha pele oleosa, vai secar, aí encosta, suja, não sai mais direito. Será meu hálito?, serão meu hábitos?, ou, em vez de sabonete ou sabão, será só impressão? Passam horas, dias, semanas. Já faz séculos que estou vendo tudo através dessa sujeira, dessa névoa que não me deixa enxergar direito. Essas manchas, elas sim, parecem grandes olhos turvos me encarando de muito perto. Serão minhas lágrimas? Serão minhas mãos? Mas elas nunca me banham os olhos, e estou sempre a lavar as mãos. Já nem sei o que enxergo e o que são rabiscos e borrões. Quando é que o mundo ficou assim? Já nem existe humanidade, nem sequer prédios em pé. Não há mais planta, nem bicho, nem gente. Mil anos se passaram e eu ainda estou aqui. Só eu e essa droga de armação, que já está toda torta de tanto ser chacoalhada e esfregada, e essas malditas lentes, sujas, imundas, impuras. Os óculos se partem: um pouco de armação retorcida pra um lado, o que sobra, inútil, em minhas mãos. Olho as lentes. Estão lá, me encarando. Deito tudo ao lixo. Desmancha-se tudo como o vidro desfeito retornasse a ser areia. Volto o olhar: as manchas continuam lá. Sigo sem enxergar.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Com minha música (II de II)

Depois da lista internacional, vamos à seleta nacional, à moda da casa, dos melhores de 2016.


Aterro (It Girl)
Às vezes faz muito bem ouvir um disco como este: não é pretensioso, não é pastiche, não é ordinário. Estes cearenses vêm com um disco redondinho, cheio de rockinhos honestos, que ora lembram Rumbora, ora Acabou La Tequila, ou mesmo Nervoso E Seus Calmantes (punkinho, indiezinho, skazinho, jovem-guardinha), tudo com embalagem indie rock esperta. A voz do cara lembra a do Rodolfo dos Raimundos (não é um elogio), mas é tudo muito divertido mesmo assim.
Ouça: Primeira Fileira



Bilhão (Bilhão)
Dá pra misturar indie strokiano, pop bucólico (ou dream pop, como queiram) e folk/mpb sem ficar bunda-mole, olha só: este disquinho tem tudo isso e não soa como pastiche camelo-amarantístico, nem prece encalhado em 2004. Entre rockinhos e baladinhas, o pequeno álbum flui suave, natural, lembrando um Real State no domingo à tarde, preguiçoso no melhor sentido, sem ânsia.
Ouça: Horizontalidade



Cat Days (Phillip Long)
Você pode falar que ele é só um Elliott Smith de Araras (SP), mas este moço prolífico (décimo disco em cinco anos), em seu álbum assumidamente mais gringo nos arranjos e nas timbragens, tudo universal, traz baladas folk rock delicadas, com ecos de Wilco e Radiohead, conceituais sobre “os dias que antecedem o fim de uma relação”. É uma bela trilha sonora pra ficar contemplando pela janela uma tarde chuvosa de sábado.
Ouça: Close To Disappear



Gehenna
(Labirinto)

Donos incontestáveis do melhor show brasileiro da atualidade”, como eu mesmo havia dito em 2014, o Labirinto consolida em estúdio (sob produção de Billy Anderson) o que já se desenhava nos shows, com o post-rock meio psicodélico tornando-se definitivamente um monolítico e climático post-doom. As tensões entre calmaria e tempestade continuam presente, porém, de forma mais concisa, desaguando em uma ótima trilha para os tempos sombrios em que vivemos.
Ouça: Enoch


Essa Noite Bateu Com Um Sonho (Terno Rei)
É bom ver mais bandas olhando novamente pros 60s, 70s, 80s, depois de tantos anos do cenário competindo pra quem refazia mais igualzinho o 4 do Los Hermanos. O segundo disco deste quinteto paulistano vem com pós-punk e psicodelia de leve, como um Violeta de Outono mais ‘relaxado’.

Ouça: Sinais


Lado Turvo, Lugares Inquietos (Máquinas)
Não é um disco fácil. Não é exatamente agradável. O primeiro disco deste quarteto cearense não tem a paz e o remanso habituais do post-rock (aqui, com climas sombrios de Ulver): a contemplação aqui é no máximo de um desespero que surge a cada faixa. Tensão, angústia... acho que ‘turvo’, como diz o próprio nome do álbum, define a experiência.
Ouça: Zolpidem





MM3 (Metá Metá)
O disco anterior, MetaL MetaL, já era bom, mas, desta vez, o trio paulista não só justificou como até superou o hype: este disco é denso, tenso, pesado (em forma e conteúdo), com instrumental monolítico, em que o rock cimenta a mistura de jazz e afro, e o vocal mais do que excelente de Juçara. Pedrada.
Ouça: Três Amigos



Old Friends
(Ritchie & Black Tie)

Sou suspeito pra falar de Paul Simon, é um de meus ídolos. Mas Ritchie fez um trabalho soberbo neste tributo com os violões, violinos e violoncelos do Black Tie (+ Tuco Marcondes), que valorizam muito as canções de Paul Simon – o cerne do projeto – em clima de gravação ao vivo, sem penduricalhos de produção. Sim, dá pra ser reverente e necessário ao mesmo tempo.
Ouça: The Boy In The Bubble



Sabotage
(Sabotage)

Não dá pra saber o que Sabota estaria fazendo hoje, visto que ele só teve tempo de lançar um disco antes de morrer, e há quase 15 anos. Mas este tributo é sobretudo muito digno e classudo, uma impressionante colagem das vozes inéditas gravadas pelo rapper, entremeadas com os bons arranjos de Ganjaman e uma miríade de convidados, de B-Negão e RZO (todos participando de forma voluntária  cedendo os direitos aos filhos de Sabotage). Dificilmente o homenageado acharia ruim o resultado final.
Ouça: Canão Foi Tão Bom



Sobre Os Prédios Que Derrubei Tentando Salvar O Dia – Parte 1
(DEF)

O trio carioca, em seu primeiro EPzinho, tem à frente a voz agridoce de Deb F, que pode cantar suavemente sob uma base de popzinhos e rockinhos, até que, do nada, tudo desmorona em distorções e dissonâncias guitarreias numa demência à garage rock. Muitas surpresas em tão poucos minutos, deixando boa expectativa para os EPs seguintes, que completarão uma trilogia.
Ouça: Dissolvendo




De bônus temos as melhores bandas atuais do post-rock brasileiro, em EPs, que, se não trazem novos elementos à suas carreiras, fazem jus à qualidade que ambas vêm mostrando nos shows que têm feito: o pernambucano Kalouv (Planar Sobre O Invisível) e o paulistano E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante (Medo De Morrer | Medo De Tentar), ambos aparentemente surgindo como pontos de inflexão, de tomada de fôlego, talvez de mais melodias do que climas, deixando no ar a curiosidade sobre como vão soar seus próximos trabalhos.














Vale a pena conferir também: o melhor e mais redondo disco do De Falla em 25 anos (Monstro); o pop rock lo-fi melancólico de Fernando Motta (Andando Sem Olhar Pra Frente); Ombu, com o disco Pedro, um rock intrincado e sinuoso ao qual preciso dedicar mais atenção; e Ao Vivo No Cine Theatro Brasil (Lô Borges + Samuel Rosa), ótimo pra colocar o trabalho dos dois artistas em pé de igualdade, na mesma linha evolutiva da música brasileira e antenado com o que rolou e rola no mundo.

O epônimo do Macaco Bong me decepcionou um pouco: tem bons momentos, mas me pareceu pouco inspirado, no geral. Boogie Naipe (Mano Brown), então, nem se fala: tanta expectativa pra um disco com 22 faixas que não passam de chill out de balada black. O disco d’O Terno (Melhor Do Que Parece) também não me cativou, achei que o rock honesto e maduro de outrora está numa encruzilhada, meio sem rumo.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Com minha música (I de II)

Vai terminando mais um ano, e eis a primeira parte da minha retrospectiva musical, o que ouvi de mais legal das coisas lançadas em 2016, começando com os discos internacionais.


Arktis (Ihsahn)
Ihsahn, nascido Vegard Sverre Tveitan, é um gênio. Não contente em, recém-saído da adolescência, revolucionar a música extrema, levando-a a outro patamar de sofisticação com o Emperor (e ainda vender milhões de discos), ele mantém uma carreira-solo incrivelmente consistente e inventiva, e este Arktis não é exceção: tem black metal ríspido, tem prog metal psicodélico com vocais celestiais à Enslaved, tem industrial, tem jazz, tem coisa pop, tem coisa dançante, mas nada óbvio, nada previsível. As músicas sempre vão aonde você menos imagina, e, mesmo assim, parece natural, inevitável. Disco do ano e música do ano, sem sombra de dúvida.
Ouça: South Winds

 



Come To Mexico (Totorro)
Um Weezer instrumental tocado bem mais rápido”. Foi como descrevi o recém-descoberto Home Alone, debute desses moçoilos norte-americanos do math rock. A descrição, acho, ainda vale, na falta de coisa melhor pra adjetivar esse som ao mesmo tempo quebrado, ensolarado e ultramelódico. Coloque o disquinho na vitrola, abra uma cerveja draft e sinta-se no verão de um parque – um parque complexo, mas ainda um parque, e bem divertido.
Ouça:
Saveur Cheveux
 



Guidance (Russian Circles)
Grandioso, monumental. Imagine um Explosions In The Sky mais contemplativo que emocionante. A música vem numa lenta e longa caminhada, do horizonte pra cá, solene, mas não feito marcha, é um passeio altivo mesmo. Lento e confiante. E então tudo se torna uma marcha inexorável, tensa, pesada. Pois o post-metal desses norte-americanos é sempre surpreendente. Uma definição possível seria “um Pelican mais paciente”.
Ouça: Afrika

 



La Niebla Y La Autopista (Julio Y Agosto)
Este hepteto argentino, em pouco mais de dez anos, com quatro discos e um EP, e shows em vários países latinos e na Europa, traz uma típica ‘comfort music’ com seu folk criollo – pop, melancolia e latinidade. Malcomparando, é um Belle & Sebastian sem deficiência aguda de vitaminas.
Ouça: Elena

 



Mariner (Cult Of Luna & Julie Christmas)
Este não tem muito erro pra quem curte post-sludge-metal: Cult Of Luna com a Julie, que já participou dos clássicos Battle Of Mice e Made Out Of Babies. Já se sabe o que esperar aqui: muito peso, muito clima, músicas se desenvolvendo sem pressa, ora explodindo em distorções, ora flutuando em dedilhados e percussões discretas. E o vocal de Julie Christmas serpenteia em meio a tudo isso com desenvoltura e malícia. Poderoso.
Ouça: Cygnus

 




Mayhem In Blue (Hail Spirit Noir)
Direto da Tessalônica, Grécia, vem este jovem power-trio (desde 2010) que já conta com três full lenghths, incluindo este Mayhem In Blue. Está no meio do caminho entre o debute do Kvelertak e os discos mais recentes do Nachtmystium, com ecos do finado Lifelover: ou seja, um black rock-metal doentio, cheio de tensão, psicodelia e sem nenhum compromisso com rótulos.
Ouça: The Cannibal Tribe Came From The Sea


 


Safehaven (Tides From Nebula)
Estes poloneses de Varsóvia vêm com o terceiro álbum ‘cheio’ em 8 anos, mantendo sempre a consistência: uma dinâmica mais, digamos, dinâmica que o habitual do post-rock/metal, passagens com peso à Pelican, eletrônica de leve (como o atual Explosions In The Sky) e trechos muito interessantes que remetem às paisagens sonoras de Brian eno com U2 na fase The Unforgettable Fire. Deve agradar até quem não tem muita paciência com o estilo.
Ouça: Traversing

 


Señoras (Los Valentina)
Este quarteto chileno recém-nascido (de 2015) já surge com seu primeiro trabalho, um EPzinho de 6 faixas em 23 minutos, de surpreendente segurança. Um pop rock meio final dos 80s, meio começo dos 90s, mas sem os timbres datados dessa[s] época[s] (mas espere eventuais teclados jovem guarda); pop de guitarras limpas, bonitinho e melancólico, na tradição que vai de Byrds a REM (e outros tantos), enquanto a bela voz de Valentina canta sobre cotidiano e nostalgia.
Ouça: Serpientes

 


Stranger To Stranger (Paul Simon)
Paul Frederic Simon é um prodígio: após levar o folk rock um passo adiante, com letras e harmonias mais sofisticadas nos 1960s, tem uma longa e sólida carreira-solo em que, inventando a world music décadas antes de o rótulo existiu, já misturou tudo que é cultura existente e existida do mundo. Hoje, do alto de seu 1,60m e de seus 75 anos, segue desafiando, instigando, experimentando. Sem nunca se deitar nas melodias confortáveis da parceria prolífica e turbulenta com Art Garfunkel.
Ouça: Wristband

 



Luz Satelital (Tobogán Andaluz)
Ora indiezinho, ora powerpop, mas tudo com certa leveza, dir-se-ia vagar típico oitentista; não vai mudar a vida de ninguém, mas é muito agradável ouvir este disquinho da atual banda do prolífico Facu Tobogán – não tão lo-fi e nada experimental como seus trabalhos-solo. A voz dele talvez seja o ponto fraco do álbum, um tanto desleixada demais, porém, vale a pena mesmo assim curtir esse rockinho porteño honestíssimo.
Ouça: Partido En Dos

 


De bônus tem: epônimo dos horrendos alemães do Bethlehem, que, após alguns anos perdidos em um arremedo de Rammstein com rock gótico, retornaram ao que sabem fazer melhor, um dark metal grotesco, grosseiro e desolador (ainda que sem a inspiração da fase áurea); e o tiozão do soul Charles Bradley, que, qual Cartola, só apareceu na mídia após só 60 anos (em 2013, com um single-cover de Changes, do Sabbath, relançado neste segundo álbum), e surge na lista como exemplo de álbum muito tocante e honesto, ainda que sem pretensões de inovação.




Também curti os rocks moderninhos e melódicos dos chilenos Medio Hermano (Lucha Libre) e Ases Falsos (El Hombre Puede), o incansável black metal norte-americano do Cobalt (Slow Forever) – ainda que inferior ao anterior e já clássico Gin, de 2009 e o blackgaze belga Rheia, do Oathbreaker, uma trombada entre Julie Christmas e Deafheaven; e esperava mais dos lançamentos dos franceses Alcest (Kodama) e Deathspell Omega (The Synarchy Of Molten Bones) e do italiano Frostmoon Eclipse (The Greatest Loss), pelo tanto que os aguardei.


Ainda nesta semana sai a parte II de II, com minha seleta de discos nacionais.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

E quem sabe sonhar outros sonhos



O sonho. Ir além. Ser melhor, outro alguém. Conseguir o impossível. É por isso que a gente se apega tanto a times pequenos de futebol quando enfrentam os grandes e vencem. Vislumbramos em equipes como a Chapecoense a possibilidade de realizar sonhos, enquanto muitas vezes a gente não consiga sucesso com os nossos. Cada defesa do Danilo, cada gol de Kempes, cada vibração do Caio Jr era uma visão no espelho que nos dizia ‘você ainda pode sonhar’, ‘as coisas às vezes dão certo’. Meritocracia ideal-impossível. Mas vem o destino e suas cismas e derruba do alto da roda da fortuna todas as esperanças. Hoje a Chapecoense é a morte do sonho. Que todos possamos ajudá-la, e a nós mesmos, todos os dias, a juntar os cacos e as forças, fazendo nascer desse chão pisado, lacrimoso, uma nova solidariedade. Pra recomeçar e sonhar tudo de novo. #ForçaChape

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Une certaine difficulté d’être

Acordei? Acordei. Não, não acordei, ainda estou sonhando. Sonho ruim, inclusive. Noite de sonhos intranquilos. Calor, tá calor, devia ter tirado a coberta, pegado só uma colcha. Mas nem sei se estou acordado mesmo. Não, acordei mesmo. Olha, até que dormi bem, pros meus padrões. Pô, até que estou de bom humor pr’uma segunda-feira calorenta. E olha que acordei bem mais cedo que o necessário. Vamos tentar levar o dia, quiçá a semana, numa boa. Levanto, abro a janela, nossa, mas já está bem sol!, vai ser foda de calor hoje. Marcos Valle na vitrola [YouTube], chá gelado, vamos ler as notícias. Nossa, mas o trânsito tá horrível hoje, hein, dá pra ver daqui. E o aplicativo de ver os ônibus não está funcionando direito. Não seria um grande problema se a empresa respeitasse os horários, mas não é o caso, definitivamente. Desço pro ponto, tá bem calor mesmo, e neste horário não tem sombra nenhuma, tá foda. Uns cinquenta minutos depois, ponto cheio, carros e gente indo e vindo, vem o ônibus. Cheio. E aí, no terminal, mais um ônibus, e mais distância e trânsito, tudo envolto em muito calor. Chego à #firma, cansado, suado, metamorfoseado num monstruoso, e São Paulo do Piratininga já drenou toda a minha vontade de viver. Segundas-feiras não costumam ser muito diferentes disso.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Entre outras mil, és tu

Eu ligava muito pra Olimpíadas desde o começo dos 1990s. Minhas memórias olímpicas eram todas dessa época, de Hodori a Cobi, de Bem Johnson a Serguei Bubka. Depois, sei lá, também logo comecei o curso técnico em período integra, depois a trabalhar, e nem dei por mim quando já não tinha tempo nem disposição pra acompanhar nada que não fosse o Corinthians (até algumas copas ignorei no caminho, como a de 1998).

Passei esses anos todos vendo as Olimpíadas como uma gincana de luxo, com um monte de gente estranha e esporte esquisito, aquele oba-oba todo que vinha do nada e logo em seguida voltava para lugar algum. Dizia que gostava de atletismo, mas nem isso acompanhava direito.

Mas eis que, nesta Rio 2016, em que eu vinha reticente quanto às capacidades da cidade de montar toda a estrutura a tempo, fui contagiado pelo afã da fã de primeira hora Talita, e acabei me empolgando – ainda que conseguisse acompanhar pouca coisa na #firma – a ponto de fazer um esquema insano para ir ao Rio em um final de semana, com direito a ver o Bolt correr e presenciar uma cerimônia de premiação (arremesso de disco).

E foi emocionante demais, como já havia sido a abertura, como acabou sendo todo o decorrer, e como foi o encerramento ontem. Diferentemente de quando houve a primeira votação do impeachment, naquela aziaga noite de domingo em abril, em que olhamos dentro do abismo e um país abissal nos encarou de volta, as Olimpíadas foram a gente de olhar num espelho e gostar do que vimos, como disse o Renato Paes Leme ontem.

Foi muito bom estar certo a respeito da Copa, como foi bom estar errado a respeito dos Jogos Olímpicos. Apesar de tudo, a gente é um povo muito especial, e é muito legal ser brasileiro.

E por favor alguém traz logo um evento esportivo, qualquer evento, pra cá
. Prometo, enquanto isso, tentar acompanhar pelo menos um pouco de atletismo no dia a dia. ^^