segunda-feira, 29 de março de 2021

Eu sou trezentos, eu sou trezentos-e-cinquenta.

Mil por dia, cem mil ao todo, dois mil por dia, duzentos mil ao todo, três mil por dia, trezentos mil ao todo. São só números, são apenas dias, um após o outro. Semanas, meses, vão passando, com tantas vidas tão ocupadas, com seus trabalhos, com suas festas, com fome, dor, dinheiro, crença. As vidas seguem, se perseguem, se ocupando de morrer. O dia nasce, o dia morre; os corpos descem, almas se esvaem. E é sempre um sol infernal de meio do dia. É sempre o fundo da noite mais escura. No fundo do abismo, outro abismo [outro abismo]; a gente morre e não dá conta de morrer tudo que tem. O luto por nós mesmos está fora de moda. Mergulhamos até o fundo em lúgubre monotonia: na grandíssima marcha pro vazio, o esquecimento, a obliteração, fila da qual já não se lembra o início e nem se pode ver o fim, nos tornamos um borrão indistinguível pra quem vê de fora, para quem povoa o mundo. Vai faltar morto pra tanta morte. Não tem terra pra isso de caixão. Nem existe esse tanto de gente no mundo. Estão errando nas contas, certeza. Esse jornal é de anteontem, eu vi. Quem vai sobrar pra contar os mortos? Aonde vamos todos quando não houver mais chão? Alguém já apagou todas as nossas luzes. Chegou a nossa hora e é sempre o momento errado, incompleto, anterior. Os horrores se sucedem, estertores: jornais enchem as capas de pontos, traços, cruzes. Cartuns com sangue e mil covas nas fotos. Vamos nos indignar com o quê?, vamos nos entristecer por quê?, por quem? A dor é dos outros. O silêncio é só nosso. Bandeiras em trapos, roídas pelo tempo: empresas, partidos, os donos de tudo – de todos os corpos, os vivos e os mortos – nos deixam à margem, à míngua dos dias, atropelados, aturdidos, em silêncio, em gemidos, triturados pela roda, na moenda do fim da história, do que restou de memória do que a gente ia ser e não foi. Falta ar no oco do peito. Como é que está aí no fundo do poço? [Não te ouço, não te ouço]. Vejo a pós-humanidade, descivilizada, moribunda, cinzenta, e ninguém, ninguém, ninguém, ninguém jamais se responsabiliza. Ante a solene imprecisão de nossas virtudes, as palavras escorrem do canto dos lábios, as lágrimas morrem no fundo dos olhos. A consolação derradeira: há quem diga saber todos os mortos, e conhecê-los muito bem. Apenas vejo todos vocês. De uma vez. Nunca mais.