segunda-feira, 29 de março de 2021
Eu sou trezentos, eu sou trezentos-e-cinquenta.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2020
The Sound Of Perseverance [III de III]
Chegamos à terceira e última parte do Listão do Vanzão [a primeira, internacional, está aqui, e a segunda, latina, aqui]; esta seção tupiniquim da jornada não seria possível sem o auxílio luxuoso da querida Laíssa Barros, que me indicou um monte de coisa boa que saiu por aqui neste ano.
Isabela Morais [Do Absurdo]
“É provável que você me conheça de diversos projetos:
seja Ummagumma, The Brazilian Pink Floyd, sejam os tributos a Elis e Vinicius
de Moraes, a antiga banda Marginália, ou ainda como professora de sociologia,
produtora cultural, astróloga, taróloga… mas hoje estou aqui como compositora e
intérprete gravando o primeiro disco depois de uns bons quase 20 anos nos
bailes da vida”. Assim Isabela se apresenta, no bem-sucedido crowdfunding
possibilitou este Do Absurdo. Dá pra imaginar a salada cultural que ela tem pra
apresentar. E apresenta: a voz, em muitos momentos, lembra Adriana Calcanhotto,
o som é um pop com tintas de psicodélico/progressivo e música brasileira, meio
torto e bastante inesperado – ainda que totalmente fluido, você nem percebe o
tempo passar. Ah, e as letras, que vão de Ian Ramil a Maurício Pereira, são
ótimas. Pode ir sem medo.
Ouça: a faixa-título
Jadsa + João Meirelles [Taxidermia Vol. 1 (EP)]
O segundo EP de Jadsa, jovem multi-instrumentista baiana
radicada em São Paulo, é parceria com João Meirelles [do Baianasystem, banda
que todo mundo ama mas na qual não vejo graça], tem ecos de Metá Metá e Vanguarda
Paulista, com guitarra fuzzy, cantos afro, eletrônica/loops, ritmos ora
quebrados, ora sincopados, tudo indo e vindo, sem jamais deixar que os versos
enigmáticos de Jadsa deixem o protagonismo. Não é um disco agradável de ouvir,
no sentido estrito, de ser uma experiência leve, fácil: a atmosfera, tanto faz
se semidançante ou arrastada, não te deixa muito espaço pra respirar, as quatro
faixas, de duração típica de música pop, parecem se demorar muito mais no
tempo, algo suspensas, trôpegas. Ouça com calma e disposição.
Ouça: Sou Gente
Julico [Ikê Maré]
Integrante do The Baggios – banda que nunca me chamou a
atenção –, Julico tem umas loshermanices, tem muita mpb lisérgica anos 70s [tem
horas toda a doideira conceitual e sonora da época parece desembocar em uma só
música] e mais batuques & sambas afins, o pique de sua banda de origem e um
conceito lírico tão doido que nem tentei entender. Parece ruim né. Mas é bom, é
muito bom, o disco nacional que mais curti ouvir em 2020. Aparentemente Julico
toca todos os instrumentos, mas não tem a autoindulgência costumeira desse tipo
de empreitada, parece som de banda mesmo. E se tem hora que parece com tudo, no
geral não parece nada, soa muito vivo e fresco. Álbum foda, daqueles de ouvir
por anos e sempre descobrir um timbre novo aqui, uma passagem diferente ali…
Ouça: Nuvens Negras
Kaatayra [Só Quem Viu o Relâmpago À Sua Direita Sabe]
A prolífica banda candanga – quatro meses depois deste
disco, lançou mais um (não tão bom), Toda História Do Mundo – vem com um black
metal ambientalista, ligado à natureza e às raízes ancestrais, com letras
cheias de reflexões espirituais, no que seria uma mistura de Wolves In The
Throne Room/Falls Of Rauros/Panopticon e Corubo. Só isso já seria
interessantíssimo, mas o Kaatayra nos reserva mais uma ótima surpresa: no meio
do black metal massivo, que preenche o Universo inteiro, temos backing vocals
limpos, hipnóticos, teclados bonitinhos, temos seções com violões folk e
percussões indígenas, como se um ritual do Alto Xingu invadisse o estúdio. E
essa bagunça toda funciona, flui otimamente nas longas faixas do álbum. Seria o
Holy Land do black metal? Só sei que é bom, muito intenso, cheio de beleza
invulgar e informação sonora extremamente diversa. De ficar desnorteado após a
audição.
Ouça: Chama Terra, Chama Chuva
O Hipopótamo Alado [Meu Coração Pingando Sangue Na
Varanda Do Planeta (EP)]
“Agora eu estou num projeto com o Lourenço Monteiro
(baterista do D2), o Humberto Barros (tecladista) e o Fabiano Calisto, que é um
poeta paulista. Chama Hipopótamo Alado, são só músicas longas, eletrônicas,
muito pra baixo, pra retratar os tempos de hoje”. (…) “O Hipopótamo Alado é um
coletivo musical formado por Leoni (vocal, violão, baixo), Lourenço Monteiro
(bateria, percussão, programação e vocais), Humberto Barros (teclados, baixo e
vocais) e Fabiano Calixto (voz, ruídos, metáforas)”. Bom, essas duas citações
dão o tom do que temos aqui: o jeito de compor é Leoni puro, mas acrescido de
forte poesia nas letras e arranjos menos pop e mais, digamos, de vanguarda: na
mesma música tem bateria e percussão eletrônica, violões, loops, backing vocals
sombrios, pianinhos de dar taquicardia e barulhos incômodos quase ao ponto da
irritação. Ou seja, é total Leoni e nada Leoni. Entendeu? Nem eu, mas é isso
aí. Baita EP, é legal demais ver um artista pop ‘velho’ e consagrado se
arriscando tanto, totalmente fora de qualquer zona de conforto em que ele já
esteve na carreira. Só por isso merecia estar na lista, mas o disquinho é tão
bom que o único defeito e acabar rápido demais. Imperdível.
Ouça: Na Esquina Mais Escura Do Mundo
Merecem lembrança também o ótimo disco do Marcelo D2, com
uma seleção do rap nacional de convidados e seu melhor disco desd’A Arte Do
Barulho [2008], a ambient music à Brian Eno de Felipe Ayres, do ruído/mm, e o
pop tristinho à Hello Seahorse! do Carne Doce.
Que 2021 seja cheio das doideiras musicais. Até lá!
terça-feira, 15 de dezembro de 2020
The Sound Of Perseverance [II de III]
Abel Ibáñez G [De Vuelta En Casa (EP)]
Ouça: Fuerte Para Volar
Enjambre [Próximos Prójimos]
Merecem destaque o sempre ótimo pop melancólico do mexicano Hello Seahorse! e duas bandas chilenas: o rockinho agridoce do Los Castigos e o indie-metal? de responsa do Adelaida.
Por hoje é só, pessoal. Daqui a pouco sai a terceira e última etapa [nacional].
domingo, 13 de dezembro de 2020
The Sound Of Perseverance [I de III]
Vamos à primeira parte [internacional] do tradicionalíssimo Listão do Vanzão com os discos que mais curti ouvir em 2020.
Hail Spirit Noir, Eden In Reverse
Este ex-power-trio [hoje um sexteto] grego já passou por aqui com Mayhem In Blue [2016], 'apenas' um black metal psicodélico com ecos e timbres de thrash/punk, dando em uma ótima desgraceira. Porém, neste disco, parece outra banda [por mais clichê que isso seja]: tá certo que eles já demonstravam certo desprezo por rótulos musicais, mas este Eden In Reverse me deixou boquiaberto. É progressivo, psicodélico, labiríntico, cheios de timbres vintage de teclado [saídos de algum porão do krautrock], vocais quase gregorianos contrastando com o peso e a tensão cósmica do som – ainda que não haja nada de black metal aqui. Falei de krautrock ali? Bom, é o tipo de som estranho que parece ter ecos aqui. As músicas se desenvolvem sem pressa ou indicação de aonde vão te levar. Temos aqui o mesmo espírito ‘metal adulto’ de Ihsahn e Enslaved, mas os conceitos são totalmente diferentes – e, desta vez, melhores. Disco do ano, fácil.
Ouça: o disco inteiro
Ihsahn, Pharos [EP]
Como eu já disse na resenha de Arktis [2016], “Ihsahn, nascido Vegard Sverre Tveitan, é um gênio. Não contente em, recém-saído da adolescência, revolucionar a música extrema, levando-a a outro patamar de sofisticação com o Emperor [e ainda vender milhões de discos], ele mantém uma carreira solo incrivelmente consistente e inventiva”, misturando black metal com progressivo, eletrônico, jazz e até pop. Pop, aliás, é o que mais tem neste novo EP, aparentemente feito para irritar os metaleiros mais toscos: ao lado de três singles bastante acessíveis [mas não menos trabalhados que o resto de sua obra], duas surpreendentes covers – Portishead [Roads] e A-Ha [Manhattan Skyline, com participação de Einar Solberg, do Leprous, nos vocais]. Após se desprender das amarras do metal extremo, e do próprio metal, agora nem mesmo o rock limita os horizontes de Ihsahn.
Ouça: Losing Altitude
Iress, Flaw
Eu não conhecia o Iress, esta banda de Los Angeles com quase 25 anos de carreira; tampouco lembro como esbarrei neles por essas esquinas da internet. Mas foi uma grata surpresa: aparentemente o grupo é definido como ‘doomgaze’ – ignorava a existência do rótulo até então, mas olha, faz sentido. É pesadão, tem horas que quase esbarra no sludge e/ou no metal moderno americano, mas tem climas bem bonitos de vocais femininos que ora lembram Kylesa, ora The Gathering. O resultado é ao mesmo tempo agradável e intenso. Taí uma banda que certamente aparecerá novamente por aqui em listas futuras.
Ouça: Underneath
Kły, Wyrzyny
Não
é minha lista de discos internacionais preferidos do ano, de qualquer
ano, se não tiver um black metal polonês bem esquisito e doentio. Pois
ei-lo: vocais psicóticos [com eventuais declamações com voz limpa],
guitarras melancólicas, som cru mas tudo bem audível [as linhas de baixo
são bem interessantes, aliás] e um persistente sentimento de isolamento
e fragilidade. É bem menos brutal do que os polacos que costumam dar as
caras por aqui, pois há momentos bonitos e doídos durante todo o disco.
Pra quem acha que black metal mais cru se resume, ou precisa se
resumir, a barulheira desenfreada, taí o Kły. Ah, e Pode agradar fãs de
Lifelover e/ou Bethlehem, em matéria de vocais angustiados e passagens
de instrumental mais esparso.
Ouça: Gwiezdny Wiatr
Ulver, Flowers Of Evil
Já começa com a capa mais bonita do ano: a sofrida Maria Falconetti em La Passion De Jeanne D'Arc [1928], de Carl Theodor Dreyer. Aprofundando a linha iniciada em The Assassination Of Julius Caesar, de 2017, estes noruegueses, que já foram black metal melódico, black metal esporrento, acústico, psicodélico, eletrônico minimalista, eletrônico mais dark, indie... entregam mais um trabalho excelente, ao mesmo tempo profundo e pop, melancólico e dançante, simples e misterioso.
Ouça: Little Boy
Menções honrosas para retorno do trio japonês [dois teclados e uma bateria] Mouse On The Keys ao som mais intenso e menos relaxado do que no álbum anterior; a sempre inclassificável avant-garde one-man band húngara Thy Catafalque e o ex-thrash e atual black metal atmosférico cheio de guitarras tristes e sopros entremeando os vocais impiedosos dos holandeses do Dystopia.
sábado, 29 de fevereiro de 2020
No abstrato abismo equóreo em que me inundo.
Em paisagens monótonas de tédio, arruinadas, recendendo a estreiteza e podridão, tu estavas coberto de insetos, sob um sol gris, apagado, mortiço, e eu te mandava deitar, morrer, sumir. E, de repente, um dilúvio de águas geladas em alamedas tão familiares, noite escuríssima - e eu me perdia e ti e de mim. Mas nenhum de nós estava ali, e penso que não estou mais em muitos lugares, apenas cheio de infindáveis vazios.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2020
Sem perturbar sua claridade, mas também sem diminuir minha tristeza.
Queria que tivesse visto de perto minha já nem tão nova casa, e novamente o nosso time desde sempre; meus bichos, meu espaço, meus novos e sempre incertos passos. E te contar meus novos erros, e quem já não sou sem você. Nas noites em claro e nos dias escuros.
O que me tornei?, não sei. Alguém diante de uma imensidão de ausências, talvez: tropeçando, caindo, sem ver o caminho ou saber o destino, mas, eu, acho seguindo. Um caminho que já não há, de alguém que jamais fui. Sobra tanto espaço que, por vezes, me sufoca.
Vivo o luto e luto do meu jeito. Alguns dias, mudo, outros, ansiado e contrafeito. Às vezes dá um negócio no peito: viver é, sobretudo, solitário. Talvez mais do que morrer?, mas isso não poderei dizer por ora.
Você gostava de chuva para dormir. Hoje chove bastante e você dorme para sempre. As flores, os pássaros, tudo que você amava resolveu seguir caminho sem ao menos te esperar. O mundo inteiro está por aí, ao meu redor e acima de você, quase igual, em vastidões de esquecimento e mágoa.
terça-feira, 28 de janeiro de 2020
Por não te poderes levantar do abismo em que te reclinas.
Já nessa noite, no quintal do que foi nossa casa, eu me preparava pra ir a um lugar que te era muito querido; minha mãe, e tua esposa, perguntava por que, logo num dia tão quente. Ao justificar que te era um local querido, você aparecia, novamente sem dizer nada. No que eu me virava, percebendo estar em terras oníricas, e dizia: mas você está morto. E dormi o sono adoecido de quem já não quer sonhar.
E sempre muito calor. Nenhum som e muito sol. O mesmo sol que ardia quando você se apagou.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2019
E o sorriso de uma alegria que eu não tive.
"Wherever I am | I'm always walking with you | I'm always walking with you | But I look and you're not there. || Whoever I'm with | I'm always talking to you | I'm always talking to you | And I'm sad that you can't hear | Sad that you can't hear." [Cat Stevens, How Can I Tell You]
Hoje faz dezesseis dias que você morreu. Dezessete da última vez que te encontrei com vida, ainda que já se esvaindo. Dezoito de nossa última breve e aflitiva conversa. Ainda acordo pensando que você está em casa, me assusto com o que seria sua respiração adoecida, penso em te telefonar. E no que você pensaria sobre tudo que faço, penso, sinto, sei, não sei, sou, não sou. Ainda sinto o cheiro do hospital e sei descrever exatamente o barulho que as pás de terra fizeram no teu caixão. Do desamparo de minha família, e da minha sensação de estar no meio de um imenso deserto, e que sempre estivesse lá. Eu e o deserto, só faltando que notássemos um ao outro. Da tua cor no necrotério, do semblante de todos que foram se despedir de você, do brilho alvinegro da tua derradeira veste. De frases, algumas ditas por mim, outras por você, as demais por outrem, como ‘Hoje eu não estou muito bem, não’; ‘Eu te amo. Não desiste, porra’; ‘Por que você fez isso com você?’; ‘E agora, o que vai ser de mim?’; ‘Fica com Deus. Fica com Deus. Fica com Deus’. Ainda falo o tempo todo com você, e às vezes acho que quase posso te ouvir. Suas histórias repetidas, exageradas; suas opiniões cheias de razão, respostas sempre blasé, manias e maneirismos. Mas não posso. Não ouço. Você não fala. Não poderei te ver, porque você já não é e não há. Porém, você ainda está, como esteve, e estará, não apenas na obviedade inevitável das memórias que sucederão o pesar, a dor, o vazio, mas em cada gesto meu. Em cada mínimo gesto. Do jeito de arrastar os chinelos ao modo de torcer em silêncio pelo Corinthians no estádio. Do azeite em tudo quanto é comida ao jeito pragmático de lidar com as coisas. Da intimidade com a natureza ao cruzar de pernas e reclinar na cadeira ou no sofá. Da teimosia ao fatalismo. Comer pouco, não chorar, esconder a fraqueza com mais força. Sempre se transformar. Porque a vida, até a morte, é tudo reinvenção. E, de tanto ser assim, também repetição. Obrigado por tudo, até pelos erros. Sigo errando por aqui também. E que um dia nossos átomos se rearranjem, juntos, em formas tranquilas e perenes.
The silence of sound [III de III]
Encerrando o Listão do Vanzão 2019, a lista internacional, certamente a mais idiossincrática e difícil de fazer.
Батюшка, Панихида
Projeto polonês [ninguém faz música extrema mais doida que os polacos] que é basicamente uma missa ortodoxa tocada como black metal - sim, e isso mesmo, o primeiro disco [Litourgiya, de 2015] é sensacional, e ao vivo é uma experiência extasiante, com todo o cerimonial no palco [velas, turíbulos] e as vestimentas sacerdotais. Porém, houve uma treta no projeto, e, assim como no Gorgoroth, enquanto a justiça não decide quem é o dono da marca, há duas bandas ativas com o mesmo nome; a diferença aqui é que esta usa o nome em cirílico e outra grafa a transliteração [Batushka]. Na prática, este Батюшка segue a linha evolutiva do debute, enquanto o outro parece alguém tentando imitar porcamente a estreia do grupo. Abra sua cabeça e mergulhe nisto aqui, é coisa finíssima.
Ouça: Песнь 1
Këkht Aräkh, Night And Love
A estreia desta one-man band ucraniana, aparentemente, não tem nada demais: a capa, os timbres, as levadas, tudo remete ao black metal norueguês noventista. E, de fato, não há nenhuma grande revolução aqui: levadas meio Darkthrone, tecladinhos meio Burzum, aquele vocal áspero, mais falado que cantado [entre o Nocturno Culto e o Satyr]. Mas, olha, deixei o disco rolar aqui na primeira vez, e tudo fluiu de forma excelente: intros, intermezzos e outros de violão [ótimo timbre, aliás] entram e saem de forma coesa; teclados não cedem à autoindulgência travestida de minimalismo; tem momento inesperados de declamações quase sussurradas, de intensa melancolia – e é legal que dá ao mesmo tempo um respiro e um reforço no vazio espiritual que o disco pretende passar. Um disco legal de ouvir, mostrando que não precisa nem negar o passado e nem se apegar demais a ele pra fazer uma obra de arte competente e bem feita.
Ouça: Elegy For The Memory Of Me
Oiseaux-Tempête, From Somewhere Invisible
O som é grandioso como uma trilha sonora. Solene feito uma sinfonia. Tem baixo, guitarra, bateria. Teclados discretíssimos. Orquestrações de sopro e cordas. E Vocais declamados. Ah, e tudo feito na base da improvisação. Fora esse descritivo, não faço ideia de como enquadrar esse ~coletivo~ francês, que me chamou a atenção há quase dois anos, quando ouvi a estreia, Ütopiya, de 2015. É post-rock/metal, progressivo, krautrock, free-jazz, free-rock, free-music?, não faço a menor ideia, e, de repente, nem eles. Mas ouça esse From Somewhere Invisible com atenção, pois a viagem e o assombro são garantidos.
Ouça: We, Who Are Strewn About In Fragments
Rivers Like Veins, Z Iskier Srebrnych Orszaków
Mais um grupo da Polônia, estreando com disco cheio, após um EP [2017] e um split com a banda Stworz; black metal com boa produção, som sujo mas tudo bem audível, e nada mal feito; aquela pegada polonesa única nas timbragem e levadas; uns tecladinhos Burzum [impressionante como é referência nisso], batera meio primitiva, mas sólida, vocal OKzão; cadenciado, nem muito lento, nem muito desesperado [quase não tem blastbeat], com uns ritmos mais roquinho; acaba ficando meio pop [pro quão pop esse tipo de desgraceira pode ser]; som de batera maneiríssimo e – o que mais me atraiu – riffs [coisa meio rara no estilo] matadores, sem guitarras fazendo trêmolo o tempo todo. Baita disco.
Ouça: Kształt Obcego Ducha
White Ward, Love Exchange Failure
Em 30/07/17, escrevi no Twitter: “E este White Ward mano, um post-black metal impiedoso com SOLOS DE SAX MOENDO no meio. E fica foda!”. No final daquele ano, Futility Report entrou na lista de melhores discos internacionais: “Descobri por acaso este quinteto ucraniano de post-metal, e que belo acaso: black metal gélido, climas contemplativos de post-rock (com leves toques de eletrônica), algumas levadas de pós-punk e hardcore aqui e ali, e muitas viagens malucas de jazz se debatendo em seis longas faixas. Por mais caótico que pareça, o resultado é sempre muito coerente, ainda que inesperado. A música vai aonde você nunca espera, e, mesmo assim, quando ocorre a mudança, você pensa que só poderia ser daquele jeito mesmo. Imperdível”. Pois este Love Exchange Failure está mais coeso: se foram, por exemplo, os climas pós-punk e hardcore; mas, mesmo assim, surpreende, pois as partes brutais estão mais desgraçadas, e a as partes jazzy estão quase chill-out.
Ouça: Love Exchange Failure
quinta-feira, 19 de dezembro de 2019
The silence of sound [II de III]
Chegou a parte mais variada do Listão do Vanzão: a seleta latina tem ritmos e países bem diversos, e é a seção mais prazerosa de ser feita.
Electric Mistakes, Vicente
Conheci estes bogotanos [um duo] meio por acaso – uma vez que a Colômbia não é uma país com tradição em rock [conhecia apenas Nicolás Y Los Fumadores, Aguas Ardientes e Piel Camaleón] – e foi surpreendente descobrir este som melancólico, garageiro [destoando do pop meio electro de grande parte das bandas latinas atuais, especialmente da cena mexicana, a maior e mais influente dos últimos temos]. Juan Hernández [voz, guitarra] + Laura Perilla [bateria], que, ao vivo são um quarteto, com adição de baixo e outra guitarra, fazem um som obsessivo, quase uma opressão sonora: ritmos duros, pesados, secos, hipnóticos, climas de pós-punk, dor e melancolia [mesmo nas músicas sonoramente mais leves, o clima permanece denso], e letras que falam sobre perturbações mentais sortidas. E com a capa latina mais bonita do ano.
Ouça: La Fe
Little Jesus, Disco De Oro
A estreia destes mexicanos, em 2013 [Azul], é dos meus discos preferidos: indie pop rock dançante malemolente, ao mesmo tempo emocionante e sem se levar a sério [tem horas que lembra o nosso Holger]. Esperei muito este terceiro disco, e logo veio o sorriso que poucas bandas me dão: Little Jesus tem sabor de sábado, duas da tarde, aquele solzão rachando, você com uma long neck de draft, sal + limão. Aí você até lembra dos problemas, sabe que alguns estão além de suas possibilidades de resolução, mas sabe que, no fim das contas, tudo vai dar certo e que você vai ficar bem, e com quem você ama por perto. Leve-os para sua playlist de férias. “Fuegos artificiales | En todas las ciudades | Y en mi estómago también, vem | Entendí las señales | Tú y yo somos iguales | No nos pueden detener | Ni entender.”
Ouça: Los Años Maravillosos
Los Mesoneros, Pangea
Estes venezuelanos [radicados no México] seguem voando. Em dois anos, dois discos de altíssimo nível. A expectativa por este lançamento estava lá em cima, e não decepcionou, pelo contrário, só confirmou a vitalidade da cena local. A faixa-título, com participação da colombiana Elsa Carvajal [Elsa Y Elmar], é a coisa mais bonita que ouvi neste ano. Melódica e harmonicamente, uma joia pop: simples, bem cuidada, toca fundo em letra & música. O disco em si segue uma linha mais ‘animada’, mas sempre bela e emotiva. Los Mesoneros faturam pelo segundo ano seguido o título de melhor álbum latino que ouvi. "Existen fuerzas | Que nos acercan | Que nos alejan | Y si se enfrentan | ¿Cuál queda?"
Ouça: Pangea
No Rules Clan, Pantone
Desde o debute, Rap Nativo [2012] eu não ouvia falar ou lembrava deste do trio colombiano. Direto de Medellín, Anyone/Cualkiera e Sison Beats, junto do DJ Kario One, fazem um som extremamente consistente neste disco, mesmo sendo bem jovens [média de 25 anos]: rap assumidamente noventista, no estilo relaxadão da saudosa Death Row [ex-gravadora de Dr. Dre], acrescido de jazz, pop, milongas, boleros e outros tantos ritmos, especialmente latinos. Tem o flow necessário pra manter a atenção, mas sem o excesso de discurso que torna muitos discos de rap cansativos de ouvir num fôlego só. Serve pra uma caminhada, serve pra relaxar. “Verdades son verdades por mucho que se escondan | Y como esto es rap yo no digo nada y dale play al disco.”
Ouça: Give Me The Loop
V/A, Fuego: Canciones De Emergencia
Vários artistas chilenos lançaram, neste ano, canções sobre os protestos que chacoalham o país feito terremotos: Leo Saavedra, [ex-Primavera De Praga], Kuervos del Sur, Ases Falsos [que já figurou num Listão do Vanzão], Alex Anwandter, Ana Tijoux... mas a iniciativa de Yorka Pastenes [que apareceu por aqui ano passado, com o duo que tem com sua irmã Daniela], artista engajada full-time, é incrível: pediu a seus alunos de uma oficina de composição musical que trouxessem composições sob o tema ‘fogo’, dirigiu e produziu o resultado, lançado por um coletivo chileno, acrescido de uma canção da própria dupla Yorka. Um disco obviamente irregular, muitas vezes urgente demais, às raias da pressa [o que é perfeitamente compreensível], que por ora resvala na ingenuidade, porém, absolutamente necessário. Uma obra já destinada à História.
Ouça: Cae
Aqui tem a lista nacional e logo mais ter a terceira e última parte, com meus discos internacionais prediletos do ano.
quarta-feira, 18 de dezembro de 2019
The silence of sound [I de III]
Pois vamos à seleta nacional de disco que mais curti escutar neste ano.
Ave Sangria, Vendavais
Em 18/04/2014 escrevi isto no Twitter, após um espetáculo no Sesc Belenzinho: “Esse show do Ave Sangria foi das coisas mais ricas musicalmente que já vi: hard rock, psicodelia, prog, samba, maracatu, latinidad à Santana...”. Pois a mistura continua neste disco novo, após hiato de incríveis 45 anos!, com essa mistura toda que já citei - só que mais coesa, com os elementos mais espalhados pelas faixas do que tudo de uma vez só -, soando tudo redondinho, como um Alceu Valença tendo os Novos Baianos, fase ‘Ferro Na Boneca’, como banda. Bem tocado, bem gravado, bem produzido, com belas e esclarecidas letras [ "Eu tenho medo | Por mim e por vocês | E pelo que vem depois do fim deste mês."]. Vai bem a qualquer hora, ouve que não tem erro.
Ouça: O Poeta
Beto Cupertino, A Gente Vai Encontrar Sossego
Segundo disco do maior artista que Goiânia nos deu desde Mirosmar, finalmente temos um trabalho do nível de sua eterna banda Violins. Para quem gosta do já clássico Direito De Ser Nada [2014], não tem erro aqui: aquela insustentável leveza no meio de tantas arestas, a busca por alguma paz no meio e tanto caos, a crescente maturidade e, tempos tão niilistas e desesperançosos. Beto aceita o fado e encara os fatos. Um álbum inspirador, mesmo em sua aparente incompletude filosófica do ser-aí-em-qualquer-lugar ["Fica a gratidão do meu pesar | E meu constrangimento por viver | Sem graça do Divino | Sem compromisso."]. E, por tudo isso, o disco nacional que mais curti ouvir em 2019.
Ouça: Baque Do Instinto
Continental Combo, Cósmica Conexão
Dresden, Azul
A capa nacional mais bonita do ano embala o post-rock bacana do Dresden, de Ribeirão Preto, que estreia com este belo EP. Se você curte post-rock nacional, como Kalouv, E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, ruído/mm, num tem erro: é aquele som tranquilo que gira concentricamente até o caos controlado – porém, com mais melodia do que caos, e mais para o formato ‘canção’ [o quão uma faixa instrumental possa estar nesse âmbito], do que longas viagens eletroeletrônicas – ou seja, bem mais pro Explosions In The Sky do que pro Mogwai, por exemplo. Ótimo para momentos contemplativos, de ser-em-si.
Ouça: L'appel Du Vide (Chamado Do Vazio)
Jair Naves, Rente
Nunca havia me interessado pelo trabalho desse rapaz porque não me aprouvia sua voz no Ludovic [embora o som e as letras fossem de qualidade], sua famosa? Ex-banda. Continuo achando seus vocais estranho, porém, com a sonoridade mais contida, do que o rock tenso e intenso de outrora, dá outra conotação a suas tonalidades. Combina, ou, ao menos, não incomoda. E que melodias e harmonias bacanas, parece, vá lá, o Violins do Tribunal Surdo tocando as músicas do Aurora Prisma, aquela tensão contida, “a ponto de explodir”, como o próprio Jair canta na primeira faixa. Baladas tortas, roquinhos tortos, tudo bem instigante, e visceral mesmo quando delicado: “Quão forte é o instinto que me faz sobreviver | Eu ainda existo, não me deixa esquecer!”. Surpreendeu-me. Discão!
Ouça: Alívio Cômico/Palanque
quarta-feira, 20 de novembro de 2019
E, ao seu olhar, tudo que é cor muda de tom.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2018
Confesso que ouvi (III de III)
Ouça: Zapatillas
Ouça: Humo
Da Venezuela também vêm os pop-rocks honestões de Rech [Mentiras Cotidianas], La Fleur [debutando com Interestelar] e Vel France [Memorias Al Mar] e a jazzêra heterodoxa do Yilmer Vivas [Colors In My Mind]; pra não dizer que só tem o pop do Aterciopelados [que, aliás, veio com disco novo na qualidade de sempre] na Colômbia [que, de fato, não é um país com tradição de rock], tem o indie viajante do Nicolás Y Los Fumadores; a aparentemente inesgotável cena mexicana merece também a menção do post-dream-psicodélico? garage? pop? do Mint Fields, com Pasar De Las Luces; a Argentina também tem disco novo do indiezinho veterano El Mató A Um Policía Motorizado e o pós-punk divertidinho do El Sur; e, por fim, recomendo o ótimo rap cubano do veterano El Tipo Este [aqui em colaboração com o produtor e multi-instrumentista Al Quetz].
Espero que tenham curtido as dicas dos posts, e que tenhamos todos muito som bacana em 2019 :)
segunda-feira, 17 de dezembro de 2018
Confesso que ouvi (II de III)
NACIONAIS
Consertos em Geral [Manoel Magalhães]
Eu vi a capa e falei “ah não, mais um sub-hermanos, num dou 10s pra eu tirar esse disco e xingar”. Bom, de fato, é um hipster barbudo com terno de brechó e violão de náilon; é carioca, mas tem ecos do som ‘centro expandido sensível’ que infestou também São Paulo, e provavelmente do Oiapoque ao Chuí. Sim, tem aquelas letras que você nunca sabe se são certeiras ou simplórias; sim, tem a voz calma e sensível do Camelo, tem os metais da banda dele, tem a vontade doida de ser o Caetano do Leme. Porra, mas, com tudo isso, o disco é bom, é muito legal, provavelmente o disco nacional que mais curti ouvi neste ano. Não conhecia Manoel Magalhães, não sei de onde ele vem [além do RJ], nem aonde ele vai, porém, ele usa essas influências, e provavelmente tudo que ele ouviu na vida – Erasmo, tropicália, Beatles, pop-rock 80s, Skank, Clube da Esquina... e tudo se encaixa, a voz suave, as canções sem pressa, os dedilhados de violão, as guitarrinhas melódicas, tudo feito com bastante certeza.
Ouça: Fica

Fundação [E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante]
Confesso que já gostei do EATNMPTD mais pelo pela potência do que pelo ato: uma banda paulistana de post-rock, na época [2014?], me fazia relevar, que, fosse no disco, ou fosse ao vivo, era legal, mas nada extraordinário [e o nome da banda me encanta(va) também]; fui vendo shows, vendo shows, saiu disco, saiu EP, mas este disco novo, embora não transmita o poder que a banda tem no palco atualmente [mas tudo bem, pior quando é o contrário, né?, banda boa de disco e decepcionante no show] já mostra claramente segurança e maturidade, apontando pra mais caminhos que a seara Mogwai-Explosions de dedilhadinhos x barulheira: tem uns grooves, tem metais, tem coisas mais pop, tem até um refrão repetido ‘feito mantra’ na última música. Divertido e, sobretudo, promissor.Ouça: Karoshi

OK OK OK [Gilberto Gil]
Gilberto Passos Gil Moreira, do altíssimo de seus setenta e seis anos, não precisa provar nada pra ninguém, inda mais pra mim, né. Tampouco eu precisei fingir interesse por tudo que ele fez desde o Realce [1981], quando passou a flertar com coisas funestas como [mais] reggae [acho um desperdício um violonista com ele passar décadas tocando guitarrinha em arranjos nheco-nheco], tecnopobre e gírias de tiozão pagando de antenado, até o lindão Luminoso, de 2006. Mas, neste lançamento, o nome é bem apropriado: após flertar com doença, velhice, morte, devido a problemas renais, nos últimos tempos, ele vem com um disco irregular, mas bem digno: quando adquire tons mais reflexivos [nunca sombrios ou fatalistas], analisando seus momentos recentes, alcança grandes momentos; nos momentos mais, digamos, ‘bobos’, mantém a dignidade, não compromete. Disco gostoso de ouvir, deixa aquele sorriso bonito igual ao do próprio Gilberto.
Ouça: Ouço

Pentimento [Odradek]
Post/math rock, direto de Piracicaba, com nome advindo de uma criatura de conto kafkiano [Os Cuidados De Um Homem De Família, de 1917], num caminho perdido que não é nem o ensolarado Totorro, nem o resto de pesadelo do Máquinas. Pelo que li por aí, ‘pentimento’ [‘arrependimento’, em italiano], é a alteração de um quadro durante o processo de pintura, o que deixa marcas na obra final, esse processo de mudança de ideia fica visível a olhos de especialistas. E isso tem muito a ver com o universo sonoro que a banda escolheu, onde tudo é sempre inesperado, quebrado, e tudo pode se desmanchar de uma hora pra outra. Não vai mudar sua vida, especialmente se você já é íntimo desse tipo de som, e nem é algo pra ficar ouvindo toda hora – tem que estar no clima ‘ordem na desordem’ [ou o contrário, sei lá] exigido, pois até as letras e os vocais são ~muito pouco usuais~, mas é tudo muito competente. Fiquei bem curioso para vê-los ao vivo.
Ouça: Curta Os Meus Medos E Anseios, Depois Curta Os Seus Em Silêncio

Saudade - O Corte 腹切り [Ventre]
Pena que, finalmente livre do loshermanismo vocal, e ainda mais próximo das dissonâncias do Gram, ou das paredes de guitarra do Violins, por exemplo, além dos climas d’E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante [com quem fizeram ótimos shows anos passado], a banda decida lançar este EP para anunciar um hiato. Sem grandes destaques, porém, não é demérito, longe disso: os climas vão se alternando, com maturidade e coerência, fossem uma só canção. Tem peso, melodia, boas letras, e tudo bem tocado e bem produzido. Que retornem logo, ou ressurjam logo, com projetos tão legais quanto este.
Ouça: Pulmão/Alfinete

Menções honrosas pr’A Era Do Vacilo [Violins], que, se não alcança a excelência difícil de ser superada de Direito de Ser Nada [2013], pelo menos não é decepcionante ou pouco inspirado como as duas últimas incursões musicais de Beto Cupertino [o projeto Tonto e seu disco solo], mantendo o interesse com boas letras, melodias honestas e a voz sempre belíssima do bandleader, e pro lindão, sincerão e comoventão Amor É Isso [Erasmo Carlos], que, com seus setenta e sete anos, segue tendo como único erro na carreira ter dado tanto cartaz pro tal do Roberto lá, e segue criando e produzindo, e seu novo trabalho é digníssimo, gostoso de ouvir e tem participações de Camelo e Emicida que caem muito bem nas respectivas faixas.

Confesso que, não só de rap, ouvi pouca coisa nova nacional [e, disso, não teve muita coisa que me interessou], por motivos de SEI LÁ, então esta segunda parte da seleta musica de dois mil e dezoito vai ficar mais curta que as outras, contamos com a compreensão da audiência, aguardem a terceira e última parte que a secção sudaca estará o puro creme da latinidad.





































