terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

For there are no feelings left: he’s completely dehumanized.



Perplexidade.

Num espaço de tempo bastante curto tivemos a PM oprimindo e batendo em pré-adolescentes da periferia e em jovens de classe média de um bloco carnavalesco; um jovem negro acorrentado a um pelourinho moderno por ser supostamente um ladrão; jovens gays são agredidos e mortos dias sim e dia também; e black blocs estragando a festa de aniversário de São Paulo.

Todos esses exemplos não só de violência e opressão, mas de autoritarismo, de uma postura que inviabiliza o diálogo, que toma para si todas as prerrogativas de ação e razão.

A classe média faz justiça com as próprias mãos ao desconfiar de um moleque com biotipo suspeito, e decide quem pode frequentar o centro de compra dela, e seus filhos violentam pessoas de orientação sexual diversa e tentam agredir quem tem opinião política oposta, com a pouca vontade de investigar da PM, que também escolhe quem pode ou não pode ocupar as ruas, estas que são tomadas por manifestantes que tomam para si o discurso violento, de confronto, como o único possível e válido.

E de repente, as mesmas pessoas que acharam, dignamente, isso tudo um absurdo, absorveram como perfeitamente normal a investida de uma centena de celerados de algumas facções criminosas, mal disfarçadas de torcida organizada, assumindo indevidamente o posto de representante de um contingente de mais de 30 milhões de pessoas.

Esses ‘torcedores’ – sabemos que são sempre os mesmos, que não representam sequer as agremiações que integram, mas têm a conivência destas –, que no fundo pouco se importam com o Sport Club Corinthians Paulista, estando sempre mais interessados nas picuinhas de suas facções, no intervalo de servir de massa de manobra para situação e oposição, alternadamente, resolveram, a mando de quem?, invadir o centro de treinamento do Alvinegro, roubando e agredindo funcionários, e ameaçando jogadores de morte.

É tão difícil assim perceber que é parte do mesmo discurso terra-de-ninguém?, da mesma atitude ‘eu é que estou certo e vai ser do meu jeito de qualquer jeito’?

Somos obrigados a ler e ouvir, por parte de torcedores que aparentemente desligaram o cérebro na hora de pensar futebolisticamente (pois muitos deles conderam todas a violências urbanas supracitadas), que ‘esses jogadores são vagabundos’, ‘alguém tem que fazer alguma coisa’, ‘a gente paga ingresso e tem direito de meter o dedo na cara deles’, ‘eles só invadiram e ameaçaram, se quisessem tinham batido’, ‘esses caras só têm vida mansa e ainda pensam em greve’, entre outras estultices.

Nem vou entrar no mérito do papel (papelão) cotidiano das organizadas, nem do imaginário popular sobre o jogador de futebol, tampouco sobre direitos trabalhistas (que incluem o de greve) ou da ingratidão com um elenco que ganhou oito títulos em cinco anos.

Minha perplexidade, meu espanto, minha desolação, é com a legitimação definitiva da truculência egoísta que invalida o diálogo e o contraditório, que ignora nuances, pormenores e entrelinhas. Todos estão surdos. E gritando, gritando, gritando.

Neste momento, qualquer civilidade está sendo agredida e estuprada porque andou por aí de shortinho.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Ensinou-me que a História não é tudo.

Cem anos, quanto tempo, hein Albert. Passou voando esse século. Parece que foi ontem que te li pela primeira vez. Conheci você, soube de sua existência, por causa dos Engenheiros do Hawaii, sabia? Numa manhã ginasiana de 1992 eu fui pro Centro comprar discos com a mesada em vez de estudar para a prova de inglês (na sétima série) e comprei A Revolta Dos Dândis, de 1987, cuja faixa-título falava sobre se sentir “um estrangeiro”. E o resto do disco ia no mesmo tom desesperançoso existencialista. Até seu melhor inimigo Sartre era citado nominalmente na última canção. Mas só fui ler um livro seu, de fato, no primeiro ano da faculdade (1999), quando peguei O Estrangeiro na biblioteca. Além de finalmente descobrir que minha música preferida do The Cure, Killing An Arab, falava sobre o episódio central de sua obra-prima, fui tomado pelo Absurdo já no primeiro parágrafo, o melhor da literatura mundial (empatado com o começo d’A Metamorfose, de Kafka). Sabia que Gabriel García Márquez confessou que tentou imitar esse início impactante em todos os seus romances? Chacoalhado pela história de Mersault (que descobri se chamar Patrice quando li A Morte Feliz), em seguida li A Peste (que, confesso, achei um pouco cansativo) e todos os outros: O Exílio E O Reino, O Avesso E O Direito (de onde Sartre tirou o título ‘Com A Morte Na Alma’), A Inteligência E O Cadafalso, Núpcias, O Verão, até o incompleto O Primeiro Homem... vi suas peças, e nem de teatro eu gosto. Com O Mito De Sísifo eu vi que podia (fingir) ser e me sentir tanto Mersault quanto o herói grego, e depois também me vi no protagonista d’A Queda, aquele livro que descasca o ser humano feito uma banana, com todas as hipocrisias e vicissitudes a que ele tem direito, e que você escreveu após ser defenestrado da intelectualidade política francesa por causa d’O Homem Revoltado. Sua liberdade de pensamento sempre custou muito caro, né. Desagradou esquerda e direita, e por ambos já foi usado indevidamente. Naquela ocasião, Sartre (é verdade que ele era apaixonado por você?) foi bem escroto com você, né. Inclusive ficou tão doído por você ter ganhado o Nobel de Literatura antes dele, que recusou o prêmio quando foi laureado. Enfim, vamos lembrar o que temos em comum: o futebol, a saúde frágil, a má impressão de São Paulo, o tédio com o folclore, o desgosto com o Cristo Redentor (“lamentável”). Vejo-me até na sua falta de jeito em descrever minimamente cenas de sexo. Bom, por hoje a subida terminou. Amanhã, pedra entre pedra, retornaremos todos a esses mundos imóveis de verdade nenhuma. Aquele abraço e feliz aniversário, meu caro Albert. Que venham outros centenários enquanto o Tempo não resolve descansar.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

D'ya like dags?

Eis que tivemos O Grande Resgate Dos Beagles de 2013. E o modo como A Esquerda De Internet se manifestou quanto a isso foi deprimente, pra dizer o mínimo. Gente que se arvora esclarecida se derramando em preconceito, galhofa infantil e ingenuidade quanto aos rumos da ciência.

Veja bem, nada contra tirar sarro (eu mesmo fiz várias piadas), mas a coisa estava no nível de “é a favor dos animais e come churrasco”, ou de argumentos-emo como “se sua mãe estiver morrendo de câncer você vai querer dar remédio pra ela”, naquele clima de “é tão óbvio que sei tudo sobre o assunto e vocês, burros, estão errados, que vou inviabilizar o debate com minha opinião engraçadona”.

Você pode achar que o método usado foi errado; que não precisavam destruir o laboratório; que esses cachorros à solta, sabe-se lá com que coisas testadas no corpo, sejam perigosos pra saúde de alguém;

Bioética não é um assunto nada simples, e o uso de cobaias (humanas e animais) é discutido desde sempre. Não é ponto pacífico, como a maioria acha. Discute-se tanto pela questão da vida dos bichos (se temos ou não direito de dispor delas para isso) quanto pela própria utilidade de tais testes (ratos obesos, sedentários e pré-diabéticos, com genes selecionados, não seriam ideais para simular o uso nos humanos em geral).

Além disso, há questões como a minimização do sofrimento das cobaias, que espécies de animais usar, se o uso pela indústria farmacêutica é mais nobre que o uso por empresas de cosméticos, etc. Não é assunto que se esgota em um tuite engraçadão.

E os mesmos que gostam de black blocs quebrando bancos e viaturas acham um absurdo que o laboratório tenha sido danificado. Vem daquela ideia ingênua de que todos os cientistas são abnegados que passam o dia pesquisando a cura do câncer e da aids. Justamente numa época em que tanto se questiona o excesso de remédio que tomamos, das doenças que são inventadas na mídia para que sejam vendidas drogas para elas.

E da ideia igualmente tola de que ciência mais ‘hard’ não deva ser questionada por não-cientistas – basta um órgão oficial se manifestar corporativistamente que o assunto deve ser encerrado. É a noção torta de que a medicina/farmacêutica é uma maçonaria que decide hermeticamente os destinos de nós, consumidores. Sim, porque é isso que somos pra essa indústria (pra qualquer indústria, aliás): consumidores. Ou pior, de que ‘Ciência’ é uma entidade homogênea que visa desinteressadamente ao bem-estar da humanidade.

Por isso tudo, ninguém de fora pode se manifestar (nem pacifica, nem mais ‘energicamente’). Devemos esperar pacientemente que as empresas e os laboratórios substituam as cobaias animais por alternativas que já existem, porém são bem mais caras (pra não falar da comodidade de manter os mesmos procedimentos de sempre), ou mesmo procurar alternativas que ainda não existam.

Se hoje usamos animais em vez de pessoas (e olha que estas ainda eram usadas primariamente até bem pouco tempo) é porque houve protestos, é porque houve pressão, é porque alguma parcela da sociedade de mobilizou. E não foi de uma hora pra outra. Ninguém sequer esperou que algum mínimo tempo passasse para que a ação fosse vorazmente condenada: o Tribunal Da Internet não perde tempo. Imediatamente aquelas pesquisas tinham valor inestimável (aliás, até agora não sei o que pesquisavam lá), as investigações que corriam preguiçosamente havia mais de ano foram atrapalhadas, e as articulações dos sempre bem-intencionados cientistas para que haja outros métodos de testar produtos sofrerão retrocesso por causa disso.

Independentemente de a ação ter sido certa ou errada, feita do melhor ou do pior jeito, é ótimo para que esse debate seja posto na mesa às claras. Porque pra grandíssima parte da Esquerda Da Internet, o ativismo pelos direitos dos animais é uma luta menor, vindo atrás até mesmo da legalização da maconha ou do policiamento nas faculdades públicas (pra ficar em dois temas interessantes a grupos bem restritos). A esquerda adora adotar o pacote comportamental do manifestante, que inclui todos apoiarem sempre as mesmas causas, mas os animais ficam de fora dessa.

Sim, porque somos nós aqui na internet que decidimos qual luta é valida e qual não é. Normalmente o meu é ativismo, o deles é vandalismo. As mesmas pessoas que disseram que só a comunidade científica pode opinar sobre isso fazem chacota e dizem bobagens sobre o ativismo pelos animais, que eles desconhecem.

Se hoje não se pode prescindir desses testes, até porque é o protocolo mundial para a liberação desses medicamentos no mercado, é justamente a pressão dos ativistas e da sociedade que pode mudar isso. Não pense que as empresas vão adotar métodos mais dispendiosos (que não usem animais) por vontade própria.

E ainda que coelhos também tenham sido salvos, e parece que tentaram levar ratos, mas a polícia teria chegado e impedido, é meio óbvio que o ser humano tem mais empatia com cachorro, gato e outros animais que cultuamos há mais de mil anos, que interagem cotidianamente conosco, do que com insetos e roedores, por exemplo. Isso é algo tão óbvio que as pessoas deviam ter vergonha de questionar como se fosse um grande ‘apanhei-te cavaquinho’.

Ah, e em resposta ao senso comum de que estamos 100% seguros com esses testes em animais (e até com os testes posteriores em humanos), a talidomida (só pra ficar num exemplo) manda lembranças.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

The loneliness of the long-distance runner

Hoje é o aniversário de 70 anos de Werner Herzog Stipetić (ele aparentemente não curte este sobrenome). E aproveito esta data comemorativa para explicar o porquê do meu novo blog Maratona Werner Herzog.

Normalmente digo que meu diretor favorito é Martin Charles Scorsese (este já não curte o segundo nome), até por que ele fez meu filme preferido de todos os tempos (e que pra mim é a maior obra cinematográfica da História), Taxi Driver.

Porém, ele assumidamente faz filmes mais comerciais e/ou por encomenda sempre que precisa de dinheiro para financiar projetos pessoais – Marty vai sempre pagando um filme com outro –, de modo que tem filmes que saem menos pessoais que outros. Talvez um dia eu faça uma ‘Maratona Scorsese’, quem sabe, mas não por ora.

Herzog é uma boa pedida, primeiramente, porque, mesmo mantendo uma assinatura pessoal muito forte (até porque ele sempre escreve, dirige e produz tudo), são sempre experiências díspares: já filmou nos cinco continentes (único diretor a fazer isso) com anões, surdo-cegos, aborígenes, atores hipnotizados, atores amadores, atores com deficiência mental; já filmou febrilmente no deserto, já fez filme com câmera roubada, já quase abateu a tiros seu ator principal, já destruiu parte da Amazônia (onde também já filmou sob a mira de índios hostis) para atravessar um outeiro com um barco a vapor, já comeu o próprio sapato... enfim, tem diversão & depressão para todos os gostos. Ver e rever seus filmes é sempre uma experiência impactante.

Além disso, pouquíssima coisa de Herzog está disponível no Brasil: de 55 filmes, apenas seis estão disponíveis em DVD [dois deles porque têm atores hollywoodianos como Christian Bale e (eca!) Nicholas Cage)], e menos de 10 até hoje foram lançados em VHS ou em, circuito comercial de cinema. O que resta, além de eventuais retrospectivas em centros culturais e cineclubes, é a exibição, com atraso de dois a três anos, em mostras de cinema, de filmes que já tenham rodado o mundo e ganhado um monte de prêmios (foi assim com Grizzly Man, The Wild Blue Yonder, Encounters At The End Of The World e Cave Of Forgotten Dreams.

Então, além de a maratona ganhar contornos de garimpagem épica por torrents, blogs de download e sites com streaming (incluindo ver filmes só com áudio em inglês, com legendas em espanhol, etc.), tenho a intenção de servir de mais uma referência para fãs de Werner Herzog, já que tanto em português quanto em inglês há pouquíssima coisa sobre ele na internet, e a literatura impressa também não impressiona: no Brasil, apenas os autobiográficos Caminhando No Gelo e A Conquista Do Inútil (este ainda não li); Werner Herzog: O Cinema Como Realidade, de Lúcia Nagib, está esgotado há anos. Em português de Lisboa, temos o ótimo Caminhando No Gelo, da italiana Grazia Paganelli, mas é importado, sai quase uma centena de reais. E quem lê em inglês pode importar (ou procurar PDF, tem por aí) de Herzog On Herzog, de Paul Cronin.

Diretores mais pop têm muito mais material disponível na internet, mas a literatura impressa sobre cinema é um problema seriíssimo no Brasil, tanto quanto muitos clássicos não terem versão em DVD até hoje, ou estarem fora de catálogo (como Serpico, de Sidney Lumet, por exemplo). Essa ausência de cultura cinematográfica é sem dúvida algo que faz do Brasil, como costumo dizer (mais ou menos) hiperbolicamente, produtor do pior cinema do mundo (pior das Américas, com certeza) - mas isso é assunto pra outra postagem.

A ideia é fazer um meio-termo entre meras impressões pessoais e maiores contextualizações; não sou especialista em coisa alguma, mas também não quero fazer tão-somente crítica de Facebook. Quando possível, vou buscar referências no pouco de bibliografia que tenho. Sem pressa (afinal são mais de cinquenta filmes, nem sei se conseguirei encontrar todos, e ele costuma lançar mais de um filme por ano), porém mantendo um ritmo legal de atualizações.

Enfim, tanto eu quanto quem vai me acompanhar tentando ver os filmes, vai sair da maratona uma pessoa diferente; sei lá se melhor ou pior, mas ninguém sai ileso do obsessivo e insano universo de Werner Herzog.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Ainda não inventaram dinheiro que eu não pudesse ganhar

Hoje faz uma semana, uma eternidade nestes tempos, que o Fora do Eixo (FdE), a tiracolo da Mídia Ninja, foi apresentada ao grande público (ou pelo menos um público além do underground musical), e desde então muito tem se falado, por parte dos críticos, e pouco efetivamente respondido, por parte dos acusados.

Temos impressionantes relatos de assédio moral, como este da ex-FdE Laís Bellini, de calote, da cineasta Beatriz Signer, além de pessoas ligadas à cena musical como o Márvio dos Anjos e o André Barcinski. Temos até trabalhos acadêmicos confirmando muitas das práticas denunciadas pelos “desertores” do esquema. Sem falar no #FdELeaks, espaço para denúncias anônimas (porém todas com provas documentais) e muitos outros questionamentos ao falso-novo que o FdE representa.
 
Mas além de todos esses problemas (sendo o mais grave a falta de transparência com verbas públicas), vou abordar uma questão que ninguém tratou até agora: o impacto disso tudo na cena underground, para as bandas que não participam do FdE.

Até agora essa parte do assunto sempre ficou nas bandas que se sujeitam a não ganhar nada, a ter prejuízo (porque não é só tocar de graça, é arcar com viagem hospedagem e alimentação, pois quando há ajuda de custo, ela é insuficiente – tem mais detalhes sobre isso no post do Márvio).

No Roda Viva, Capilé disse que, graças a esse esquema de “toca de graça no festival faz contatos e depois volta à região fazendo shows pagos” há 30 mil bandas vivendo de suas músicas no Brasil.

Primeiro: não deve haver NO MUNDO 30 mil bandas autorais de rock que vivam exclusivamente de tocar. No Brasil, creio que nem 30. Dizem que o FdE sempre infla os números já megalômanos, mas vamos admitir que essa quantidade de bandas seja a que circula nos festivais (até porque como eles saberiam quais bandas conseguiram se dar bem depois e quais não?).

Então temos 30 mil bandas circulando pelo país, despejadas no underground, um mercado musical muito árido e competitivo, com a mentalidade de que banda desconhecida tem que tocar de graça mesmo.

Isso traz o mesmo efeito do que o excesso de faculdades e de “sobrinhos” no mercado de trabalho: os salários (cachês, no caso) despencam, pois sempre haverá quem aceite tocar de graça, em condições precárias, e ainda ajudando a divulgar e gastando em cerveja no local do show.

Sem falar que, pra isso, as bandas nem precisam do FdE: se você ligar pra qualquer balada/bar/casa de shows de outro estado, se oferecendo pra tocar de graça, em qualquer dia e horário, se comprometendo ainda a ajudar na organização, no som e ainda a consumir no próprio local, você vai conseguir shows, mesmo que sua banda seja ruim. Não precisa viajar por conta própria pra outros estados pra tocar 20min nos festivais balaio-de-gato do FdE (como se fosse fácil se destacar tocando tão pouco no meio de outras dezenas de bandas). Esse esquema, aliás, é tão bom que o próprio Capilé não consegue mencionar cinco bandas que estiveram nesse esquema e hoje fazem sucesso (quando perguntado sobre isso no Roda Viva, falou sobre as tais "30 mil bandas").

Quem tem/teve banda nos últimos cinco anos já sabia de tudo isso. Agora esperamos que esse destaque maior pras histórias deem resultado e o FdE torne-se menos nocivo à nossa já tão combalida cena.


[PS: Se uma entidade, com mais de 50 CNPJs e uma equipe de oompa-loompas dedicados a cavoucar, de graça, 24h por dia, todos os editais possíveis, e apresentando as credenciais de uma estrutura também mantida sem remuneração de profissionais, como uma banda, um produtor de eventos ou mesmo outra cooperativa, em que os membros precisem trabalhar fora, pode competir? Quem já participou de um edital (do MinC ou das Secretarias de Cultura) sabe da imensa burocracia e das exigências aleatórias que tomam muito tempo e deixam qualquer um maluco. Se essa prática do FdE não é ilegal, ao menos o governo devia tomar medidas para que não haja essa monopolização dos recursos.]

segunda-feira, 17 de junho de 2013

E a determinação de manter tudo em seu lugar




“If you believe that you know in this time
You've got anything to win
If you believe that you know
Then I say ‘You'll lose all again.’"

(…)

“We are credulous idiots
And won't understand what they plan
We march with the times
It's what they expect and we do.”

(Helloween, We Got The Right)

Primeiramente sou contra a origem do protesto: essa história de passe livre é uma demagogia tola, o movimento todo foi oportunista (Haddad ficou falando desde a campanha sobre a história do aumento, sobre ele ser necessário e que ele faria de tudo para que fosse abaixo da inflação) e ninguém fez protesto antes de a tarifa subir, tampouco quiseram negociar com o prefeito ou ao menos propor algo razoável. Sem falar que Alckmin, com seus trens sucateados e metrôs construídos a passo de tartaruga manca, foi basicamente poupado pelas manifestações até que sua PM baixasse o sarrafo na galera. Além disso, não acho que nosso problema seja o preço da passagem: desde que a Marta passou pela Prefeitura (2001–2004), e infelizmente nada significativo tenha sido feito nesse sentido após sua saída, os ônibus são quase todos novos, temos mais terminais, corredores de ônibus e bilhete-único, além de haver bastante condução na maioria das linhas, que já justificariam o preço só pelas distâncias percorridas. Nosso problema é a (falta de) mobilidade urbana: não adianta colocar mais ônibus, pois só vai ter mais coletivos parados no trânsito. O transporte público é sofrido principalmente porque ficamos tempo demais dentro dele, tanto pelo engarrafamento pelo fato de trabalharmos longe demais de casa. É algo que sequer tem solução (apenas paliativos, como os corredores de ônibus) até no mínimo o tal Arco do Futuro do Haddad ser realizado.

Só que o que houve quinta-feira transcendeu os próprios motivos do protesto. Não faz mais diferença quem tá organizando. Se vai ter Psol, PSTU, PCO, anarcopunk, zé-coxinha achando que a culpa é do Dirceu, não estou nem aí. Hoje não importa o motivo, e sim que todos estejam na rua, ocupando o lugar onde vivem.

O tal do Passe Livre, pra mim, virou São Paulo Livre. A frouxidão da coisa, mais a repressão desumana da PM, se por um lado favorecem oportunistas de Direita que pretendem se apropriar da massa descontente, serviram ao menos para que a cidade de unisse em um novo objetivo: protestar pelo direito de protestar, pela ojeriza à autoridade militar que oprime quem deveria deixar seguro.

O que todo mundo viu quinta-feira, no lombo da classe média, foi só um trial version do que o preto pobre da periferia sofre cotidianamente. O tempo todo São Paulo cola um imenso NÃO em nossa testa. São Paulo é a cidade do NÃO. E todo mundo parece cansado disso. A cidade não é de Geraldo & seus PMs.

São Paulo é nossa e precisamos tomá-la de volta urgentemente.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Estar sendo. Ter sido.

A nostalgia da modernidade chegou definitivamente ao futebol.

Faz parte do Ser revisitar momentos do passado, às vezes aleatórios e quase sempre desimportantes em suas épocas, em narrativas heroicas e cheias de nostalgia. O passado é sempre idealizado, somos incorrigivelmente complacentes como nossos erros e as vicissitudes do que se foi. Até dos relacionamentos fracassados carregamos ao presente muito mais as coisas boas que as ruins.

Nossa infância era melhor porque brincávamos de chinelo de dedo na rua em vez de ficarmos na internet. Os namoros eram melhores porque eram mais inocentes. As propagandas tinham aquele romantismo meio tosco (aquela tosqueira meio romântica). Ninguém percebe que qualquer memória dessas é boa não em-si, mas por remeter à infância. Passar três dias pra conseguir baixar uma mp3 era uma droga, você se lembra disso com carinho tanto porque provavelmente era jovem à época, por ter sido um período de descoberta da informática para maioria das pessoas no país.

Cada edição do Oscar sempre parece pior e com mais injustiças na premiação – até porque é difícil um filme ser considerado clássico sem o teste do tempo –, no YouTube, qualquer música do meio dos 1990s pra cá é automaticamente “melhor do que essas porcarias de Restart e funk” mesmo que o vídeo em questão seja do Tonho Matéria ou de Luan & Vanessa, e bandas que eram terceira divisão em suas épocas, como Soul Asylum e, sei lá, Lagoa 66, ganham status de cult.

Gente que sequer procura saber de história da literatura desde que saiu do Ensino Médio (Colegial, em nosso tempo) reclama de que “não tem nenhum escritor novo que presta”.

Já no futebol, de uns dois anos para cá – não por acaso quando o Corinthians passou de primo pobre para primo rico do futebol brasileiro – criou-se um “inconsistente coletivo”, alimentado pela modernização dos estádios (agora “arenas”) e a chegada da Copa, de que o futebol brasileiro era bom mesmo até 1995.

Isso significa que as pessoas têm saudade de estádios caindo aos pedaços, filas enormes para comprar ingresso, craques indo embora às dezenas, viradas de mesa, regulamentos esdrúxulos (por vezes incompreensíveis), pouquíssimas transmissões pela TV e, sobretudo violência, muita violência, dentro do estádio e nos seus arredores, sem falar em como as mulheres eram hostilizadas na arquibancada.

Na memória delas estão apenas os primeiros títulos de seu clube, ou a época de fila que confirmou sua paixão, o tempo em que seu pai o levava ao estádio e pagava um sanduíche de pernil no final.

Claro que havia coisas melhores na época: bandeiras liberadas, ingressos e demais produtos do time (se bem que só havia o fardamento mesmo à venda) mais baratos, estaduais fortalecidos, seleção (com muitos jogadores atuando aqui) mobilizando as pessoas... mas toda época é assim, tem coisas piores e melhores.

O resto é o glacê de sentimentalismo que colocamos no que já foi para que possamos revisitá-lo com bom gosto naqueles momentos em que tudo parece ruim e envelhecido, e dá saudade de quando as coisas eram mais novas e coloridas.
                                                            

                                                                    * * *

[Sartre, n’A Náusea (1938), coloca nas palavras do protagonista Antoine Roquentin uma genial reflexão sobre a passagem do tempo que explica isso obviamente muito melhor do que eu.]

“Eis o que pensei: para que o mais banal dos acontecimentos se torne uma aventura, é preciso e basta que nos ponhamos a narrá-lo. É isso que ilude as pessoas: um homem é sempre um narrador de histórias, vive rodeado por suas histórias e pelas histórias dos outros, vê tudo o que lhe acontece através delas; e procura viver a sua vida como se a narrasse.

Quando se vive, nada acontece. Os cenários mudam, as pessoas entram e saem, eis tudo. Nunca há começos. Os dias se sucedem aos dias, sem rima nem razão: é uma soma monótona e interminável. De vez em quando se procede a um total parcial, dizendo: faz três anos que viajo, três anos que estou em Bouville. Também não há fim, nunca deixamos uma mulher, um amigo, uma cidade de uma só vez. E também tudo se parece: Xangai, Moscou, Argel, ao fim de 15 dias é tudo igual. Por alguns momentos – raramente – avaliamos a situação, percebemos que nos envolvemos com uma mulher, que nos metemos numa confusão. Por um átimo.

Depois disso o desfile recomeça, voltamos a fazer as contas das horas e dos dias. Segunda, terça, quarta. Abril, maio, junho. 1924, 1925, 1926.

Viver é isso. Mas quando se narra a vida, tudo muda; simplesmente é uma mudança que ninguém nota: a prova é que se fala de histórias verdadeiras. Como se fosse possível haver histórias verdadeiras; os acontecimentos ocorrem em um sentido e nós os narramos em sentido inverso. Parecemos começar do início: ‘Era uma bela noite de outono em 1922. Eu era escrevente de tabelião em Marommes.’ E na verdade foi pelo fim que começamos. Ele está ali, invisível e presente, é ele que confere a essas poucas palavras a pompa e o valor de um começo.

‘Estava passeando, saíra do vilarejo sem perceber, pensava em meus problemas de dinheiro.’ Essas frases, tomadas pelo que simplesmente são, significam que o sujeito estava absorto, deprimido, a cem léguas de uma aventura, exatamente nesse tipo de estado de espírito em que se deixam passar os acontecimentos sem vê-los. Mas o fim, que transforma tudo, já está presente. Para nós o sujeito já é o herói da história. Sua depressão, seus problemas de dinheiro são bem mais preciosos do que os nossos: doura-os a luz das paixões futuras.

E o relato prossegue às avessas: os instantes deixaram de se empilhar uns sobre os outros ao acaso, foram abocanhados pelo fim da história que os atrai, e cada um deles atrai por sua vez o instante que o precede: ‘Era noite, a rua estava deserta.’ As frases são lançadas negligentemente, parecem supérfluas; mas não caímos no logro e a deixamos de lado: é uma informação cujo valor compreenderemos depois. E temos a impressão de que o herói viveu todos os detalhes dessa noite como anunciações, como promessas, ou até mesmo de que vivia somente aqueles que eram promessas, cego e surdo para tudo que não anunciava a aventura. Esquecemos que o futuro ainda não estava ali; o sujeito passeava numa noite sem presságios, que lhe proporcionava de cambulhada suas riquezas monótonas, e ele não escolhia.

Quis que os momentos de minha vida tivessem uma sequência e uma ordem como os de uma vida que recordamos. O mesmo, ou quase, que tentar capturar o tempo.”