Faz calor, o vento quente e seco só faz trazer poeira para grudar com o suor junto às roupas. E as lentes dos óculos não ficam limpas de jeito nenhum. Ou serão meus olhos? Não, são as lentes, eu sei. São as lentes. Passo na camisa, no lenço, no lençol. Lavo na torneira, na pia, passo limpa-vidro, sabão, cuspe, esfrego nas toalhas e rosto e banho. E nada de aquelas manchas saírem. Aquele embaçado de baforada quente no vidro gelado. Colo contra a luz: parecem limpas agora. Olho novamente: parecem riscadas. Outra vez: estão sujas. Sempre estiveram. Ruim de enxergar com, ruim de enxergar sem. Mas já comprei, paguei, gastei bem. Que mal faz tentar limpar uma vez mais?, só mais uma. A armação já está ficando torta de tanto que eu coloco, tiro, guardo, pego de novo, lavo, lavo de novo, seco e esfrego. E arrumo, mexo ele na cara, entorto pra dentro, remexo de novo pra fora. Deve ser algum problema com a água, está cheia desses cloros, flúores, um monte de ferro de cano, plástico de junta, resto de vedação mal feita. Esses produtos de limpeza, sabão, sabonete líquido, os amaciantes dos panos, deve ser isso que está impedindo os vidros de ficarem cristalinos. Não devia ter passado saliva daquela vez, nem tinha escovado os dentes. Ou será coisa da pasta de dente que estragou a lente? Preciso tomar cuidado depois de lavar, deve ser minha pele oleosa, vai secar, aí encosta, suja, não sai mais direito. Será meu hálito?, serão meu hábitos?, ou, em vez de sabonete ou sabão, será só impressão? Passam horas, dias, semanas. Já faz séculos que estou vendo tudo através dessa sujeira, dessa névoa que não me deixa enxergar direito. Essas manchas, elas sim, parecem grandes olhos turvos me encarando de muito perto. Serão minhas lágrimas? Serão minhas mãos? Mas elas nunca me banham os olhos, e estou sempre a lavá-las. Já nem sei o que enxergo e o que são rabiscos e borrões. Quando é que o mundo ficou assim? Já nem existe humanidade, nem sequer prédios em pé. Não há mais planta, nem bicho, nem gente. Mil anos se passaram e eu ainda estou aqui. Só eu e essa droga de armação, que já está toda torta de tanto ser chacoalhada e esfregada, e essas malditas lentes, sujas, imundas, impuras. Os óculos se partem: um pouco de armação retorcida pra um lado, o que sobra, inútil, em minhas mãos. Olho as lentes. Estão lá, me encarando. Deito tudo ao lixo. Desmancha-se tudo como o vidro desfeito retornasse a ser areia. Volto o olhar: as manchas continuam lá. Sigo sem enxergar.
quinta-feira, 6 de abril de 2017
quinta-feira, 15 de dezembro de 2016
Com minha música (II de II)
Depois da lista internacional, vamos à seleta nacional, à moda da casa, dos melhores de 2016.
Aterro (It Girl)
Às vezes faz muito bem ouvir um disco como este: não é pretensioso, não é pastiche, não é ordinário. Estes cearenses vêm com um disco redondinho, cheio de rockinhos honestos, que ora lembram Rumbora, ora Acabou La Tequila, ou mesmo Nervoso E Seus Calmantes (punkinho, indiezinho, skazinho, jovem-guardinha), tudo com embalagem indie rock esperta. A voz do cara lembra a do Rodolfo dos Raimundos (não é um elogio), mas é tudo muito divertido mesmo assim.
Ouça: Primeira Fileira
Bilhão (Bilhão)
Dá pra misturar indie strokiano, pop bucólico (ou dream pop, como queiram) e folk/mpb sem ficar bunda-mole, olha só: este disquinho tem tudo isso e não soa como pastiche camelo-amarantístico, nem prece encalhado em 2004. Entre rockinhos e baladinhas, o pequeno álbum flui suave, natural, lembrando um Real State no domingo à tarde, preguiçoso no melhor sentido, sem ânsia.
Ouça: Horizontalidade
Aterro (It Girl)
Às vezes faz muito bem ouvir um disco como este: não é pretensioso, não é pastiche, não é ordinário. Estes cearenses vêm com um disco redondinho, cheio de rockinhos honestos, que ora lembram Rumbora, ora Acabou La Tequila, ou mesmo Nervoso E Seus Calmantes (punkinho, indiezinho, skazinho, jovem-guardinha), tudo com embalagem indie rock esperta. A voz do cara lembra a do Rodolfo dos Raimundos (não é um elogio), mas é tudo muito divertido mesmo assim.
Ouça: Primeira Fileira
Bilhão (Bilhão)
Dá pra misturar indie strokiano, pop bucólico (ou dream pop, como queiram) e folk/mpb sem ficar bunda-mole, olha só: este disquinho tem tudo isso e não soa como pastiche camelo-amarantístico, nem prece encalhado em 2004. Entre rockinhos e baladinhas, o pequeno álbum flui suave, natural, lembrando um Real State no domingo à tarde, preguiçoso no melhor sentido, sem ânsia.
Ouça: Horizontalidade
Cat Days (Phillip Long)
Você pode falar que ele é só um Elliott Smith de Araras (SP), mas este moço prolífico (décimo disco em cinco anos), em seu álbum assumidamente mais gringo nos arranjos e nas timbragens, tudo universal, traz baladas folk rock delicadas, com ecos de Wilco e Radiohead, conceituais sobre “os dias que antecedem o fim de uma relação”. É uma bela trilha sonora pra ficar contemplando pela janela uma tarde chuvosa de sábado.
Ouça: Close To Disappear
Você pode falar que ele é só um Elliott Smith de Araras (SP), mas este moço prolífico (décimo disco em cinco anos), em seu álbum assumidamente mais gringo nos arranjos e nas timbragens, tudo universal, traz baladas folk rock delicadas, com ecos de Wilco e Radiohead, conceituais sobre “os dias que antecedem o fim de uma relação”. É uma bela trilha sonora pra ficar contemplando pela janela uma tarde chuvosa de sábado.
Ouça: Close To Disappear
Gehenna (Labirinto)
“Donos incontestáveis do melhor show brasileiro da atualidade”, como eu mesmo havia dito em 2014, o Labirinto consolida em estúdio (sob produção de Billy Anderson) o que já se desenhava nos shows, com o post-rock meio psicodélico tornando-se definitivamente um monolítico e climático post-doom. As tensões entre calmaria e tempestade continuam presente, porém, de forma mais concisa, desaguando em uma ótima trilha para os tempos sombrios em que vivemos.
Ouça: Enoch
Essa Noite Bateu Com Um Sonho (Terno Rei)
É bom ver mais bandas olhando novamente pros 60s, 70s, 80s, depois de tantos anos do cenário competindo pra quem refazia mais igualzinho o 4 do Los Hermanos. O segundo disco deste quinteto paulistano vem com pós-punk e psicodelia de leve, como um Violeta de Outono mais ‘relaxado’.
Ouça: Sinais
É bom ver mais bandas olhando novamente pros 60s, 70s, 80s, depois de tantos anos do cenário competindo pra quem refazia mais igualzinho o 4 do Los Hermanos. O segundo disco deste quinteto paulistano vem com pós-punk e psicodelia de leve, como um Violeta de Outono mais ‘relaxado’.
Ouça: Sinais
Lado Turvo, Lugares Inquietos (Máquinas)
Não é um disco fácil. Não é exatamente agradável. O primeiro disco deste quarteto cearense não tem a paz e o remanso habituais do post-rock (aqui, com climas sombrios de Ulver): a contemplação aqui é no máximo de um desespero que surge a cada faixa. Tensão, angústia... acho que ‘turvo’, como diz o próprio nome do álbum, define a experiência.
Ouça: Zolpidem
MM3 (Metá Metá)
O disco anterior, MetaL MetaL, já era bom, mas, desta vez, o trio paulista não só justificou como até superou o hype: este disco é denso, tenso, pesado (em forma e conteúdo), com instrumental monolítico, em que o rock cimenta a mistura de jazz e afro, e o vocal mais do que excelente de Juçara. Pedrada.
Ouça: Três Amigos
O disco anterior, MetaL MetaL, já era bom, mas, desta vez, o trio paulista não só justificou como até superou o hype: este disco é denso, tenso, pesado (em forma e conteúdo), com instrumental monolítico, em que o rock cimenta a mistura de jazz e afro, e o vocal mais do que excelente de Juçara. Pedrada.
Ouça: Três Amigos
Old Friends (Ritchie & Black Tie)
Sou suspeito pra falar de Paul Simon, é um de meus ídolos. Mas Ritchie fez um trabalho soberbo neste tributo com os violões, violinos e violoncelos do Black Tie (+ Tuco Marcondes), que valorizam muito as canções de Paul Simon – o cerne do projeto – em clima de gravação ao vivo, sem penduricalhos de produção. Sim, dá pra ser reverente e necessário ao mesmo tempo.
Ouça: The Boy In The Bubble
Sabotage (Sabotage)
Não dá pra saber o que Sabota estaria fazendo hoje, visto que ele só teve tempo de lançar um disco antes de morrer, e há quase 15 anos. Mas este tributo é sobretudo muito digno e classudo, uma impressionante colagem das vozes inéditas gravadas pelo rapper, entremeadas com os bons arranjos de Ganjaman e uma miríade de convidados, de B-Negão e RZO (todos participando de forma voluntária cedendo os direitos aos filhos de Sabotage). Dificilmente o homenageado acharia ruim o resultado final.
Ouça: Canão Foi Tão Bom
Sobre Os Prédios Que Derrubei Tentando Salvar O Dia – Parte 1 (DEF)
O trio carioca, em seu primeiro EPzinho, tem à frente a voz agridoce de Deb F, que pode cantar suavemente sob uma base de popzinhos e rockinhos, até que, do nada, tudo desmorona em distorções e dissonâncias guitarreias numa demência à garage rock. Muitas surpresas em tão poucos minutos, deixando boa expectativa para os EPs seguintes, que completarão uma trilogia.
Ouça: Dissolvendo
De bônus temos as melhores bandas atuais do post-rock brasileiro, em EPs, que, se não trazem novos elementos à suas carreiras, fazem jus à qualidade que ambas vêm mostrando nos shows que têm feito: o pernambucano Kalouv (Planar Sobre O Invisível) e o paulistano E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante (Medo De Morrer | Medo De Tentar), ambos aparentemente surgindo como pontos de inflexão, de tomada de fôlego, talvez de mais melodias do que climas, deixando no ar a curiosidade sobre como vão soar seus próximos trabalhos.

Vale a pena conferir também: o melhor e mais redondo disco do De Falla em 25 anos (Monstro); o pop rock lo-fi melancólico de Fernando Motta (Andando Sem Olhar Pra Frente); Ombu, com o disco Pedro, um rock intrincado e sinuoso ao qual preciso dedicar mais atenção; e Ao Vivo No Cine Theatro Brasil (Lô Borges + Samuel Rosa), ótimo pra colocar o trabalho dos dois artistas em pé de igualdade, na mesma linha evolutiva da música brasileira e antenado com o que rolou e rola no mundo.
O epônimo do Macaco Bong me decepcionou um pouco: tem bons momentos, mas me pareceu pouco inspirado, no geral. Boogie Naipe (Mano Brown), então, nem se fala: tanta expectativa pra um disco com 22 faixas que não passam de chill out de balada black. O disco d’O Terno (Melhor Do Que Parece) também não me cativou, achei que o rock honesto e maduro de outrora está numa encruzilhada, meio sem rumo.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
Com minha música (I de II)
Vai terminando mais um ano, e eis a primeira parte da minha retrospectiva musical, o que ouvi de mais legal das coisas lançadas em 2016, começando com os discos internacionais.
Arktis (Ihsahn)
Ihsahn, nascido Vegard Sverre Tveitan, é um gênio. Não contente em, recém-saído da adolescência, revolucionar a música extrema, levando-a a outro patamar de sofisticação com o Emperor (e ainda vender milhões de discos), ele mantém uma carreira-solo incrivelmente consistente e inventiva, e este Arktis não é exceção: tem black metal ríspido, tem prog metal psicodélico com vocais celestiais à Enslaved, tem industrial, tem jazz, tem coisa pop, tem coisa dançante, mas nada óbvio, nada previsível. As músicas sempre vão aonde você menos imagina, e, mesmo assim, parece natural, inevitável. Disco do ano e música do ano, sem sombra de dúvida.
Ouça: South Winds
Come To Mexico (Totorro)
“Um Weezer instrumental tocado bem mais rápido”. Foi como descrevi o recém-descoberto Home Alone, debute desses moçoilos norte-americanos do math rock. A descrição, acho, ainda vale, na falta de coisa melhor pra adjetivar esse som ao mesmo tempo quebrado, ensolarado e ultramelódico. Coloque o disquinho na vitrola, abra uma cerveja draft e sinta-se no verão de um parque – um parque complexo, mas ainda um parque, e bem divertido.
Ouça: Saveur Cheveux
Guidance (Russian Circles)
Grandioso, monumental. Imagine um Explosions In The Sky mais contemplativo que emocionante. A música vem numa lenta e longa caminhada, do horizonte pra cá, solene, mas não feito marcha, é um passeio altivo mesmo. Lento e confiante. E então tudo se torna uma marcha inexorável, tensa, pesada. Pois o post-metal desses norte-americanos é sempre surpreendente. Uma definição possível seria “um Pelican mais paciente”.
Ouça: Afrika
La Niebla Y La Autopista (Julio Y Agosto)
Este hepteto argentino, em pouco mais de dez anos, com quatro discos e um EP, e shows em vários países latinos e na Europa, traz uma típica ‘comfort music’ com seu folk criollo – pop, melancolia e latinidade. Malcomparando, é um Belle & Sebastian sem deficiência aguda de vitaminas.
Ouça: Elena
Mariner (Cult Of Luna & Julie Christmas)
Este não tem muito erro pra quem curte post-sludge-metal: Cult Of Luna com a Julie, que já participou dos clássicos Battle Of Mice e Made Out Of Babies. Já se sabe o que esperar aqui: muito peso, muito clima, músicas se desenvolvendo sem pressa, ora explodindo em distorções, ora flutuando em dedilhados e percussões discretas. E o vocal de Julie Christmas serpenteia em meio a tudo isso com desenvoltura e malícia. Poderoso.
Ouça: Cygnus
Mayhem In Blue (Hail Spirit Noir)
Direto da Tessalônica, Grécia, vem este jovem power-trio (desde 2010) que já conta com três full lenghths, incluindo este Mayhem In Blue. Está no meio do caminho entre o debute do Kvelertak e os discos mais recentes do Nachtmystium, com ecos do finado Lifelover: ou seja, um black rock-metal doentio, cheio de tensão, psicodelia e sem nenhum compromisso com rótulos.
Ouça: The Cannibal Tribe Came From The Sea
Safehaven (Tides From Nebula)
Estes poloneses de Varsóvia vêm com o terceiro álbum ‘cheio’ em 8 anos, mantendo sempre a consistência: uma dinâmica mais, digamos, dinâmica que o habitual do post-rock/metal, passagens com peso à Pelican, eletrônica de leve (como o atual Explosions In The Sky) e trechos muito interessantes que remetem às paisagens sonoras de Brian eno com U2 na fase The Unforgettable Fire. Deve agradar até quem não tem muita paciência com o estilo.
Ouça: Traversing
Señoras (Los Valentina)
Este quarteto chileno recém-nascido (de 2015) já surge com seu primeiro trabalho, um EPzinho de 6 faixas em 23 minutos, de surpreendente segurança. Um pop rock meio final dos 80s, meio começo dos 90s, mas sem os timbres datados dessa[s] época[s] (mas espere eventuais teclados jovem guarda); pop de guitarras limpas, bonitinho e melancólico, na tradição que vai de Byrds a REM (e outros tantos), enquanto a bela voz de Valentina canta sobre cotidiano e nostalgia.
Ouça: Serpientes
Stranger To Stranger (Paul Simon)
Paul Frederic Simon é um prodígio: após levar o folk rock um passo adiante, com letras e harmonias mais sofisticadas nos 1960s, tem uma longa e sólida carreira-solo em que, inventando a world music décadas antes de o rótulo existiu, já misturou tudo que é cultura existente e existida do mundo. Hoje, do alto de seu 1,60m e de seus 75 anos, segue desafiando, instigando, experimentando. Sem nunca se deitar nas melodias confortáveis da parceria prolífica e turbulenta com Art Garfunkel.
Ouça: Wristband
Luz Satelital (Tobogán Andaluz)
Ora indiezinho, ora powerpop, mas tudo com certa leveza, dir-se-ia vagar típico oitentista; não vai mudar a vida de ninguém, mas é muito agradável ouvir este disquinho da atual banda do prolífico Facu Tobogán – não tão lo-fi e nada experimental como seus trabalhos-solo. A voz dele talvez seja o ponto fraco do álbum, um tanto desleixada demais, porém, vale a pena mesmo assim curtir esse rockinho porteño honestíssimo.
Ouça: Partido En Dos
De bônus tem: epônimo dos horrendos alemães do Bethlehem, que, após alguns anos perdidos em um arremedo de Rammstein com rock gótico, retornaram ao que sabem fazer melhor, um dark metal grotesco, grosseiro e desolador (ainda que sem a inspiração da fase áurea); e o tiozão do soul Charles Bradley, que, qual Cartola, só apareceu na mídia após só 60 anos (em 2013, com um single-cover de Changes, do Sabbath, relançado neste segundo álbum), e surge na lista como exemplo de álbum muito tocante e honesto, ainda que sem pretensões de inovação.


Também curti os rocks moderninhos e melódicos dos chilenos Medio Hermano (Lucha Libre) e Ases Falsos (El Hombre Puede), o incansável black metal norte-americano do Cobalt (Slow Forever) – ainda que inferior ao anterior e já clássico Gin, de 2009 e o blackgaze belga Rheia, do Oathbreaker, uma trombada entre Julie Christmas e Deafheaven; e esperava mais dos lançamentos dos franceses Alcest (Kodama) e Deathspell Omega (The Synarchy Of Molten Bones) e do italiano Frostmoon Eclipse (The Greatest Loss), pelo tanto que os aguardei.
Ainda nesta semana sai a parte II de II, com minha seleta de discos nacionais.
Arktis (Ihsahn)
Ihsahn, nascido Vegard Sverre Tveitan, é um gênio. Não contente em, recém-saído da adolescência, revolucionar a música extrema, levando-a a outro patamar de sofisticação com o Emperor (e ainda vender milhões de discos), ele mantém uma carreira-solo incrivelmente consistente e inventiva, e este Arktis não é exceção: tem black metal ríspido, tem prog metal psicodélico com vocais celestiais à Enslaved, tem industrial, tem jazz, tem coisa pop, tem coisa dançante, mas nada óbvio, nada previsível. As músicas sempre vão aonde você menos imagina, e, mesmo assim, parece natural, inevitável. Disco do ano e música do ano, sem sombra de dúvida.
Ouça: South Winds
Come To Mexico (Totorro)
“Um Weezer instrumental tocado bem mais rápido”. Foi como descrevi o recém-descoberto Home Alone, debute desses moçoilos norte-americanos do math rock. A descrição, acho, ainda vale, na falta de coisa melhor pra adjetivar esse som ao mesmo tempo quebrado, ensolarado e ultramelódico. Coloque o disquinho na vitrola, abra uma cerveja draft e sinta-se no verão de um parque – um parque complexo, mas ainda um parque, e bem divertido.
Ouça: Saveur Cheveux
Guidance (Russian Circles)
Grandioso, monumental. Imagine um Explosions In The Sky mais contemplativo que emocionante. A música vem numa lenta e longa caminhada, do horizonte pra cá, solene, mas não feito marcha, é um passeio altivo mesmo. Lento e confiante. E então tudo se torna uma marcha inexorável, tensa, pesada. Pois o post-metal desses norte-americanos é sempre surpreendente. Uma definição possível seria “um Pelican mais paciente”.
Ouça: Afrika
La Niebla Y La Autopista (Julio Y Agosto)
Este hepteto argentino, em pouco mais de dez anos, com quatro discos e um EP, e shows em vários países latinos e na Europa, traz uma típica ‘comfort music’ com seu folk criollo – pop, melancolia e latinidade. Malcomparando, é um Belle & Sebastian sem deficiência aguda de vitaminas.
Ouça: Elena
Mariner (Cult Of Luna & Julie Christmas)
Este não tem muito erro pra quem curte post-sludge-metal: Cult Of Luna com a Julie, que já participou dos clássicos Battle Of Mice e Made Out Of Babies. Já se sabe o que esperar aqui: muito peso, muito clima, músicas se desenvolvendo sem pressa, ora explodindo em distorções, ora flutuando em dedilhados e percussões discretas. E o vocal de Julie Christmas serpenteia em meio a tudo isso com desenvoltura e malícia. Poderoso.
Ouça: Cygnus
Mayhem In Blue (Hail Spirit Noir)
Direto da Tessalônica, Grécia, vem este jovem power-trio (desde 2010) que já conta com três full lenghths, incluindo este Mayhem In Blue. Está no meio do caminho entre o debute do Kvelertak e os discos mais recentes do Nachtmystium, com ecos do finado Lifelover: ou seja, um black rock-metal doentio, cheio de tensão, psicodelia e sem nenhum compromisso com rótulos.
Ouça: The Cannibal Tribe Came From The Sea
Safehaven (Tides From Nebula)
Estes poloneses de Varsóvia vêm com o terceiro álbum ‘cheio’ em 8 anos, mantendo sempre a consistência: uma dinâmica mais, digamos, dinâmica que o habitual do post-rock/metal, passagens com peso à Pelican, eletrônica de leve (como o atual Explosions In The Sky) e trechos muito interessantes que remetem às paisagens sonoras de Brian eno com U2 na fase The Unforgettable Fire. Deve agradar até quem não tem muita paciência com o estilo.
Ouça: Traversing
Señoras (Los Valentina)
Este quarteto chileno recém-nascido (de 2015) já surge com seu primeiro trabalho, um EPzinho de 6 faixas em 23 minutos, de surpreendente segurança. Um pop rock meio final dos 80s, meio começo dos 90s, mas sem os timbres datados dessa[s] época[s] (mas espere eventuais teclados jovem guarda); pop de guitarras limpas, bonitinho e melancólico, na tradição que vai de Byrds a REM (e outros tantos), enquanto a bela voz de Valentina canta sobre cotidiano e nostalgia.
Ouça: Serpientes
Stranger To Stranger (Paul Simon)
Paul Frederic Simon é um prodígio: após levar o folk rock um passo adiante, com letras e harmonias mais sofisticadas nos 1960s, tem uma longa e sólida carreira-solo em que, inventando a world music décadas antes de o rótulo existiu, já misturou tudo que é cultura existente e existida do mundo. Hoje, do alto de seu 1,60m e de seus 75 anos, segue desafiando, instigando, experimentando. Sem nunca se deitar nas melodias confortáveis da parceria prolífica e turbulenta com Art Garfunkel.
Ouça: Wristband
Luz Satelital (Tobogán Andaluz)
Ora indiezinho, ora powerpop, mas tudo com certa leveza, dir-se-ia vagar típico oitentista; não vai mudar a vida de ninguém, mas é muito agradável ouvir este disquinho da atual banda do prolífico Facu Tobogán – não tão lo-fi e nada experimental como seus trabalhos-solo. A voz dele talvez seja o ponto fraco do álbum, um tanto desleixada demais, porém, vale a pena mesmo assim curtir esse rockinho porteño honestíssimo.
Ouça: Partido En Dos
De bônus tem: epônimo dos horrendos alemães do Bethlehem, que, após alguns anos perdidos em um arremedo de Rammstein com rock gótico, retornaram ao que sabem fazer melhor, um dark metal grotesco, grosseiro e desolador (ainda que sem a inspiração da fase áurea); e o tiozão do soul Charles Bradley, que, qual Cartola, só apareceu na mídia após só 60 anos (em 2013, com um single-cover de Changes, do Sabbath, relançado neste segundo álbum), e surge na lista como exemplo de álbum muito tocante e honesto, ainda que sem pretensões de inovação.


Também curti os rocks moderninhos e melódicos dos chilenos Medio Hermano (Lucha Libre) e Ases Falsos (El Hombre Puede), o incansável black metal norte-americano do Cobalt (Slow Forever) – ainda que inferior ao anterior e já clássico Gin, de 2009 e o blackgaze belga Rheia, do Oathbreaker, uma trombada entre Julie Christmas e Deafheaven; e esperava mais dos lançamentos dos franceses Alcest (Kodama) e Deathspell Omega (The Synarchy Of Molten Bones) e do italiano Frostmoon Eclipse (The Greatest Loss), pelo tanto que os aguardei.
Ainda nesta semana sai a parte II de II, com minha seleta de discos nacionais.
terça-feira, 29 de novembro de 2016
E quem sabe sonhar outros sonhos
O
sonho. Ir além. Ser melhor, outro alguém. Conseguir o impossível. É por isso que
a gente se apega tanto a times pequenos de futebol quando enfrentam os grandes
e vencem. Vislumbramos em equipes como a Chapecoense a possibilidade de
realizar sonhos, enquanto muitas vezes a gente não consiga sucesso com os nossos.
Cada defesa do Danilo, cada gol de Kempes, cada vibração do Caio Jr era uma visão
no espelho que nos dizia ‘você ainda pode sonhar’, ‘as coisas às vezes dão
certo’. Meritocracia ideal-impossível. Mas vem o destino e suas cismas e
derruba do alto da roda da fortuna todas as esperanças. Hoje a Chapecoense é a
morte do sonho. Que todos possamos ajudá-la, e a nós mesmos, todos os dias, a juntar os cacos e as forças, fazendo nascer desse chão pisado, lacrimoso, uma nova solidariedade. Pra recomeçar e sonhar tudo de novo. #ForçaChape
segunda-feira, 12 de setembro de 2016
Une certaine difficulté d’être
Acordei? Acordei. Não, não acordei, ainda estou sonhando. Sonho ruim, inclusive. Noite de sonhos intranquilos. Calor, tá calor, devia ter tirado a coberta, pegado só uma colcha. Mas nem sei se estou acordado mesmo. Não, acordei mesmo. Olha, até que dormi bem, pros meus padrões. Pô, até que estou de bom humor pr’uma segunda-feira calorenta. E olha que acordei bem mais cedo que o necessário. Vamos tentar levar o dia, quiçá a semana, numa boa. Levanto, abro a janela, nossa, mas já está bem sol!, vai ser foda de calor hoje. Marcos Valle na vitrola [YouTube], chá gelado, vamos ler as notícias. Nossa, mas o trânsito tá horrível hoje, hein, dá pra ver daqui. E o aplicativo de ver os ônibus não está funcionando direito. Não seria um grande problema se a empresa respeitasse os horários, mas não é o caso, definitivamente. Desço pro ponto, tá bem calor mesmo, e neste horário não tem sombra nenhuma, tá foda. Uns cinquenta minutos depois, ponto cheio, carros e gente indo e vindo, vem o ônibus. Cheio. E aí, no terminal, mais um ônibus, e mais distância e trânsito, tudo envolto em muito calor. Chego à #firma, cansado, suado, metamorfoseado num monstruoso, e São Paulo do Piratininga já drenou toda a minha vontade de viver. Segundas-feiras não costumam ser muito diferentes disso.
segunda-feira, 22 de agosto de 2016
Entre outras mil, és tu
Eu ligava muito pra Olimpíadas desde o começo dos 1990s. Minhas memórias olímpicas eram todas dessa época, de Hodori a Cobi, de Bem Johnson a Serguei Bubka. Depois, sei lá, também logo comecei o curso técnico em período integra, depois a trabalhar, e nem dei por mim quando já não tinha tempo nem disposição pra acompanhar nada que não fosse o Corinthians (até algumas copas ignorei no caminho, como a de 1998).
Passei esses anos todos vendo as Olimpíadas como uma gincana de luxo, com um monte de gente estranha e esporte esquisito, aquele oba-oba todo que vinha do nada e logo em seguida voltava para lugar algum. Dizia que gostava de atletismo, mas nem isso acompanhava direito.
Mas eis que, nesta Rio 2016, em que eu vinha reticente quanto às capacidades da cidade de montar toda a estrutura a tempo, fui contagiado pelo afã da fã de primeira hora Talita, e acabei me empolgando – ainda que conseguisse acompanhar pouca coisa na #firma – a ponto de fazer um esquema insano para ir ao Rio em um final de semana, com direito a ver o Bolt correr e presenciar uma cerimônia de premiação (arremesso de disco).
E foi emocionante demais, como já havia sido a abertura, como acabou sendo todo o decorrer, e como foi o encerramento ontem. Diferentemente de quando houve a primeira votação do impeachment, naquela aziaga noite de domingo em abril, em que olhamos dentro do abismo e um país abissal nos encarou de volta, as Olimpíadas foram a gente de olhar num espelho e gostar do que vimos, como disse o Renato Paes Leme ontem.
Foi muito bom estar certo a respeito da Copa, como foi bom estar errado a respeito dos Jogos Olímpicos. Apesar de tudo, a gente é um povo muito especial, e é muito legal ser brasileiro.
E por favor alguém traz logo um evento esportivo, qualquer evento, pra cá. Prometo, enquanto isso, tentar acompanhar pelo menos um pouco de atletismo no dia a dia. ^^
Passei esses anos todos vendo as Olimpíadas como uma gincana de luxo, com um monte de gente estranha e esporte esquisito, aquele oba-oba todo que vinha do nada e logo em seguida voltava para lugar algum. Dizia que gostava de atletismo, mas nem isso acompanhava direito.
Mas eis que, nesta Rio 2016, em que eu vinha reticente quanto às capacidades da cidade de montar toda a estrutura a tempo, fui contagiado pelo afã da fã de primeira hora Talita, e acabei me empolgando – ainda que conseguisse acompanhar pouca coisa na #firma – a ponto de fazer um esquema insano para ir ao Rio em um final de semana, com direito a ver o Bolt correr e presenciar uma cerimônia de premiação (arremesso de disco).
E foi emocionante demais, como já havia sido a abertura, como acabou sendo todo o decorrer, e como foi o encerramento ontem. Diferentemente de quando houve a primeira votação do impeachment, naquela aziaga noite de domingo em abril, em que olhamos dentro do abismo e um país abissal nos encarou de volta, as Olimpíadas foram a gente de olhar num espelho e gostar do que vimos, como disse o Renato Paes Leme ontem.
Foi muito bom estar certo a respeito da Copa, como foi bom estar errado a respeito dos Jogos Olímpicos. Apesar de tudo, a gente é um povo muito especial, e é muito legal ser brasileiro.
E por favor alguém traz logo um evento esportivo, qualquer evento, pra cá. Prometo, enquanto isso, tentar acompanhar pelo menos um pouco de atletismo no dia a dia. ^^
domingo, 3 de julho de 2016
Numa paisagem entre o pão e a poesia
_Gosta de poesia, jovem?
_Oi?
_Poesia, eu escrevo poes...
_Ah, não, não, tô atrasado, valeu.
_Não, cara, volta aqui. Minhas poesias são ótimas.
_Ótimas?
_Tá, são legais.
_Hmm.
_Olha só, cê gosta de soneto? Faço uns sonetos foda, é cada chave de ouro...
_Tem brinde?
_Quê?
_Brinde, tem brinde?
_Como assim brinde? Não, não tem brinde.
_Ah, então valeu. Não gosto muito de soneto não.
_Não, cara, espera! Do que você gosta? Quadrinhas, sextinas, rondel, rondó, faço qualquer uma.
_Rondel?
_É, cara, tem rondel e tem rondó, a diferença é...
_Olha, eu preciso mesmo ir, você está me atrasando, meu filme vai começar daqui a pouco, preciso comprar a pipoca ainda...
_Trovas, faço trovas, posso pegar meu violão ali.
_Não, violão não, pelo amor de Deus. Sem violão.
_Nem um bandolim, uma lira...
_Onde você guarda uma lira, meu Deus?
_Haicai, sabe haicai?, aquele de três, faço haicai também.
_De métrica tem o quê?
_Métrica? Pô, metrifico que é uma beleza. Cê gosta como? Decassílabos heroicos, redondilhas...
_Na verdade eu só gosto um pouco de endecassílabos e de poesia épica.
_Épica? Ixi, moço, endecassílabos eu tô meio enferrujado, acho que vou ficar te devendo, pode ser alexandrinos? Cesura por conta da casa.
_Preciso ir mesmo, cara, minha companhia chegou. Vamos entrar pra ver o filme.
_Companhia? Ó, leva pra ela, ó, tem aqui galope, ode, elegia, madrigal, noturno, idílico...
_Cara, tchau.
_Moço, num vai embora, não, eu faço um épico aqui, olha, já tô evocando umas musas aqui pra... ô Calíope, aparece logo, o moço tá indo embora... moço?, moço, moçoooo...!
[Escrito entre 5h53 e 6h18, ao som de Sur L'Océan Couleur De Fer, do Alcest, no repeat. Fazer o texto foi sugestão de @cesarotti às 23h47].
sábado, 14 de maio de 2016
Mas todas as últimas semanas pareceram um sonho no qual a gente sonha que está acordado, acorda e verifica que era isso mesmo.
Bem-vindos a República da Desfaçatez: aqui seu voto só vale até a página dois, mas garantimos corrigi-lo para o bom proveito da nação, com eventuais jogadas dele na sua cara de novo só para justificar as temeridades do vice entronizado na pouca vergonha.
A imprensa vai te explicar, exultante, que vai ser melhor para todo mundo, só para lamentar lá na frente como se não tivesse nada a ver com isso desde o começo. Idem para políticos, ratazanas que já começam a deixar o barco encalhado.
Vem aí corte social, mais imposto (pois é), arrocho no trabalhador, empresa pública vendida a preço de pirulito, derrocada da representatividade de minorias. Mais um bolo que vai crescer, crescer, e será devorado antes da divisão. Será que o dólar cai e a bolsa sobe com esse cenário internacionalmente reconhecido como farsesco?
O Deus Mercado deve dar sua contribuição, claro, caso seja agradado com os devidos sacrifícios humanos: aumento da desigualdade, concentração de renda, medidas econômicas nas quais nenhum eleitor votou (nem os do Aécio) e um corpo de ministros ainda pior que o da Dilma.
Tem também um monte de medida de pura demagogia, aquelas jogadas pra galera: corte de cargos comissionados, corte de ministérios (só nos quais os partidos aliados não têm interesse manifesto), auditorias pastel-de-vento e um discurso de ‘vamos colocar o país nos trilhos’ que se desmancha num ‘mas também não dá pra fazer milagre poxa’ no mesmo dia.
A recessão será tratada até o fim como herança maldita, como se não tivesse se agravado com as tentativas de golpe que ridicularizaram o país mundo afora, com o terrorismo da imprensa de 'maior crise desde 1929' e com o Legislativo emperrando qualquer pauta da situação.
Nunca foi contra a corrupção, e nós avisamos. Sempre foi contra um partido, uma visão política: jornais e colunistas, em júbilo, comemorando o fim do PT, da Era PT, da esquerda no poder, etc. Era e é por liberaloides que curtem uma repressão do Estado, empresários cínicos e jornalistas #ascom. Os tais 'mais pobres', que sempre são citados, assim mesmo, numa abstração servil, como os mais prejudicados com a crise, pouco serão lembrados. Mercado é um deus severo do Velho Testamento.
Setor de cultura/entretenimento gera mais empregos que setor automobilístico. Corte de cargos de Temer gera economia simbólica. Temer diz que não vai fazer milagres em dois anos. Direitos adquiridos são um conceito impreciso. Medida Provisória de Temer traz dois ministérios com as mesmas funções. Meirelles diz que não descarta CPMF. PEC defendida por Romero Jucá deve tirar R$ 35 bilhões da Saúde em 2017. PMDB deve tentar neutralizar ou reduzir os danos da Lava Jato. Gilmar Mendes suspende a coleta de provas contra o senador Aécio Neves. Revisão da lei do impeachment será prioridade do Senado, diz Renan. Governo Temer quer permissão para rombo fiscal maior.
Seguiremos jogando isso na sua cara, História adiante, para que vocês carreguem essa pecha de farsante, esse guizo ruidoso de golpista, até o final dos tempos.
A imprensa vai te explicar, exultante, que vai ser melhor para todo mundo, só para lamentar lá na frente como se não tivesse nada a ver com isso desde o começo. Idem para políticos, ratazanas que já começam a deixar o barco encalhado.
Vem aí corte social, mais imposto (pois é), arrocho no trabalhador, empresa pública vendida a preço de pirulito, derrocada da representatividade de minorias. Mais um bolo que vai crescer, crescer, e será devorado antes da divisão. Será que o dólar cai e a bolsa sobe com esse cenário internacionalmente reconhecido como farsesco?
O Deus Mercado deve dar sua contribuição, claro, caso seja agradado com os devidos sacrifícios humanos: aumento da desigualdade, concentração de renda, medidas econômicas nas quais nenhum eleitor votou (nem os do Aécio) e um corpo de ministros ainda pior que o da Dilma.
Tem também um monte de medida de pura demagogia, aquelas jogadas pra galera: corte de cargos comissionados, corte de ministérios (só nos quais os partidos aliados não têm interesse manifesto), auditorias pastel-de-vento e um discurso de ‘vamos colocar o país nos trilhos’ que se desmancha num ‘mas também não dá pra fazer milagre poxa’ no mesmo dia.
A recessão será tratada até o fim como herança maldita, como se não tivesse se agravado com as tentativas de golpe que ridicularizaram o país mundo afora, com o terrorismo da imprensa de 'maior crise desde 1929' e com o Legislativo emperrando qualquer pauta da situação.
Nunca foi contra a corrupção, e nós avisamos. Sempre foi contra um partido, uma visão política: jornais e colunistas, em júbilo, comemorando o fim do PT, da Era PT, da esquerda no poder, etc. Era e é por liberaloides que curtem uma repressão do Estado, empresários cínicos e jornalistas #ascom. Os tais 'mais pobres', que sempre são citados, assim mesmo, numa abstração servil, como os mais prejudicados com a crise, pouco serão lembrados. Mercado é um deus severo do Velho Testamento.
Setor de cultura/entretenimento gera mais empregos que setor automobilístico. Corte de cargos de Temer gera economia simbólica. Temer diz que não vai fazer milagres em dois anos. Direitos adquiridos são um conceito impreciso. Medida Provisória de Temer traz dois ministérios com as mesmas funções. Meirelles diz que não descarta CPMF. PEC defendida por Romero Jucá deve tirar R$ 35 bilhões da Saúde em 2017. PMDB deve tentar neutralizar ou reduzir os danos da Lava Jato. Gilmar Mendes suspende a coleta de provas contra o senador Aécio Neves. Revisão da lei do impeachment será prioridade do Senado, diz Renan. Governo Temer quer permissão para rombo fiscal maior.
Seguiremos jogando isso na sua cara, História adiante, para que vocês carreguem essa pecha de farsante, esse guizo ruidoso de golpista, até o final dos tempos.
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
Sons, palavras, são navalhas (II de II)
Como já disse na seleta de discos internacionais, tenho ouvido pouca coisa convencional, e isso se reflete nesta lista, pois ouvi pouca coisa nacional neste ano, inclusive tendo que receber sugestões [valeu, Laíssa] e ler listas pra cavoucar algo de meu agrado que tenha sido lançado em 2015. Não tem a força da lista ‘importada’, até pelo universo muito maior de escolhas desta, mas até que tive boas surpresas.
Também vale mencionar que não acompanho de perto a carreira da maioria dos artistas citados, logo relevem qualquer incoerência - foi intencional me ater apenas à obra que ouvi, sem procurar saber do background do artista. Mas vamos lá.
Este Loucura Total entra como nacional mesmo, uma vez que tem música em português mesmo na versão em castelhano, e quem produz é o Liminha, então foda-se. Não gosto do Moska, acho bem chato pra falar a verdade, mas este disco é leve, divertido – fofo. Cê ouve sorrindo do início ao fim, vale muito a pena, uma bela brincadeira com pop, rock, samba, tango, etc., num clima 'pra curtir as férias', despretensão total.
Também vale mencionar que não acompanho de perto a carreira da maioria dos artistas citados, logo relevem qualquer incoerência - foi intencional me ater apenas à obra que ouvi, sem procurar saber do background do artista. Mas vamos lá.
Este Loucura Total entra como nacional mesmo, uma vez que tem música em português mesmo na versão em castelhano, e quem produz é o Liminha, então foda-se. Não gosto do Moska, acho bem chato pra falar a verdade, mas este disco é leve, divertido – fofo. Cê ouve sorrindo do início ao fim, vale muito a pena, uma bela brincadeira com pop, rock, samba, tango, etc., num clima 'pra curtir as férias', despretensão total.
[Ouça: Garota Muchacha]
* * *
Falando nisso, Caleidoscópio, tributo ibero-americano feito pelo Scream & Yell a’Os Paralamas Do Sucesso, é o melhor dos discos-homenagens feitos pelo site até agora. Tem música brasileira, portuguesa, espanhola e latina, tudo misturado com pop rock, do jeito que a maior banda que este país já teve sempre fez tão bem. É legal até pra revalorizar o quão rico é o som d’Os Paralamas, tudo que veio deles e com eles. Até músicas que nem curto na versão original, como a que indico abaixo, ficaram legais.
[Ouça: Una Brasilera]
* * *
Voltemos pro Brasil, então: bem-vindos de volta, Los Porongas. O retorno dos acreanos, Infinito Agora, após hiato de quatro anos, traz um primeiro lado mais pop rock convencional oitentista (com participação do Bruno Gouvêia, inclusive) que é bacana, mas não chega a empolgar tanto, é despretensioso como a banda sempre foi, pop-indie-rock com instrumental simples e sólido, bons vocais e letras bacanas, mas entra na lista pela parte final, em que sentam mais o pé na psicodelia.
[Ouça: Sobre Mim]
* * *
[Ouça: Dizem Que Sou Louco Por Você]
* * *
Supercordas finalmente entregou o grande disco que se esperava deles. Largou o mal de tantas bandas nacionais, que acham que precisam remeter o tempo todo a Mutantes [como se ninguém mais tivesse feito psicodelia no Brasil], com instrumental datado e letras desleixadas cantadas com aquele vocal cheio de efeitos, e fez uma obra concisa, Terceira Terra, que ecoa Beatles e Clube da Esquina na medida certa, e com muita personalidade e letras muito boas, num som que não tem medo de sentar o braço nas guitarras quando necessário.
[Ouça: Maria³]
* * *
Boogarins, pelo menos, não tem [quase] nada de Los Hermanos, pelo menos, neste trabalho (o que já é uma alívio pros ouvidos), mas seu som à Lô Borges ainda carece de lapidação – as ideias soam esparsas, meio sem unidade, ainda que haja faixas muito boas, como a escolhida abaixo. Mas tá na lista porque é agradável de ouvir, de qualquer forma. E o caminho é promissor.
[Ouça: 6.000 Dias]
* * *
Maglore vem com o setentão III, disco muito bonito, ainda que derrape nos vocais loshermanísticos em muitas partes (quando isso não acontece, são os pontos altos do disco), tem um instrumental redondinho, tem uns lances meio Novos Baianos [bem de leve] nos arranjos, aquele rockinho maroto suingado com timbres do Revolver. Ou, vendo de outro lado, é o que o 4 seria se Los Hermanos não tivessem naquela egotrip. Quem sabe no próximo disco não se libertam e fazem um disco ainda melhor que este? ;)
[Ouça: O Sol Chegou]
* * *
Também loshermanístico, porém, mais pesado e intenso, com ótimo instrumental, o epônimo do Ventre tem guitarras dissonantes que remetem, bem de leve, a Gram e Violins (nos climas tensos), mas também precisa urgentemente se livrar dos vocais camelo-amarantísticos. Discaço, mesmo assim, foi uma grata surpresa conhecê-los.
[Ouça: Peso Do Corpo]
[O que me alegra em quase todos esses discos é que, finalmente/aparentemente, a geração Bizz-Ilustrada foi deixada pra trás (descanse em paz). A história é contada pelos vencedores, disso todos sabemos, e, da mesma forma que os modernistas de 1922 perpetuaram que qualquer coisa com mínimo rigor formal (parnasiana ou não) era automaticamente ultrapassada e execrável, a geração de jornalistas musicais paulistanos, especialmente no final dos 1980s e começo dos 1990s, amamentada com pós-punk, passou anos a fio (a despeito de todo o trabalho de óbvia qualidade) doutrinando a molecada com o corolário de que qualquer coisa feita antes de 1976, e/ou com apuro melódico-instrumental, era ruim: prog, psicodelia, tudo era automaticamente jogado fora. E, numa época sem internet, uma geração inteira deve ter ficado sem conhecer direito de Clube da Esquina a Yes, passando por Pink Floyd, Módulo 1000 e Lula Côrtes. Por isso é uma grande satisfação ver que quase tudo nesta lista tem um pé nessa época injustamente proscrita no Brasil. Ouçam mais música chapada, moleques, vocês ‘tão indo bem demais. Até porque finalmente o pessoal parece estar se livrando um pouco da síndrome-da-vergonha-da-guitarra que nos assolou desde o Ventura, e qualquer um que quisesse "estar conectado à música brasileira" achava que era só pegar um violão de náilon e cantar como quem tá com deficiência vitamínica. Pisa nesses overdrive aí, porra.]
* * *
Ramil. Com esse sobrenome, já esperava algo bem feito, competente, mas obviamente açucarado, o que definitivamente não se aplica a Derivacivilização. Ian Ramil vem com um trabalho que parece mais com Rogério Skylab e Patife Band – pesado, visceral e nonsense – do que com seus parentes já famosos. E, sobretudo, caótico. No melhor dos sentidos.
[Ouça: Coquetel Molotov]
* * *
Cê olha este gordinho com cara de nerd na capa e não dá nada pra ele, né. Mas Tremor é claramente o melhor disco nacional que ouvi neste ano. Guilherme Eddino tem uma voz andrógina à Ney Matogrossso, toca um monte de instrumentos, e o disco tem de rock safado oitentista e indie-pop a samba e bolero, passando por baladas folk e grooves dançantes. É muita informação?, sim, mas tudo soa coeso, coisa de quem sabe o que tá fazendo e aonde tá indo. Ô disco foda.

[Ouça: Mea Culpa]
terça-feira, 15 de dezembro de 2015
Sons, palavras, são navalhas (I de II)
Minha lista internacional de coisas mais legais ouvidas reflete certo desinteresse atual por música convencional; tenho ouvido mais post-rock instrumental e as bordas do metal extremo, os post-atmospheric-folk-black-gaze, que desafiam muitas convenções musicais. Inclusive tive que dar umas pesquisadas para ver o que saiu de bom musicalmente fora desse universo mais ‘climático’ – até porque muito do que tenho ouvido não é necessariamente lançamento, mas sim algo novo para mim, uma descoberta, e é o que importa, né?, em arte, a sua vez de experimentar.
Mas não dá pra deixar de mencionar que o Iron Maiden fez The Book Of Souls, seu melhor disco em 25 anos [desde No Prayer For The Dying], épico, pesado e bem feito; entra na lista por ser uma banda da qual eu já não esperava nada, apesar de curtir muito. É o primeiro disco deles desde a volta de Bruce sobre o qual não penso “era melhor o cara ter ficado na carreira-solo”.
Mas não dá pra deixar de mencionar que o Iron Maiden fez The Book Of Souls, seu melhor disco em 25 anos [desde No Prayer For The Dying], épico, pesado e bem feito; entra na lista por ser uma banda da qual eu já não esperava nada, apesar de curtir muito. É o primeiro disco deles desde a volta de Bruce sobre o qual não penso “era melhor o cara ter ficado na carreira-solo”.
* * *
E o Faith No More?, que retornou com um disco redondinho, Sol Invictus, mais pop que se esperava dele, mas ainda soando atual, necessário, digno. Não é nem o funk metal do início, nem a esquizofrenia moderna de quando Mike Patton dominou a banda, mas é uma obra bem sólida.
[Ouça: Separation Anxiety]
* * *
O norueguês Enslaved vem cada vez mais próximo da perfeição a cada disco, numa longa ascendência, mas desta vez, com In Times, eles parecem ter olhado no olho de Odin, com melodias intrincadas e belíssimos vocais limpos perfeitamente entremeados com o peso do black metal norueguês.
[Ouça: Building With Fire]
* * *
Menos
técnico e melódico, mas igualmente intrincado, muitas vezes sufocante, o
também nórdico Dødheimsgard, que já passou do black metal tradicional/épico para o
norsecore-motosserra e para uma versão moderna com toques eletrônicos,
lançou este opus avant-garde/experimental, A Umbra Omega, burlesco e macabro como uma mistura entre Arcturus e Thorns, progressivo & jazzístico, solene, uma ambiciosa música de câmara – mortuária.
[Ouça: The Unlocking]
* * *
Os japoneses malucos do Sigh também são obrigatórios em qualquer lista de melhores sempre que lançam álbum, uma vez que a mistura de black/thrash metal com j-pop, heavy tradicional, jazz e eletrônico, às vezes tudo ao mesmo tempo, é sempre imperdível, então Graveward é mais uma boa mostra do quão amplo é o horizonte dos extremos da extremidade musical.
[Ouça: The Trial By The Dead]
* * *
Falando sobre mostras ao público, este New Bermuda do Deafheaven (da sempre surpreendente cena americana de USBM) foi bem menos incensado pela crítica do que o debute Sunbather – que pra mim é bem comum e só serviu para apresentar o black metal moderno a um público maior (não que isso seja pouco), não acostumado a esse tipo de experiência sonora intensa, mas que achou interessante um bando de hipsters tocarem aquela barulheira toda. Mas este disco, ainda que não seja nenhum clássico (os riffs, por exemplo, seguem meio fracos), já aponta para novos caminhos, como os interlúdios semiacústicos aparentados do post-rock, em canções que se desenvolvem sem pressa.
[Ouça: Luna]
* * *
Mantendo esse tem da apresentar universos extremados a não-iniciados temos o nova-iorquino So Hideous com Laurestine, disco de post-metal/shoegaze que é meio como viver: desesperado, barulhento, ora apenas caótico, hora por demais emotivo, mas sempre intendo, ao ponto da exaustão, quando vê interstícios de calmaria pra você tomar fôlego e viver/ouvir mais. Não está entre os melhores discos que já ouvi, mas é coerente dentro desta lista.
[Ouça: Yesteryear]
* * *
Saindo do lado barulhento da força, direto pro Arizona, o Calexico lançou um disco redondinho com seu ‘indie-folk tex-mex’ (sim, parece horrível, mas o resultado é ótimo), Edge Of The Sun, que parece remeter ao mesmo tempo a Jorge Drexler, Grateful Dead, Gram Parsons, Wilco e Travis, mas ainda assim soando com cara própria.
[Ouça: Falling From The Sky]
* * *
Ainda na seara folk/country, temos o ótimo e inesperado (pelo menos pra mim) Sing Into My Mouth, álbum de covers bem variado do Iron And Wine, caipira da Carolina do Norte, em parceria com Ben Bridwell, do Band of Horses. De tanto folk de condomínio assolando a humanidade, eu tinha até medo de ouvir ‘novidades’ de folk, mas achei o moço Iron And Wine digno da tradição de Simon & Garfunkel, no trabalho de violões e vocais.
[Ouça: No Way Out Of Here (cover de Unicorn)]
* * *
A melhor coisa internacional lançada neste ano que ouvi? Ellipsism, o post-rock (quase todo instrumental) boliviano do Enfant. Deve ser a primeira coisa boliviana que ouço na vida (flautinhas tocando Let It Be e My Heart Will Go On no Centrão não contam). É uma obra inquieta, às vezes transmitindo vazio, às vezes parecendo preencher tudo que há. O som vai, vem, ora torto, ora melódico, sem pressa de distinguir peso e melodia ou apontar seus caminhos, mas é sempre surpreendente, de muito bom gosto, com ocasionais pinceladas regionais, de você se pegar ouvindo e pensar “como é bom isto existir e eu poder ouvi-lo”. Quintessencial.
[Ouça: o disco inteiro, de uma vez]
* * *
Menções honrosas para Extinct, melhor disco do lusitano Moonspell em muitos anos, com perfeito equilíbrio em seus elementos básicos – black, doom, gótico, pop, eletrônico e eventuais nuances mouras, e o Live At Roadburn¸ que encerra o belíssimo projeto francês de post-black-gaze Les Discrets, um álbum de raríssima beleza e intensidade, de elevar o espírito.
[Ouça: Medusalem e Les Feuilles De L'Oliver ]
[Aqui tem a seleta de discos nacionais.]
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