terça-feira, 9 de outubro de 2012

The most august sorcerers of Hades darkly seized for me a throne.



Para entender o black metal (parte 4 - final)

(Parte 3 aqui)

Ainda no turbilhão de 1994, tivemos discos importantíssimos. Entre os lançamentos que foram gravados no ano anterior, viram a luz (?) o ousado Dark Medieval Times, do Satyricon, cheio de teclados, violões e flautas (mas ressentindo da má produção, independente); Transilvanian Hunger, do Darkthrone, que, por sua vez, foi gravado de forma tosca de propósito, radicalizando a proposta primitiva do álbum anterior; e os classudos e complexos Vikingligr Veldi (Enslaved) e In The Nightside Eclipse (Emperor), de arranjos grandiosos e intrincados. E, no mesmo ano, o Enslaved gravaria e lançaria ainda mais um disco, Frost, na mesma linha do anterior.

Burzum, com Hvis Lyset Tar Oss (gravado em 1992, porém lançado apenas em 1994) deu caráter mais épico ao projeto de Varg (destaque para os climáticos 14min de Det Som Engang Var, nome do disco anterior) e se aprofundando no clima ambient music (Brian Eno, Jean-Michel Jarre, Tangerine Dream) com a etérea instrumental Tomhet (também com mais de 14min).

Tivemos também os debutes de duas bandas que causariam polêmica nos anos seguintes (desta vez, por motivos estritamente musicais) – For All Tid, do Dimmu Borgir (cujo líder, Shagrath, havia tocado no seminal Fimbulwinter), com seu black metal sinfônico, cheio de teclados, e The Principle Of Evil Made Flesh, do Cradle Of Filth, que desfilou o vampirismo gótico na cena.

Partindo da discografia até então, pode-se definir mais ou menos como o black metal criou as subdivisões dos anos posteriores (mesmo que as próprias bandas “seminais” tenham tomado outros rumos, como veremos a seguir).

Emperor, Satyricon, Dimmu Borgir e Cradle Of Filth deram origem ao symphonic black metal, e até ao avant-garde black metal, de certa forma (ainda que o importantíssimo Bergtatt, do Ulver, saísse apenas em 1995), com seus arranjos grandiosos e complexos, com teclados entremeando os vocais ora sujos, ora limpos, entoando letras mais trabalhadas.

Enslaved guiou praticamente sozinho (Borknagar, Windir e Einherjer, entre outras, jamais foram tão grandes ou influentes), durante o restante da década, o viking metal pós-Bathory, e ainda lhe deu contornos progressivos em Eld (1997) e Blodhemn (1998).

Nessa época, Quorthon estava mais interessado em thrash/death (Requiem, de 1994, e Octagon, de 1995), além de lançar dois interessantíssimos discos-solo de pop-rock (!), Album (1994) e Purity Of Essence (1997) – o excelente Blood On Ice, apesar de lançado em 1996, fora composto em 1988, e seu retorno outonal ao estilo épico, com Nordland I (2002) e Nordland II (2003), não teve tanto impacto (embora a qualidade fosse inquestionável).

Immortal e Mayhem fizeram surgir inúmeras bandas do chamado (jocosamente) “norsecore” – rápido, frio, gelado, cheio e trêmolos e blastbeats, com temas entre o inverno e o satanismo, e integrantes usando cinto de balas de fuzil e corpse paint.

Darkthrone incentivou inúmeros grupos de tr00/raw black metal – visual monocromático, som mais cadenciado, porém simplíssimo e “reto” (para dar a noção de “frieza”), com gravações lo-fi, com cara de fita demo caseira (e às vezes era isso mesmo).
 
Já o Burzum, até pelas inúmeras influências fora do metal que Varg sempre teve (ambient music, pós-punk, krautrock), foi certamente o que fez nascer o maior número de subestilos, que, por sua vez, continuam se ramificando até hoje:

- depressive black metal (normalmente projetos-solo com vocais torturados típicos de Varg, sonoridade de Joy Division tocado com os timbres do Burzum, letras sobre tristeza, angústia, solidão e desesperança, e estética de apologia ao suicídio, com revólveres, facas e forcas, além de cenas de automutilação), de bandas como Lifelover, Judas Iscariot, Xasthur, Shining e Silencer;

- post-black metal/blackgaze, que mistura black metal com post rock, shoegaze e até um pouco de folk, algo tão complicado que inclui bandas diferentes entre si como Agalloch, Falloch, Alcest, Les Discrets, Old Silver Key, Cold Body Radiation, Lantlôs, Heretoir e Celephaïs.

Enquanto isso, entre a explosão do black metal norueguês na mídia e o assassinato de Euronymous, muitas bandas de outros países, inspiradas pela first wave (Bathory, Sarcófago) ou [também] migrando do death para o black metal, de olho na Noruega (vale lembrar que o influente Live In Leipzig, do Mayhem, é de 1990), surgiram e tiveram destaque, formando cenas bem distintas.

Na Suécia, como já dito, tivemos a ascensão especialmente do Marduk, que, entre discos mais “melódicos” (muitas aspas, por favor) e mais brutais, o tal “norsecore” (do qual outro grande representante é o conterrâneo Dark Funeral). Dissection, com seus discos clássicos The Somberlain (1993) e Storm Of The Light’s Bane (1995), influencia bandas até hoje, como o alemão Thulcandra. Outras bandas típicas do rude black metal sueco são The Black (com vocais de Jon Nödtveidt, do Dissection), Pest (ambas no clima lo-fi do Darkthrone), Lord Belial, Watain e Arcknanum (com suas letras em sueco antigo).

Na Finlândia, bandas influenciadas tanto pelo death metal do Sarcófago quanto pelo crust punk e o grindcore, praticam um black metal extremamente brutal, com destaque para Behexen, Beherit (que também teve uma estranha fase ambient doom) e o absolutamente insano Impaled Nazarene. As duas últimas possuíam certa rixa com bandas norueguesas entre 1992 e 1993, chamando-as de poseurs e modistas, especialmente por terem todas migrado do death puro para o black puro. Porém não houve nada muito além de trotes para Samoth, do Emperor, e as ofensas na contracapa do primeiro disco do Impaled Nazarene, Tol Cormpt Norz Norz Norz (1993): "No orders from Norway accepted" e "Kuolema Norjan kusipäille!" ("Morte aos cuzões da Noruega!").

Outras cenas relevantes estão na Polônia, com Behemoth (que depois migrou para o death, fazendo o caminho inverso do usual) e Graveland; na França, com o movimento chamado Les Légions Noires, que incluía Mütiilation, Vlad Tepes, Belketre e Torgeist, e os atuais, herméticos e inclassificáveis Peste Noire (que tem um dos integrantes, Neige, prolificamente na cena blackgaze, com bandas como as já citadas Les Discrets e Alcest) e Deathspell Omega; nos EUA, como o chamado USBM, com influência de black/thrash, de Black Funeral, Grand Belial’s Key, Absu e Abazagorath, além dos grotescos Inquisition e (o já citado) Judas Iscariot; na Suiça, não há cena propriamente dita, mas o influente Samael (que hoje pratica metal industrial); na Grécia, Rotting Christ (que foi adicionando elementos góticos ao som), Varathron, Necromantia, The Elysian Fields, Thou Art Lord, Diabolos Rising; na Áustria, o medievalismo satânico de Abigor e Summoning.

E, no decorrer da década, as próprias bandas influentes da Noruega seguiram outros caminhos. Darkthrone pagou tributo ao Celtic Frost com discos como Panzerfaust (1995) e Total Death (1996), antes de mergulhar numa fase mais puxada para o crust punk, que dura até hoje. Emperor deixou seu com ainda mais complexo (e, de certa forma, mais acessível), embora s composições tenham ficado menos brilhantes na mesma medida em que a produção fez jus à técnica do som, até encerrar as atividades em meados da década seguinte. Mayhem, reformulado, lançou discos de forte apelo avant-garde, com a entrada Blasphemer na guitarra e os retornos de Maniac (da época do Deathcrush) e, atualmente, Attila Csihar (substituindo Maniac, demitido por problemas de alcoolismo). Satyricon lançou uma obra-prima do black metal noventista, Nemesis Divina (1996), e depois mudou o som para um lance ao mesmo tempo mais primitivo e mais pop, com toques de industrial/eletrônico. Immortal adicionou toques de metal tradicional ao som. Enslaved segue firme no progressivo/psicodélico.

Já o Burzum, como sempre, merece parágrafo à parte. Filosofem, gravado ainda em 1993, mas lançado somente em 1996, ampliava o ambient/krautrock esquizofrênico do disco anterior, com ecos de industrial. Havia pouco de metal no disco, que era mais experimental, contemplativo, minimalista e radicalmente hipnótico. Entre guitarras cheias de fuzz e vocais saturadíssimos, à industrial como em Jesu Tød, havia muitas instrumentais, incluindo uma com mais de 25min (Rundtgåing Av Den Transcendentale Egenhetens Støtte). Pretensioso, porém igualmente inovador e conciso. Era o disco mais bem acabado do Burzum até então. Na cadeia, com as evidentes restrições instrumentais da prisão, Varg lançou dois discos gravados somente com teclados e sons MIDI (Dauði Baldrs, de 1997, e Hliðskjálf, de 1999). Dívida com a sociedade cumprida, retomou o metal com abordagem mais pop/tradicional e até vocais limpos, retomando a carreira do ponto de Filosofem.  

Na própria Noruega, o estilo continua parindo bandas tão diversas quanto Dødheimsgard (que foi do black tradicional ao industrial) e o blackmetalpunk do Kvelertak.

E o Brasil? Vai bem, tanto com o old school Mistyfier, quanto com o second wave Amen Corner e os atuais Corubo (com letras em tupi-guarani!) e Ocultan (e seus temas de quimbanda!).

Uma vez aberta a caixa de pandora do black metal, o mal e a escuridão permanecem com raízes fincadas em toda a Terra. Para nossa sorte musical.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Everyone recognized war, that black metal isn't just entertainment anymore.



Para entender o black metal (parte 3)

(Parte 2 aqui)

Nesse curto período, houve muita tragédia e muitos crimes foram cometidos por membros do Inner Circle ou por bandas de outros países, confessamente inspiradas pelos noruegueses.

Em 8/4/1991, Per "Dead" Yngve Ohlin - que desde uma experiência de quase-morte, devido a um severo sangramento estomacal, achava que não pertencia mais a este mundo - foi encontrado morto na casa em que os membros do Mayhem estavam morando. Estava com a cabeça aberta por um rito de espingarda (cuja munição teria sido fornecida por Varg) e os pulsos cortados a facão. Vestia uma camiseta “I love Transylvania” e seu bilhete de se suicídio dizia apenas “excuse all the blood”.

Euronymous, o primeiro a encontrá-lo, tirou fotos do cadáver e teria apanhado pedaços do crânio esparramado. Teriam sido feitos colares com esses nacos de cérebro (alguns blackmetallers escandinavos alegam tê-los, como membros do Marduk) e até cozinhado e comido alguns. Já a foto acabou virando capa do infame bootleg Dawn Of The Black Hearts (1995).

Entre 1992 e 1996, mais de 50 igrejas foram incendiadas e mais de 15 mil túmulos foram profanados (alguns itens sacros desses lugares teriam virado decoração da loja Helvete). Houve incêndios e profanações também em países vizinhos, como na Suécia (membros do Abruptum foram acusados, mas nada se provou) e até na Rússia. Sabe-se do envolvimento de Varg, Samoth (Emperor) e Jørn (Hades Almighty) em alguns atentados a igrejas na Noruega. Todos foram condenados.

Outros acontecimentos sinistros ligados à segunda onda do black metal: Bård Faust, então baterista do Emperor, foi preso pelo assassinato de um homossexual. O baixista à época, Tchort, foi condenado por assalto e diversas agressões. Grim, baterista de bandas como Immortal, Gorgoroth e Borknagar, cometeria suicídio (por overdose intencional de drogas) em 1999. Bandas como Therion, Deicide e Paradise Lost sofreram atentados que teriam sido a mando de Varg Vikernes (por serem bandas "vendidas", "usurpadoras das forças negras" ou qualquer coisa assim).

Na vizinha Suécia, Jon Nödtveidt, líder do Dissection, foi preso pelo assassinato de um imigrante argelino, e cometeria suicídio em 2003, anos depois de sair da prisão. O membros originais da banda alemã Absurd (de forte ligação com o nazismo e acentos Oi!/RAC na musicalidade), foram condenados por assassinar um colega de escola (por questões pessoais). Uma foto de seu túmulo também virou capa de disco, a demo Thuringian Pagan Madness (1995).

À época das primeiras igrejas incendiadas a grande mídia já havia se interessado pelo tema, e não só na própria Noruega: uma bombástica reportagem da famosa revista inglesa de rock Kerrang! em 1992 espalhou o vírus do black metal pelo mundo, rendendo até uma matéria da revista Bizz, acusando Satanic Terrorism, do Sarcófago (do álbum Hate, de 1994) de ser uma elegia ao Inner Circle (talvez fosse mesmo, embora eles dissessem que estavam apenas “relatando um fato”, mas a matéria era de fato bem pobre).

O livro Lords Of Chaos, de 1998, permanece até hoje o grande documento sobre a época (embora Varg, Fenriz, Satyr e outros repudiem a obra), junto com o filme Until The Light Takes Us (focado demais em Fenriz, do Darkthrone), de 2009.

Porém o acontecimento-chave para o movimento ocorreu em 10/8/1993. E, para tentar entendê-lo, é preciso contextualizar a hierarquia daquela cena musical.

Embora, segundo testemunhas como Frost (Satyricon) e Bård 'Faust' Eithun (Emperor) jamais tenha havido realmente um Inner Circle ou um Black Circle – era apenas uma cena musical, pessoas com interesses em comum que se reuniam no porão da Helvete, nada de rituais de iniciação ou reuniões oficiais – era fato que Euronymous, supostamente usando táticas de liderança aprendidas quando militou no partido norueguês de extrema esquerda Red Ungdom (Juventude Vermelha), para influenciar (manipular?) as outras bandas.

E funcionou: em poucos meses, muitas bandas de death metal se tornaram black metal, como já citado na parte 2.

Dead, que em vida já retroalimentava o extremismo crescente de Euronymous, quando morto tornou-se o marco inicial da obsessão completa com o satanismo (teísta mesmo, não o filosófico de LaVey) e tudo que era perverso. E muitos dos atos criminosos cometidos à época eram coisa de jovens que pretendiam impressionar seus iguais, pertencer a um grupo “seleto”, ter status na cena.

Nisso, ninguém era melhor que Varg (ironicamente nascido “Kristian”) Vikernes. Até a estética colaborava para o interesse da mídia: enquanto Öysten “Euronymous” Aarseth era baixinho e feio, com discursos histriônicos e cheios de clichês “malvados”, Varg tinha cara de moço bonito de família, e era muito mais bem articulado em sua lógica tortuosa.

Enquanto Euronymous alegadamente passava fome pra manter a sua casa, a Helvete e a Deathlike Silence Produtions, Varg, aparentemente de ascendência mais abastada, provavelmente morava com os pais e seu projeto Burzum era um dos campeões de venda (em termos de underground, claro) da cena.

Diz-se que Euronymous começou a ver seu até então melhor amigo e parceiro de extremismos como um rival, dividindo a atenção tanto da mídia quando dos outros músicos do Inner Circle. Fala-se também de problemas com dinheiro (Euronymous estaria devendo o repasse de vendas dos discos do Burzum), discordâncias políticas (Euronymous era comunista, e Varg, fascista), divergências ideológicas (Euronymous era satanista, e Varg, adepto do paganismo nórdico) e até, pasmem!, disputas por uma namorada. Porém, como a história é escrita pelos vencedores, e as testemunhas da época não gostam de falar sobre o assunto, fiquemos com a versão (mais ou menos) oficial.

Segundo Mortiis (então baixista do Emperor), Euronymous teria ido a uma vidente e descoberto que sua vida corria perigo. Como ele já estava desconfiado de que Varg estava conspirando contra ele, achou que seu ex-amigo planejava assassiná-lo. Resolveu se antecipar e matar Varg primeiro. Wagner Lamounier, do Sarcófago, que se correspondia com Euronymous na época, diz que o norueguês planejava injetar um vírus ou coisa parecida em alguém (Vikernes não era mencionado) e transformá-lo num escravo-zumbi (!).

O fato é que Snorre W. Ruch, do Thorns, amigo de ambos, contou a Varg os planos de Euronymous, e ainda se ofereceu para ir junto. Em 10 de agosto de 1993, viajaram de Bergen até o apartamento de Euronymous em Oslo, em plena madrugada.

A versão de Varg é que ele apenas ia falar sobre contratos da Deathlike Silence (embora tenha levado uma faca para “eventualidades”), e que se defendeu quando Euronymous o atacou também com uma arma branca. O que se sabe é que Euronymous morreu na porta de casa, vestindo pijama e samba-canção, com 23 facadas, sendo duas na cabeça, cinco no pescoço e dezesseis nas costas. E o vencedor do duelo também aproveitou para difamar: teria encontrado um vibrador sujo de excrementos e vídeos de sexo gay e bizarro no apartamento de Euronymous.

(Se é verdade a história da ida de Euronymous à vidente, tornou-se então uma profecia autorrealizável.)

Num processo rápido, que mobilizou a mídia (norueguesa e europeia) como nunca antes no metal extremo, Vikernes foi condenado a 21 anos de prisão por homicídio em primeiro grau, posse ilegal de armas e explosivos e por ter colocado fogo em três igrejas (o que ele nega até hoje). Snorre pegou 8 anos por cumplicidade no homicídio.

Ironicamente, em maio de 1994, o Mayhem finalmente lançou seu aguardado álbum De Mysteriis Dom Sathanas, com Euronymous e Snorre (creditado como Blackthorn) nas guitarras e Varg Vikernes (como Count Grishnackh) no baixo. A cena do crime completa num dos discos mais influentes da história do black metal. Na bateria, o remanescente Hellhammer (até hoje na banda). As letras? Dead, num estilo mórbido e obscuro. E, para os vocais, o húngaro Attila Chsihar, do influente Tormentor, com estilo bastante peculiar de cantar. Sem dúvida um grande resumo da época, com canções que mostravam a evolução das ideias musicais de Euronymous.

A família de Euronymous teria pedido a Hellhammer que retirasse a gravação do baixo de Varg, mas, embora prometido, isso não foi feito. O que ocorreu, de acordo com as versões-demo do disco (ainda com Dead nos vocais) que circulam pela rede, é que o baixo teve seu volume reduzido apenas.

Com tudo isso, o filho mais horrendo do metal já não era exclusividade do underground, pertencia agora ao mundo, seria parte da [sub]cultura pop dali em diante. Porém, enquanto sua face mais visível galgava o mainstream, outros tentáculos se espalhariam em novas manifestações ainda mais extremas e anticomerciais (porém sem – muitos – crimes).

terça-feira, 31 de julho de 2012

Two great spears and a flag of dominion and hate.


Para entender o black metal (parte 2)

(Parte 1 aqui)

Quando se diz que o Bathory sempre esteve à frente de seu tempo, não é brincadeira: ainda que Quorthon tivesse, além de inventado o black metal, tê-lo desenvolvido em tons épicos em Blood Fire Death (1988), Hammerheart (1989) e Twilight Of The Gods (1991), criando os subgêneros epic/viking/pagan metal, e dando grandiosidade e “espírito de guerra” ao próprio metal negro – com climas grandiosos (incluindo citações ao folclore musical nórdico e a compositores clássicos como Gustav Holst), músicas mais longas e uso de violões e vocais limpos –, no início dos 1990s a turma do som extremo na Noruega ainda estava imersa no death metal.

Os futuros membros de Immortal e Burzum tocavam juntos no Old Funeral, os do Emperor, no Thou Shalt Suffer, e Darkthrone já existia, mas também tocava death metal.

Apenas quando o Mayhem teve a entrada de Dead (da banda sueca – de death – Morbid) as letras passaram a ter mais morbidez e profundidade (em vez do splatter de Deathcrush) e Euronymous, além de começar a compor black metal, convenceu todos da cena a largar a cena death – que, segundo ele, havia se tornado poseur e modista com o sucesso na MTV de bandas como Entombed e Obituary – e atingir novos patamares de som extremo e obscuro com o novo direcionamento musical.

Shows como o de Leipzig, em 1990, a despeito tanto da precariedade sonora quanto da apatia do (pouco) público foram vistos por todos daquela nascedoura cena nórdica, incluindo membros das bandas suecas Abruptum e Marduk.

Ao ouvir aquelas músicas inovadoramente brutais, sem quaisquer resquícios de death (mesmo as antigas, ao vivo, passaram a soar diferentes), e ver as performances de Dead, que usava corpse paint, se cortava no palco, usava ganchos e porcos empalados no palco, vestia roupas que ele mesmo havia enterrado semanas antes e cheirava um corvo morto dentro de um saco entre as canções (para “sentir a presença da morte”) todos queriam fazer parte daquela cena.

Foi quando se formou, no porão da loja de discos Helvete (“Inferno” em norueguês), do guitarrista e líder do Mayhem, Euronymous – sempre o catalisador, o agregador de todas as tendências do movimento –, o chamado Inner Circle Of Norwegian Black Metal (apesar do nome pomposo, nada formal), que incluía todas as bandas norueguesas recém-convertidas ao black metal num grupo de jovens tão sem dinheiro quanto talentosos.

Isso incluía o selo Deathlike Silence (que lançava a maioria das bandas), uma rede de contatos no underground que incluía das bandas já citadas da Suécia até grupos distantes como o brasileiro Sarcófago (influente, embora permanecesse death metal) e o japonês Sigh. E ideias extremistas que levariam, em pouco tempo, a assassinatos, suicídios, profanações de cemitérios e incêndios a igrejas.

Em pouco tempo foram lançados pilares musicais do estilo, formando a chamada segunda onda do black metal. Interessante notar o quanto as bandas, embora do mesmo lugar, com o mesmo passado death, com intensa troca de instrumentistas e parcerias musicais, e sob a mesma influência do líder do Mayhem, possuíam visões tão distintas do estilo.

Immortal, após o debute ainda meio death/doom Diabolical Fullmoon Mysticism (1992), veio com Pure Holocaust (1993), que trazia equilíbrio entre rispidez e melodia, vocal inspirado em Bathory e temas fantásticos de batalhas em míticas terras geladas.

Burzum (na verdade um projeto solo de Varg Vikernes) lançou seu epônimo (1992) e um EP (Aske, de 1993), com sua particular visão melancólica e passadista visão de um mundo nórdico corrompido pela moral judaico-cristã por meio de músicas longas e hipnóticas, cheias de teclados minimalistas e vocais torturadíssimos (normalmente irritantes).

No mesmo clima pagão, porém com estruturas (e letras) mais tradicionais, teclados mais grandiosos e climas medievais-épicos também no instrumental, o Satyricon estreou com as demos All Evil (1992), ainda tocando um death metal similar ao que o Darkthrone fazia no início, e a pretensiosa (no bom sentido) The Forest Is My Throne (1993).

Após o primeiro lançamento de death metal, Soulside Journey (1991), o Darkthrone mergulhou no black metal frio, simples e de produção cuidadosamente descuidada, nos discos A Blaze InThe Northern Sky (1992) – considerado o primeiro disco de black metal moderno – e Under A Funeral Moon (1993), que consolidou a proposta lo-fi e absolutamente primitiva, até na capa P & B.

Uma demo - Wrath Of The Tyrant (1992) - e um aclamado e influente EP epônimo (1993) trouxeram à cena o complexo Emperor e seu mundo de teclados em destaque, técnica apurada em meio à velocidade e climas de obscuridade cósmica. Sem dúvida o produto mais bem acabado da época. Vale lembrar que o baixista e letrista à época era Mortiis, que deixaria a banda para seguir uma bem-sucedida carreira de darkwave/ambient/industrial.

Outras bandas que despontaram à época na Noruega, umas mais, outras menos, outras nada envolvidas com o Inner Circle, foram o viking metal de Enslaved (ex-Phobia, de death metal, com membros do que tornar-se-ia o Theatre Of Tragedy) e Hades (Almighty), o black metal industrial do Thorns e o imprevisível avant-garde do Ulver.

E foi nessa época, em apenas dois anos infernais (1992–1993), que o extremismo que o black metal personificava resolveu transbordar, do visual e das canções, para a vida (e a morte) da pacata Noruega.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Spreading pure hell on earth as they pass over water and land


Para entender o black metal (parte 1)


Black Sabbath inventou o metal. Motörhead o deixou mais rápido e sujo. Mercyful Fate trouxe satanismo/ocultismo e teatralidade ao estilo. Surgiram Venom, Bathory e Hellhammer e juntaram tudo isso.

Eram garotos que amavam tanto a New Wave Of British Heavy Metal quanto o circo extravagante do Kiss. No espírito hardcore da época – que uniu o autodidatismo, a tosqueira e o niilismo a músicas mais rápidas, sujas e brutais –, era tudo questão de juntar imperícia musical, influências poderosas e vontade de aparecer, chocar, tumultuar. A produção inexistente dos discos só deixava tudo mais estiloso e impactante. Escapismo puro, que torna mais incrível o fato de gente que só queria se divertir ter inspirado a vertente mais brutal, extremista (e por vezes criminosa) da música.

Entre Welcome To Hell (1981), debute do Venom, e The Return... [Of Darkness And Evil]  (1985), segundo disco do Bathory, com Apocalyptic Raids (1984), estreia do Hellhammer, no meio, os estilos foram se definindo: pelos critérios atuais, Venom é thrash, Hellhammer é death e Bathory é black.

De todo modo, o Bathory (embora negasse) levou consigo algo da velocidade ríspida do Venom e dos timbres graves e distorcidos do Hellhammer. Porém enquanto o Venom, entre idas e vindas, permaneceu um Motörhead satânico que fazia shows semelhantes ao do Kiss, e membros do Hellhammer formaram o Celtic Frost (que levaria o death à maturidade, e influenciaria o próprio black metal depois), o Bathory seguiu seu próprio caminho. 

Pode-se dizer que o terceiro disco do Bathory, Under The Sign Of The Black Mark (1987), seja o marco (trocadilho inevitável) inicial do gênero, e Enter The Eternal Fire, a primeira canção de black metal puro: agora, era impossível compará-los aos contemporâneos Venom ou Hellhammer.

Aqui o black metal se desvencilhou da massa barulhenta da primeira metade da década, quando era difícil distinguir thrash, death e black (até porque todos os estilos resolveram nascer na mesma época). Do andamento marcial aos vocais cheios de rancor e frieza – mais declamados do que cantados –, passando pelos timbres de guitarra e os teclados atmosféricos, tudo nessa música é inovador. Aliás, desde o primeiro disco, os vocais foram o grande diferencial do Bathory: jamais alguém havia cantado daquela forma tão monstruosa.

E tudo criado e executado por um só homem, o sueco Thomas Börje Forsberg (1966-2004), mais conhecido pelo nome de guerra Quorthon.

E até o fato de ele fazer tudo sozinho (escrever, tocar, produzir e criar a capa), apenas com eventuais baixistas e bateristas de estúdio, tanto por falta de dinheiro quanto por individualismo, também influenciou o caráter hermético que o estilo adquiriu com o tempo.

Há letras melhores, mais elaboradas, misturando o habitual satanismo apocalíptico a temas nórdicos (ainda que timidamente), produção (um pouco) mais encorpada, e ao mesmo tempo mais clima e mais extremismo. As músicas rápidas são mais rápidas (Chariots Of Fire), as mudanças de andamento são mais brutais (Equimanthorn) e as canções lentas são assustadoras (Call From The Grave). 

Alguns andamentos e temas são a semente do que seria o epic/viking/pagan metal, que o próprio Bathory criaria e desenvolveria nos discos seguintes (sobre os quais falaremos na próxima parte), como Blood Fire Death (1988), Hammerheart (1990) e Twilight Of The Gods (1991).

No mesmo ano, mais três lançamentos fundamentais dessa “primeira onda” gênero: INRI (Sarcófago, do Brasil), Deathcrush (Mayhem, da Noruega), Into The Pandemonium (Celtic Frost, da Suiça). Dois puxados pro death (Sarcófago influenciaria toda a cena finlandesa, extremamente tosca e brutal, e Mayhem levaria ele mesmo o estilo ao extremo dos extremos), e um de death com elementos avant-garde que dariam no black metal sinfônico e complexo de bandas como Arcturus, Sigh e Dimmu Borgir (como veremos no capítulo a seguir).

Nos anos seguintes, culminando na primeira metade da década de 1990, o black metal mudaria não apenas o metal em si, mas deixaria marcas na música e na cultura popular.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Não matou os outros deuses o triste deus cristão. Cristo é um deus a mais, talvez um que faltava.



Todo mundo tá escrevendo texto sobre a Libertadores. Corinthianos e não-corinthianos. Quem já escreve sobre futebol e quem nem blog/site tem. Até o Reinaldo Azevedo.

Então não vou me alongar: a Libertadores é charmosa, sim, em toda a sua precariedade. Para vencê-la é preciso ir contra “tudo e todos” (com o perdão da expressão tão desgastada). Árbitros caseiros, estádios varzeanos, torcidas selvagens, segurança pífia – e, no Brasil, a luta contra o calendário maluco brasileiro.

[Tudo bem que o jogo que mais reuniu roubalheira + violência + atitudes varzeanas foi contra o Santos, o tal do “futebol-arte”, mas beleza.]

Sim, é legal “conquistar a América”, jogando contra equipes do Mercosul – até pra dar um descanso dos intermináveis Paulistão com 20 clubes e Brasileirão de 38 rodadas –, e disputar o Mundial contra outros campeões continentais lá no Leste do mundo. Até porque era um título inédito para nós até quarta-feira passada.

Quis vencê-la desde 1991, e eu estava lá no Panetone, com mais 75.000 corinthianos, sob um tempestade, naquele 1 a 1 conta o Boca Juniors, quarta-feira aziaga em que novamente jogamos bem e novamente fomos entregues por Guinei.

Só que, sem a tosqueira toda, a Libertadores, na prática, não passa de uma Copa do Brasil que toca flautinha. Há brasileiros demais (o que aumenta o nível da competição, mas tira muito de sua graça) e você pensa em Boca, Penãrol e Olímpia para enfrentar, mas passa 90% do tempo jogando contra XV de Cochabamba, Lhamense e o Puerto Iguazú Boys, times que seriam surrados no Paulistão A3.

[Sim, o fato de ser um campeonato tão tosco e mesmo assim a gente não conseguir vencê-lo me deixava frustrado, antes que perguntem.]

Pelo menos a vencemos de forma brilhante, invicta (único invicto com 14 jogos), com a melhor defesa da história da competição e eliminando três times de primeira linha (feito inédito para brasileiros). Coisa pra não deixar margem de dúvida. E não duvido de que teremos pelo menos mais uma conquista até o final da década, sem esse “peso” de nunca haver conquistado, e com o crescendo de bons times e grande estrutura que estamos vivendo.

Só que, com o valor baixo do prêmio e a grana insuficiente que a Conmebol nos deu para as viagens, ficaremos provavelmente no prejuízo. E isso de “ser conhecido no exterior” é uma grande bobagem. Japão continuará consumindo tudo do Brasil, argentinos sabem da gente o tanto quanto sabemos deles, e os europeus continuarão a nos ignorar solenemente.

O Corinthians continuará imenso, gigantesco, como era antes de conquistar a América. Só não sei se a Libertadores continuará superestimada, como é desde 1992, ou se voltará ao status “exótico” que o torneio tinha até então, o qual, convenhamos, merece, enquanto for tão mal ajambrado.

Dizer que é a conquista mais importante é um baita anacronismo. Como afirmar que é mais importante que os paulistas de 1954 ou de 1977? Que o Brasileiro de 1990, a Copa do Brasil de 1995 ou o Mundial de 2000? Cada geração tem sua preferência, seu “tabu”, e a importância dos campeonatos é relativizada com o tempo.

Por isso reafirmo: a Libertadores é um campeonato muito legal e importante, mas que não deve servir de régua pra medir a grandeza de um time. Se os torcedores de outros times estão reclamando do excesso de comemoração, precisam se lembrar de que foram eles mesmos que superdimensionaram a conquista, martelando anos a fio que “eles tinham e nós não”.

Tal como a história do estádio, em que times com campinhos pouco maiores que nosso Alfredo Schürig se gabam por coisa alguma. Agora que aguentem. O time do povo trabalhou, sofreu, mas subiu na vida. Comprou casa nova e agora tá até viajando pro exterior.

E essa não era uma taça maior que as outras, mas uma que faltava.

#VaiCorinthians

sábado, 23 de junho de 2012

Cavaleiro De Jorge Sem Medo Nenhum ou Ah O Ópio De Ser Outra Pessoa Qualquer!


E assim chegou o a noite do dia mais importante da década para o Corinthians.

Depois da arbitragem extremamente caseira na primeira partida contra o Emelec – a qual os pseudocríticos da imprensa reagiram como “Libertadores é assim mesmo”.

Depois da falsa polêmica no primeiro jogo contra o Vasco – criada pela incompetente e cariocólatra Fox Sports e alimentada pelas azêmolas Mauro Cézar Pereira, Milton Neves e Cosme Rímoli –, quando o R7 fez até um quizz sobre "polêmicas do Corinthians com arbitragens".

E assim a imprensa foi alimentando o filão anti-/secador: o Corinthians nunca venceu o Emelec (só havia jogado uma vez contra, mas beleza), o Corinthians nunca venceu um campeão da Libertadores, o Corinthians nunca venceu um jogo na Vila Belmiro com gol de um jogador que possui macaca de estimação. No dia do segundo jogo contra o Vasco, por exemplo, havia seis matérias sobre o Timão no Uol, e todas, eu disse TODAS, eram negativas.

E assim chegamos ao primeiro jogo contra o Santos. A imprensa inteira já colocava o time da Baixada na final. Era favorito, era o futebol-arte, o Corinthians ia tremer, ninguém ia segurar o Neymar. Este, aliás, já dizia sonhar com uma final contra o Boca, para repetir o feito de Pelé, 50 anos antes.

A torcida do Santos, que já havia atirado ovos no ônibus do time na terça, jogado rojões dentro do campo quando o Corinthians estava reconhecendo o campo e soltado fogos em três turnos perto do hotel onde estava o timão, se comportou exatamente como os bolivianos que tanto criticou, jogando de copo d’água capacete da PM (!) no campo, usando os proibidos sinalizadores, apagando as luzes quando os goleiros foram se aquecer e usando, de um prédio das imediações, laser na vista do goleiro Cássio. Cuspiram no Tite.

Em campo, mais uma arbitragem vergonhosa:

- Logo no primeiro lance, Ganso chuta Alex e o árbitro marca fala (perigosíssima) para o Santos.

- Emerson Sheik sofre falta, quase pênalti, do ladinho da área, e o Juizão dá... tiro de meta! Peraí, ou foi falta ou foi escanteio, certo?

- Durval pisa em Jorge Henrique e fica por isso mesmo.

- Neymar dá pontapé em Castán e leva só amarelo. Devia ter sido expulso, mas claro que o juiz não ia expulsar o Queridinho, né.

- Sheik leva o segundo amarelo por fazer falta em um jogador que devia ter sido expulso no lance anterior.

- Apaga a luz misteriosamente quando o Alex estava atacando. Em toda a minha vida eu jamais vi algo tão patético e varzeano (com perdão à várzea, que é muito mais respeitosa).

Depois do jogo, Neymar falou que só um time jogou. Ganso disse que o Corinthians “achou um gol”. Laor, chorão, disse que o Corinthians estava sendo beneficiado por Mano Menezes (?!).

Segundo jogo, fatura liquidada, Neymar e Ganso insistiram que o Corinthians era retranqueiro, que fez gol na sorte e que o time havia dominado a partida. Muricy, idem. Na imprensa, nenhuma bateção de bumbo sobre a arbitragem, sobre a várzea que foi a Vila Belmiro, nadinha.

E assim o pânico dos rivais, secadores e antis vai aumentando. Serão dois jogos incríveis contra os xeneizes.

* * *

Agora deixa eu explicar qual a diferença entre o secador (o que todo torcedor de verdade tem a obrigação de ser) e o anti.

O anti, pra começar, não torce pro time dele. Ele torce contra o Timão. Na verdade, nem precisa ter um time: quantas pessoas não dizem por aí “ah eu torço contra o Corinthians”.

O anti é o são-paulino ou palmeirense que, numa semifinal Corinthians e Santos, torce para este em vez de desejar que caia um meteoro sobre o estádio.

É o são-paulino que eixo de acompanhar seu time na Copa do Brasil para tuitar xingamentos ao Corinthians contra o Emelec (e eu presenciei isso).

É o cara que sai de casa para ir a um bar cheio de corinthianos só para provocar (presenciei isso na estreia contra o Táchira, e quase saiu briga).

É o santista que apareceu na Globo, indo pra Montevidéu ver seu time na final da Libertadores, com uma faixa "chupa gambá".

É a torcida são-paulina que, em, Curitiba, com seu time jogando, ficou gritando que “Libertadores o Corinthians não tem” ou coisa assim (deu no Lance! isso).

É o flamenguista, botafoguense ou fluminense que torceu pelo Vasco.

É o cara que, na onda do Galvão Bueno, odeia argentino, mas torcerá pelo Boca (em vez de, novamente, desejar uma hecatombe nuclear nos dois jogos).

É o R7, o Uol e os comentaristas babacas que, por birra da Globo (que dá cartaz ao SCCP porque dá audiência) ou para explorar o filão secador/anti, inventam factoides, tabus e bobagens sobre o Corinthians a cada semana.

Acho que agora não dá mais pra usar aquele argumento das camisas Corinthians-Boca e Corinthians-Manchester como desculpa, né, tá tudo explicadinho aqui. Secar é dever cívico, ser anti é algo patético.


E vai Corinthians.
Que venha o Boca.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Todos os horizontes lhe acenavam da mesma maneira.

_Olá, como vai, tudo bem?

_Eu vou rindo, e você, tudo bem?

_Vou voltando, aliás, quem é você?

_Eu sou eu, ué. Mas também sou você. E você?

_Eu também sou eu, e também sou você. E agora?

_E agora tipo “o que faremos” ou “e neste momento quem é quem”?

_Tanto faz, acho. Na verdade sou o que sempre foi e sempre será.

_E eu, somente estive, nunca fui?

_Exatamente.

_Então quem sou eu?

_Você simplesmente não é.

_E você, então, quem pensa que é?

_Eu sou o seu eu do eterno retorno.

_Meu eu da ruína e do abismo?

_Eu sou seu eu do esquecimento.

_E eu, quem sou?