segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Confesso que ouvi (II de III)

Após a lista internacional, vamos o que topou de melhor com os meus ouvidos aqui na Terra de Santa Cruz.

NACIONAIS


Consertos em Geral [Manoel Magalhães]
Eu vi a capa e falei “ah não, mais um sub-hermanos, num dou 10s pra eu tirar esse disco e xingar”. Bom, de fato, é um hipster barbudo com terno de brechó e violão de náilon; é carioca, mas tem ecos do som ‘centro expandido sensível’ que infestou também São Paulo, e provavelmente do Oiapoque ao Chuí. Sim, tem aquelas letras que você nunca sabe se são certeiras ou simplórias; sim, tem a voz calma e sensível do Camelo, tem os metais da banda dele, tem a vontade doida de ser o Caetano do Leme. Porra, mas, com tudo isso, o disco é bom, é muito legal, provavelmente o disco nacional que mais curti ouvi neste ano. Não conhecia Manoel Magalhães, não sei de onde ele vem [além do RJ], nem aonde ele vai, porém, ele usa essas influências, e provavelmente tudo que ele ouviu na vida – Erasmo, tropicália, Beatles, pop-rock 80s, Skank, Clube da Esquina... e tudo se encaixa, a voz suave, as canções sem pressa, os dedilhados de violão, as guitarrinhas melódicas, tudo feito com bastante certeza.
Ouça: Fica




Fundação
[E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante]

Confesso que já gostei do EATNMPTD mais pelo pela potência do que pelo ato: uma banda paulistana de post-rock, na época [2014?], me fazia relevar, que, fosse no disco, ou fosse ao vivo, era legal, mas nada extraordinário [e o nome da banda me encanta(va) também]; fui vendo shows, vendo shows, saiu disco, saiu EP, mas este disco novo, embora não transmita o poder que a banda tem no palco atualmente [mas tudo bem, pior quando é o contrário, né?, banda boa de disco e decepcionante no show] já mostra claramente segurança e maturidade, apontando pra mais caminhos que a seara Mogwai-Explosions de dedilhadinhos x barulheira: tem uns grooves, tem metais, tem coisas mais pop, tem até um refrão repetido ‘feito mantra’ na última música. Divertido e, sobretudo, promissor.
Ouça: Karoshi
   


OK OK OK
[Gilberto Gil]

Gilberto Passos Gil Moreira, do altíssimo de seus setenta e seis anos, não precisa provar nada pra ninguém, inda mais pra mim, né. Tampouco eu precisei fingir interesse por tudo que ele fez desde o Realce [1981], quando passou a flertar com coisas funestas como [mais] reggae [acho um desperdício um violonista com ele passar décadas tocando guitarrinha em arranjos nheco-nheco], tecnopobre e gírias de tiozão pagando de antenado, até o lindão Luminoso, de 2006. Mas, neste lançamento, o nome é bem apropriado: após flertar com doença, velhice, morte, devido a problemas renais, nos últimos tempos, ele vem com um disco irregular, mas bem digno: quando adquire tons mais reflexivos [nunca sombrios ou fatalistas], analisando seus momentos recentes, alcança grandes momentos; nos momentos mais, digamos, ‘bobos’, mantém a dignidade, não compromete. Disco gostoso de ouvir, deixa aquele sorriso bonito igual ao do próprio Gilberto.
Ouça: Ouço



Pentimento [Odradek]
Post/math rock, direto de Piracicaba, com nome advindo de uma criatura de conto kafkiano [Os Cuidados De Um Homem De Família, de 1917], num caminho perdido que não é nem o ensolarado Totorro, nem o resto de pesadelo do Máquinas. Pelo que li por aí, ‘pentimento’ [‘arrependimento’, em italiano], é a alteração de um quadro durante o processo de pintura, o que deixa marcas na obra final, esse processo de mudança de ideia fica visível a olhos de especialistas. E isso tem muito a ver com o universo sonoro que a banda escolheu, onde tudo é sempre inesperado, quebrado, e tudo pode se desmanchar de uma hora pra outra. Não vai mudar sua vida, especialmente se você já é íntimo desse tipo de som, e nem é algo pra ficar ouvindo toda hora – tem que estar no clima ‘ordem na desordem’ [ou o contrário, sei lá] exigido, pois até as letras e os vocais são ~muito pouco usuais~, mas é tudo muito competente. Fiquei bem curioso para vê-los ao vivo.
Ouça: Curta Os Meus Medos E Anseios, Depois Curta Os Seus Em Silêncio



Saudade - O Corte 腹切り [Ventre]
Pena que, finalmente livre do loshermanismo vocal, e ainda mais próximo das dissonâncias do Gram, ou das paredes de guitarra do Violins, por exemplo, além dos climas d’E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante [com quem fizeram ótimos shows anos passado], a banda decida lançar este EP para anunciar um hiato. Sem grandes destaques, porém, não é demérito, longe disso: os climas vão se alternando, com maturidade e coerência, fossem uma só canção. Tem peso, melodia, boas letras, e tudo bem tocado e bem produzido. Que retornem logo, ou ressurjam logo, com projetos tão legais quanto este.
Ouça: Pulmão/Alfinete




Menções honrosas pr’A Era Do Vacilo [Violins], que, se não alcança a excelência difícil de ser superada de Direito de Ser Nada [2013], pelo menos não é decepcionante ou pouco inspirado como as duas últimas incursões musicais de Beto Cupertino [o projeto Tonto e seu disco solo], mantendo o interesse com boas letras, melodias honestas e a voz sempre belíssima do bandleader, e pro lindão, sincerão e comoventão Amor É Isso [Erasmo Carlos], que, com seus setenta e sete anos, segue tendo como único erro na carreira ter dado tanto cartaz pro tal do Roberto lá, e segue criando e produzindo, e seu novo trabalho é digníssimo, gostoso de ouvir e tem participações de Camelo e Emicida que caem muito bem nas respectivas faixas.




Confesso que, não só de rap, ouvi pouca coisa nova nacional [e, disso, não teve muita coisa que me interessou], por motivos de SEI LÁ, então esta segunda parte da seleta musica de dois mil e dezoito vai ficar mais curta que as outras, contamos com a compreensão da audiência, aguardem a terceira e última parte que a secção sudaca estará o puro creme da latinidad.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Confesso que ouvi (I de III)


Neste ano, resolvi dividir as listas entre internacionais, nacionais e latinos, pras coisas não ficarem nem tão injustas, nem tão díspares, nem tão enlouquecedoras pra serem escolhidas. Já aviso que, de internacional, meu interesse pelo mainstream continua baixíssimo, que os sudacas continuam mandando muitíssimo bhem em todas as áreas do pop-rock, e que, vergonha!, só ouvi rap antigo em 2018, não tenho nada novo pra comentar decentemente. Mas, vamos lá.


INTERNACIONAIS

Geometria [Thy Catafalque]
Certos caminhos da música extrema underground ora levam a arestas que chegam a machucar, ora a tempestades de névoa escura, atordoante, e ora, como no caso deste novo disco dos húngaros do Thy Catafalque, em que você se vê diante de uma paisagem tão esquisita e diversa do que você já presenciou, que fica até difícil descrever: sei lá se é black metal, se é metal, se é rock...?, tem jazz, pop, barulho, ambiente, você até se perde nos círculos concêntricos, sem que tudo vai acontecendo, ainda que sem muita pressa. O rótulo avant-garde cabe perfeitamente aqui, só não sei do lado que qual subgênero mais. E isso é muito, muito legal.
Ouça: Sárember




Heir To Despair [Sigh]
Terei que me repetir novamente [texto de 2015], só trocando o disco: "Os japoneses malucos do Sigh também são obrigatórios em qualquer lista de melhores sempre que lançam álbum, uma vez que a mistura de black/thrash metal com j-pop, heavy tradicional, jazz e eletrônico, às vezes tudo ao mesmo tempo, é sempre imperdível (...) mais uma boa mostra do quão amplo é o horizonte dos extremos da extremidade musical". O legal da banda é isso, tudo pode acontecer, tudo sempre acontece, você só não sabe pra qual dos TUDOS o disco vai puxar em cada lançamento. Em Heir To Despair, puxa mais pra melodia, como em Graveward [2015], por exemplo, do que pra desgraceira, como em In Somniphobia [2012], pra ficar nos lançamentos mais recentes. Mas quem é fã pode ficar tranquilo que as esquisitices e imprevisibilidades estão todas lá – como um power-thrash com flautas renascentistas e escalas asiáticas de guitarra ao mesmo tempo –, do jeito coeso & competente de sempre. E, de lambuja, a capa mais bonita do ano.
Ouça: Aletheia





Höllenzwang – Chronicles Of Perdition [Abigor]
Os veteranos austríacos apareceram lá na ‘segunda onda’ do black metal já fazendo um som bem diferente dos então referenciais nórdicos, com vocais afundados na mixagem, três guitarras e baixo que até hoje não se sabe se é feito na guitarra mesmo ou apenas está em volume mínimo, além de criativo uso de levadas medievais obscuras e uso de tímpanos na bateria. Após longo hiato, tentaram voltar duas vezes, com discos irregulares, que nitidamente tateavam por um lugar na cena atual, chegando a ‘modernizar’ o som com elementos eletrônicos. Mas desta vez deu certo: este disco mantém as características essenciais do grupo, tem tudo para agradar fãs de Deathspell Omega, com seu som massivo e sufocante que infestou a cena atual, para o bem [novos paradigmas] e para o mal [centenas de cópias], fornecendo uma cinzenta queda direto para a escuridão.
Ouça:
Christ's Descent Into Hell





In The Blue Light
[Paul Simon]

A luz melancólica parece ter finalmente incidido sobre o incansável Paul Frederic Simon: aos 77 anos, resolveu regravar versões [na minha opinião] mais melancólicas de canções suas de outrora [tem coisa do There Goes Rhymin’ Simon (1973) até o So Beautiful Or So What (2011)]. Mas claro que alguém que há dois anos fez o excelente Stranger To Stranger [que figurou na lista daquele ano, inclusive] não faria nada preguiçoso: mudaram-se arranjos, estruturas harmônicas e até letras. Goste-se ou não das versões, nenhuma delas é preguiçosa ou protocolar. Porém, quase todas mais reflexivas, agridoces, ainda que sem perder o tom instigante. Para ouvir em momentos de desejada solitude. Pois, talvez, Paul Simon esteja apenas dando aquela respirada mais prolongada, de quem já não precisa se apressar.
Ouça: Can't Run But




Penumbra [MØL]
Para este terceiro disco do quinteto dinamarquês MØL eu vou copiar o que escrevi na lista de 2015 sobre Laurestine, do nova-iorquino So Hideous: “...disco de post-metal/shoegaze que é meio como viver: desesperado, barulhento, ora apenas caótico, hora por demais emotivo, mas sempre intenso, ao ponto da exaustão, quando vê interstícios de calmaria pra você tomar fôlego e viver/ouvir mais”. Quem não estiver iniciado nesse subestilo de extremidade, pode até, vejam só, descobrir agora, ouvir o disco em versão instrumental, sem os vocais sofridíssimos, degustando apenas as dinâmicas post-róquicas do disquinho.
Ouça: Storm




Menções honrosas para Faunalia, dos italianos do Selvans, uma espécie de mistura de Agalloch com Panopticon – vai do black metal intenso e desesperado à placidez dos interlúdios cheios de folk e melodia, mas sempre com ares de solidão numa imensidão de neve e floresta numa manhã congelada [e que capa bacana]; Ordinary Corrupt Human Love, quarto disco dos american black metal hipsters que tanto amo, mas que, neste disco, ainda que muito bonito e sempre emocionante, mostra a banda nitidamente atirando em várias direções para tentar ir além da mistura de black metal desesperado + post-rock, que chegou ao mesmo tempo à perfeição e a um beco sem saída no disco anterior [New Bermuda, de 2015]; e para Down Below, com o black-thrash-rock sempre divertido do sueco Tribulation, com muitos riffs e levadas entre o bangueante e o pop para distrair a mente dos lançamentos mais intensos desta listinha.




En passant, também recomendo: o EP novo do Iron & Wine [Weed Garden], habitué deste blog [citado pelo terceiro ano], com seu folk sempre repleto de serenidade; os discos novos de Mouse On The Keys [Japão] e The Reign Of Kindo [EUA], ambos mais relaxados e menos intensos/virtuosos em suas misturas de pop, prog e jazz que o de praxe, mas mantendo bons momentos; I Loved You At Your Darkest, do death/black polaco Behemoth, que, se não é uma revolução como o trabalho anterior, é um passo bem certeiro no mesmo caminho, um aperfeiçoamento da nova fórmula, por dizer assim; o retorno do black metal psicodélico norte-americano do Nachtmystium, sempre bem-vindo, ainda que me nível ligeiramente inferior aos últimos trabalhos; o epônimo dos espanhóis do Hyedra, um post-rock/metal imponente à Tides From Nebula e Russian Circles; Aura Noire, dos noruegueses do Aura Noir, fazendo o divertido black-thrash de sempre, na linha Tribulation/Hail Spirit Noir, só que bem mais tosco e descompromissado; os caipiras black-metal do Wayfarer e seus climas dark-faroeste em World’s Blood, direto do Colorado; o post-rock melódico e grandiloquente, cheio de cordas, à Sleepmakeswaves, do Autumn Creatures [EUA]; da Finlândia, Solitude, trabalho em que o Totalselfhatred atinge a maturidade para equilibrar o desalento e a beleza melancólica do seu post-black metal; e Sylvaine – nome artístico da one-woman band Kathrine Shepard – cujo único defeito em seu Atoms Aligned, Coming Undone é a excessiva duração das músicas, o que às vezes deixa seu post-metal pesadão + viajante um pouco carente de novidades; e ainda descobri que o Opera IX continuou lançando discos após a saída da vocalista Cadaveria [este The Gospel é simpático], que o Mayhem remixou/remasterizou o já excelente A Grand Declaration Of War [2000] e ficou FODA, com um som mais quente/cheio, e uma capa igualmente impactante, e que saiu full-length do The Smashing Pumpkins [nunca sei quando tem banda e quando Sr. William demite todo mundo], mas aí não deu tempo de ouvir.

Logo mais, as listas brasileira e latina. Fiquem ligadinhos.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

O som do sim (II de II)

Depois da lista nacional, vamos com a seleta ‘importada’ de melhores disco de 2017 que ouvi. Alea jacta est!


A Deeper Understanding (The War On Drugs)

Na lista de melhores de 2014, escrevi, sobre Lost In The Dream: “Sabe aqueles discos que parecem inesgotáveis? Este é um. Mesmo as baladinhas mais dylanescas são cheias de nuances, e a cada audição você vai vendo cores que não via antes (não à toa, levou dois anos pra ser feito). Agrada tanto a fãs de Bruce Springsteen quanto de Alcest. Tanto de pop oitentista e folk quando de ambient music dos 1970s ou post-rock. Ora reconfortante, ora melancólico, deve influenciar muita coisa daqui por diante”. Não sei se já tem alguém influenciado pela banda, e este A Deeper Understanding tem menos detalhes que o disco anterior, também sendo bem mais oitentista. Mas a beleza continua lá, intocável.
Ouça: Strangest Thing




As You Were (Liam Gallagher)

Não, não parece com Oasis. Não parece nem com Beady Eye (que aparentemente só eu curtia). E é mais legal que os discos do Noel (que eu também curto). Que belezinha este primeiro disco solo do Liam. Britpop da melhor qualidade, redondinho, maduro, com muita personalidade. Aliás, falando em Oasis, é melhor que os dois discos pós-Heathen Chemistry (não por acaso o disco do qual Liam mais participa em composições).
Ouça: Paper Crown


El Retorno (Rey Puesto)
Direto de Victoria, no Chile, e com integrantes de bandas conhecidas da cena local, como Siberia, Trakto e Sector 2, vem o rock denso e climático do Rey Puesto, bem mais cheio de nuances que a produção latina de pop-rock dos últimos anos (pelo menos do tanto que pude ouvir), mais concentrada no indie rock 2000s. Tem modernidades no som, sim, claro, mas há também influências mais pesadas com o rock noventista e até um pouco de stoner. Pesado e assertivo, sem ser caricato. Desde Enjambre e Los Bunkers uma banda chilena não me chamava tanto a atenção
Ouça: Sexy Boom





Futility Report
(White Ward)

Descobri por acaso este quinteto ucraniano de post-metal, e que belo acaso: black metal gélido, climas contemplativos de post-rock (com leves toques de eletrônica), agumas levadas de pós-punk e hardcore aqui e ali, e muitas viagens malucas de jazz se debatendo em seis longas faixas. Por mais caótico que pareça, o resultado é sempre muito coerente, ainda que inesperado. A música vai aonde você nunca espera, e, mesmo assim, quando ocorre a mudança, você pensa que só poderia ser daquele jeito mesmo. Imperdível.
Ouça: Stillborn Knowledge




1755
(Moonspell)

O DNA da banda está lá: mistura de black metal, metal gótico, doom metal, pop e um glacê mouro. Só que, desta vez, canções inteiramente em português e um clima épico a serviço de um disco conceitual sobre o terremoto que destruiu grande parte de Lisboa em 1755 – e cuja sensação de desalento e de abandono por parte das divindades e autoridades é obviamente refletida nos dias de hoje. De quebra, ainda tem uma cover incrível de Lanterna Dos Afogados, d’Os Paralamas, que supera em muito a original, ressaltando a melancolia e desesperança da letra de Herbert (que por sua vez é inspirada em um trecho de Jubiabá, de Jorge Amado). Discaço de uma banda única.
Ouça: Todos Os Santos [e depois o disco inteiro, do começo ao fim]




Paraíso
(Adelaida)

Também do Chile, mas de Valparaíso, este power trio, em seu terceiro disco ‘cheio’, vem com levadas de Smashing Pumpkins, dissonâncias de garage rock e até momentos de peso monolítico digno de sludge metallers como Cult Of Luna. Tudo costurado pelos típicos vocais do rock latino dos últimos tempos, e de muita manha pop, que deixa o disco bem palatável, a despeito do peso insistente. Foi um dos últimos discos que ouvi desta lista, e foi uma baita surpresa. Surpreenda-se também.
Ouça: Cienfuegos



Prédateurs
(Les Discrets)

Projeto musical do artista plástico (e multi-instrumentista) francês Fursy Teyssier, Les Discrets, em seu retorno após um breve hiato, conseguiu se desgrudar do “som Alcest” (principal banda da cena post-rock/shoegaze francesa) e se aproximar mais do Amesoeurs (banda na qual Fursy já tocou inclusive): isso significa que, ao clima onírico feito Cocteau Twins e classudo como Portishead, o (também chamado) blackgaze da banda agora agrega timbres de pós-punk oitentista, o que deu um resultado muito bacana ao disco. Pode ouvir sem receio, que Prédateurs é um álbum de beleza invulgar.
Ouça: Virée Nocturne




Songs Of Love And Death (Me And Death Man)

Este duo polonês foi um dos discos que mais ouvi em 2017: Adam ‘Nergal’ Danski, frontman do Behemoth + John Porter, indie rocker inglês, radicado na Polônia, fazendo um folk-country rock ao mesmo tempo elegante e despretensioso, porém, sempre com tonalidades obscuras – como um Nick Cave mais amargo, ou um Johnny Cash que se orgulha da ausência de redenção. Ótimo disco pra pegar a estrada.
Ouça: Cross My Heart And Hope To Die



The Assassination Of Julius Caesar (Ulver)
Pode-se esperar de tudo destes noruegueses: já foram black metal melódico, black metal esporrento, acústico, psicodélico, eletrônico minimalista, eletrônico mais dark, indie... e agora um eletrônico mais pop – ainda que os temas sigam herméticos e sombrios. Tem músicas neste The Assassination Of Julius Caesar que poderiam estar tranquilamente num disco do Depeche Mode, ou numa balada gótica oitentista. Aliás, assim como o disco do Les Discrets, é um grande mérito do Ulver apresentar um trabalho com cores 1980s, porém, com timbres atuais (e timbragem é o que mais ficou datado daquela época, convenhamos). Grande disco.
Ouça: Angelus Novus



Residente (Residente)


René Pérez, ex-Calle 13 (célebre trio de rap-pop porto-riquenho), surge como Residente neste debute epônimo: incessante, o disco atira pra todos os lados (e nem sempre acerta); como o conceito do disco é a de pertencer a todos os lugares (e nenhum), cada faixa é uma viagem – China, Sibéria, África Negra, guetos latinos –, a profusão de referências e reverências chega a atordoar. Mas é indubitavelmente um grande disco, com rap, pop, world music, rock, canto gregoriano, samba, reggaeton, pancadão e mais um monte de coisa inclassificável. Discão pesado e necessário. Pra ouvir bem alto. 
Ouça: Somos Anormales


 Não entraram na lista, mas valem a audição: o sempre digno pop rock do U2 (é comovente vê-los tentando encontrar caminhos novos, ainda que não os encontrem desta vez); o poderoso, ainda que demasiado longo, disco do Fito Páez, em que se posiciona contra toda a patifaria antiprogressista da América Latina atual; o post-rock honesto do Woodsplitter; o britpop, mais pop que brit, do Noel Gallagher; o pop acústico agridoce de Jorge Drexler (que já esteve na lista de 2014); e o sempre inpirador folk rock de Iron & Wine (presente na lista de 2015).






Espero que tenham gostado e se inspirado; ou, pelo menos, conhecido coisas novas. Até 2018 com mais esquizofrenia musical pra todos nós!

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

O som do sim (I de II)

Eis a primeira parte, nacional, da tradicional seleta de melhores discos de 2017 segundo a preferência da casa. Divirtam-se.


Cosmos
(My Magical Glowing Lens)

Quatro anos após a estreia com o belo EP epônimo, o quartero capixaba de rock psicodélico (com boas doses de dream pop) liderado por Gabriela Deptulski faz bonito com seu primeiro full length: psicodelia bem mais direcionada e coesa que Boogarins, por exemplo, sem excesso como Os Mutantes, ou mesmo sem tanto pastiche como um monte de bandas atuais e gringas (alguém pensou em Tame Impala?). Bom para viajar, relaxar, caminhar. Não é ensolarado (nem sombrio), apenas onírico e contemplativo.
Ouça: Raio De Sol



Deixa Quieto (Macaco Bong)
Uma das grades bandas instrumentais brasileiras, Bruno Kayapy lidera aqui seus comparsas em sólidas, inusitadas e suingadas (e menos pesadas que o habitual da banda) versões para músicas do Nevermind, clássico do Nirvana, sempre com muita esperteza – desde o título da obra e os nomes das músicas. E foi uma boa opção tirar o ‘barulho’ das canções originais em prol de mais melodia, coisa em que Kurt Cobain sempre foi subestimado.
Ouça: Móviaje (releitura d'On A Plain)




Elã (Kalouv)

O disco anterior, Pluvero, de 2014, não me chamou atenção – tanto que só fui curtir o quinteto pernambucano ao vê-lo ao vivo. Após apreciar o show, também achei bacana o EP seguinte, Planar Sobre O Invisível, que até entrou na lista do ano passado como ‘menção honrosa’. Já este Elã é coisa finíssima, um post-rock sólido e maduro, de caos controlado flutuando sem pressa entre as melodias, que nunca são perdidas de vista. Se você gosta d’E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, ou mesmo dos momentos mais eletrônicos de God Is An Astronaut (porém, sem tanta melancolia), este disquinho vai descer macio.
Ouça: Depois Do Escuro



Exit (Dado Villa-Lobos)
Descobri por acaso que este disco havia saído, e que surpresa agradável: depois do sem-graça Jardim De Cactus, de 2009 (nem ouvi o seguinte, O Passo Do Colapso, de 2012), Dado aparece aqui com a voz menos hesitante – o que já melhora bastante a experiência – e com um instrumental mais ‘certo de si’, refletindo também ideias mais bem desenvolvidas. O pop e a experimentação, a desilusão e a esperança, o barulho e a melodia, tudo convive em harmonia neste disquinho classudo, tudo guiado pelas guitarras minimalistas sobrepostas que sempre foram marca registrada de Dado, desde os tempos da Legião. Enfim, a surpresa mais agradável desta lista, a começar pela belíssima capa.
Ouça: Fogueira De Natal



Fodido Demais
(Do Amor)

Os discos anteriores (um autointitulado, de 2010, e Piracema, de 2013) sempre me davam a ideia de que a trupe indie carioca de Gabriel Bubu e Marcelo Callado era melhor de conceito que de execução – ou mais hype que bala na agulha mesmo. Pode ter sido má vontade minha, ou simplesmente não ter me conectado com o som dos caras por algum motivo, mas este Fodido Demais, se não é tanto assim feito o título, é auspicioso: tem bastante experimentação, mas sem perda do controle. Peso, melodia, bom humor, mau humor, sujeira, limpeza, tensão relaxamento. E tudo, ainda assim, muito pop, trampado e redondo.
Ouça: Fodido Demais



Frágeis Como Flores (Phillip Long)
Nosso "prolífico Elliott Smith de Araras (SP)", como eu mesmo o chamei na lista do ano passado, lançou dois discos em 2017, e escolho este por ser mais pop rock oitentista (notadamente Legião Urbana) e menos acústico que os demais, dando uma diferenciada do que já ouvi dele. No mais, não tem erro: beleza e melancolia para tardes de sábado garoentas.
Ouça: As Horas


Galanga Livre (Rincón Sapiência)
Rincón, que vinha lançando singles desde 2009, sem me chamar a atenção em nenhum deles, vem surpreendentemente (pelo menos pra mim) poderoso e preciso neste debute: bases tradicionais de rap, levadas afro, batidas funk, pegada rock, tudo evitando ao mesmo tempo algum anacronismo 1990s e a frouxidão de muito do rap atual. Ainda que a segunda parte perca um pouco em impacto, é o melhor disco nacional de rap que ouvi neste ano, de longe.
Ouça: Crime Bárbaro




Japanese Food
(Giovani Cidreira)

Com uma desenvoltura (e voz limpa/feminina) à la Guilherme Eddino (que liderou a lista de 2015), o baiano Giovani passeia por pop antigo e moderno, mpb e pós-punk, sempre com muita propriedade e sem perder a veia pop ou a coesão. Reserve tempo para absorver as muitas ideias que passeiam pelo disco, em meio a guitarras, baterias, sintetizadores e saxofones ruidosos, e se divirta bastante (relevando a capa tosca).
Ouça: Um Capoeira



Tempo Dos Mestres
(Fabiano do Nascimento)

Se você gosta de Edu Lobo, Baden-Powell, Milton Nascimento na fase Milagre Dos Peixes, Egberto Gismonti e dos discos instrumentais do Tom Jobim, este disco é pra você: violões com ótima timbragem percorrendo paisagens como sertões, caatingas e cerrados, sempre em clima épico, com direito a releituras de Brasileirinho e Canto De Xangô. Tudo comandado pelo seguro violão de sete cordas (e às vezes pela límpida voz) do carioca Fabiano.
Ouça: Oya Nana



Todas As Bandeiras
(Maglore)

Vale citar aqui o que escrevi sobre o disco anterior, III, que entrou na lista de melhores de 2015: “Maglore vem com o setentão III, disco muito bonito, ainda que derrape nos vocais loshermanísticos em muitas partes (quando isso não acontece, são os pontos altos do disco”. Felizmente isso aconteceu, e os vocais neste disco estão mais próximos de Los Porongas do que dos infames barbudos cariocas. As músicas são um pouco parecidas demais umas com as outras, em questão de levadas e timbres, mas, de repente, pode-se dizer que é sinal de unidade, certeza, coesão. Enfim, estão melhorando a cada disco, e este já é bem agradável de ouvir, sem ranços.
Ouça: Clonazepam 2 mg


Deu pra perceber, pelos textos e pelas escolhas, que minha preferência é pelas experimentações que não perdem o foco da canção, né. Não importa o que o artista faça em disco, aonde vá, o que misture, o resultado precisa parece mais que uma colagem de ideias.

O próximo post é sobre a lista de discos internacionais, até daqui a pouco!

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Comum no seu tempo


_Belchior, hoje você tem uma chance única na vida, hein?

_É? Qual?

_Ser a primeira pessoa a me dar feliz aniversário!



Quando ouvi Belchior pela primeira vez, meu irmão tinha comprado uma coletânea bem fuleira do Bigode, achei tudo muito estranho. Até então, o artista pra mim era só um cara de bigode cafona que cantava, com voz engraçada, sobre segurar na mão de alguém durante um voo.

Não conhecia ninguém que gostasse – em eras pré-internet, era difícil ter amigos mais velhos que nos mostrassem coisas de MPB, e tal estilo nunca foi vigente em minha família –, e a internet, um território em que era bem difícil achar informações sobre qualquer coisa, uma vez que, antes do Google, os mecanismos de busca eram tão ruins que se ninguém te passasse o endereço do site você dificilmente conseguiria encontrá-lo.

Então só restavam coletâneas toscas mesmo, uma vez que nem a discografia do Belchior estava em catálogo (apenas o irregular Bahiuno, de 1993); ficávamos à mercê de músicas soltas, descontextualizadas, a granel.

Porém, a primeira música da coletânea já era Como Nossos Pais, e já achei tudo incrível: aquilo sim era uma interpretação condizente com a música – melancólica, desesperançosa, em tom menor. E fui descobrindo que o Bigode tinha outros tantos hits – Paralelas, Velha Roupa Colorida – todas famosas por versões sempre aquém das originais.

Virei fã, convenci um ou outro amigo de que aquilo era sensacional – uma MPB roqueira, vigorosa, mas sem as caricaturas raulseixianas, e muito menos hermético que Zé Ramalho (Alceu Valença eu viria a conhecer depois), fui descolando outras coletâneas de qualidade duvidosa, até que surgiu a oportunidade de vê-lo ao vivo.

Teatro TBC, na Bela Vista. Uma sexta-feira mais fria para o que de costume para um final de novembro. Show em uma sala pequena, pelo que me lembro, mas bem aconchegante. Sala não totalmente cheia, porém, com bom público. Só eu e um amigo com menos de 40 anos no recinto.

Não sabia o que esperar, se tinha disco novo, se era show com banda, se era mais acústico, se tocava hit, se tocava lado B, se ele falava ou não falava entre uma música e outra... nada. Pura expectativa. E o show ainda atrasou bastante. Ficávamos brincando, pra disfarçar a ansiedade, que ele vinha de ônibus e tinha perdido a baldeação no Terminal Sacomã, coisa e tal.

Por fim o show começou, e era com banda, formação e arranjos de pop rock, menos folk dylanesco que nos discos, com peso balanceado e duas guitarras. Não me lembro de ele falar nada durante as músicas, mas andava com leveza (e certa timidez) de um lado pro outro do palco, com gestos quase femininos de tanta finesse.

Fim de show, tinha uma coletânea oficial sendo lançada (na verdade as músicas foram regravadas, e com arranjos bem ruins, só gosto da versão de Pequeno Perfil De Um Cidadão Comum). Já passava de meia-noite, portanto eu já estava aniversariando. Ah, vamos lá comprar o disco, né. CDzinho (duplo) adquirido, fui lá pegar autógrafo – na verdade nem fazia muita questão, era mais pra conversar com ele mesmo.

_Pois feliz aniversário, então! Está fazendo quantos anos?

_Vinte.

_Ah, meus vinte anos!


Fico feliz de que, além de quem era meu amigo na época e quem gostava de Engenheiros do Hawaii (que gravou Alucinação em 1997), hoje ele tenha o devido reconhecimento por parte da minha geração e dos mais jovens, e até quem é mais velho possa falar que curte sem ouvir muxoxos em troca. Hoje tem bem mais coisa do o catálogo na internet, incluindo remasterizações feitas por Charles Gavin.

Apertou minhas mãos e deu um sorriso de tiozão saudoso. Um tiozão baixinho, de cabeça grande, cabelos grandes e bem cuidados, bigode milimetricamente aparado, talvez um chapéu, certamente botas, e um colete sobre a camisa.

Dei uma reclamadinha que ele não havia tocado Coração Selvagem, para corrigir em seguida que foi melhor não tê-la tocado mesmo, visto que andava sendo a trilha sonora do coração em cacos de quem havia levado pé na bunda da primeira namorada.

Depois disso o vi ao vivo mais umas três ou quatro vezes, na década seguinte, em formato acústico, sem lançar mais discos, e já sem o mesmo encanto da primeira vez. Belchior, sempre desapegado, com seus suspiros de saudade da juventude, de quem parecia sempre incompleto em seus caminhos, em busca de outras venturas, alma de alguém muito culto e refinado em busca de simplicidade, já havia me ensinado que nós, as coisas, os sonhos e as pessoas estamos sempre deixando e sendo deixados para trás.

Que ele tenha encontrado o mundo inteiro em alguma estrada qualquer.

Obrigado por tudo, Bigode.