quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Caetano Veloso em sessenta canções

É Proibido Proibir (versão de estúdio e versão do festival de 1968): cansado da patrulha ideológica da esquerda, mais do que da repressão da direita, Caetano aproveita para sabotar o 3° Festival Internacional da Canção (FIC), da TV Globo, no Teatro da PUC num discurso furioso e antológico.

Vida Boa (do disco Prenda Minha, de 1999; cover de Armandinho e Fausto Nilo): o que originalmente era um frevo eletrificado tornou-se um samba-frevo-gafieira carnavalesco que levanta até defunto.

A Voz Do Morto (ao vivo com Os Mutantes num compacto de 1967): canção inédita só lançada nesse compacto ao vivo. “Eles querem guardar as glórias nacionais... coitados!”

Acrilírico (Caetano Veloso, 1969): incursão pelo experimentalismo de colagens à la Revolution #9 (Beatles) e uma letra inspirada no concretismo. Originalmente a letra diria “Santo Amargo da Putrificação”, mas Caê temeu que sua mãe, Dona Cano (que, aliás, fez 100 anos semana passada), toda católica, ficasse chateada. Ah, e entre os ruídos da canção, tem participação de Gilberto Gil e até uma flatulência do maestro Rogério Duprat.

Alegria, Alegria (versão do Barra 69 Ao Vivo para a canção do Caetano Veloso, de 1967): além da canção que inaugurou a linguagem pop (de colagens do cotidiano, fragmentadas – o título era um bordão de Wilson Simonal) no Brasil, essa versão do último show de Caê e Gil antes do exílio faz parte de um medley com o hino do Esporte Clube Bahia (que era comumente tocado em trios elétricos e, dizem, cantado até por torcedores do Vitória, por causa de seu forte refrão) e a inédita Aquele Abraço; como era proibida qualquer menção à prisão ou ao exílio, restava o recado poético.

Araçá Azul (Araçá Azul, 1974): canção que encerra o disco homônimo, é uma das mais climáticas e menos experimentais; o araçá (goiaba) azul vem de um sonho que Caetano teve, no qual Bethânia estava trepada em uma árvore, devorando esse estranho fruto. Quanto a letra, o ateu Caetano diz que “com fé em Deus, não vai morrer tão cedo”. Ironia ou apenas lirismo impessoal?

Atrás Do Trio Elétrico (versão do Barra 69 Ao Vivo para a canção de Caetano Veloso, do mesmo ano): a música que fez os trios elétricos ficarem famosos no Brasil inteiro; homenagem de Caê ao talento pioneiro de Armandinho, Dodô e Osmar, com a pegada roqueira de um jovem Pepeu Gomes (com 14 anos) na guitarra.

Cajuína (Cinema Transcendental, 1979): quando o poeta piauiense e tropicalista Torquato Neto cometeu suicídio, em 1972, Caetano foi a Teresina e, de um encontro com o pai do falecido, regado a suco de caju, saiu essa conversa filosófica (um forró/xaxado existencialista?) e uma rosa de presente.

Cambalache (Caetano Veloso, 1969 – canção de E. S. Discépolo): Caetano encara qualquer ritmo em qualquer língua, inclusive esse tango de letra mais-que-ácida.

Canto Do Povo De Um Lugar (Jóia, 1975): talvez a canção mais convencional (tirando a cover beatle) deste disco que é tão experimental nas letras (seguindo a estética de Oswald de Andrade – cubofuturismo, poema-pílula, pema-piada – inclusive com um poema seu musicado no fim do disco) quanto Araçá Azul é na sonoridade (Jóia já é basicamente voz & violão).

Chuvas De Verão (Caetano Veloso, 1969 – canção de Fernando Lobo): tristíssima canção do irmão de Edu Lobo, bem ao estilo dos velhos sambas despedaça-coração. Caetano canta-a com verdadeira dor na voz.

Cinema Olympia (Barra 69 Ao Vivo): versão ao vivo da canção (gravada por Gal Costa) sobre um antigo cinema de Belém do Pará (hoje extinto).

Cobra-Coral (versão do Noites Do Norte Ao Vivo, de 2001, para a canção do Noites Do Norte, de 2000): parceria com Wally Salomão (obrigado ao Daniel pela correção), esta bela canção é cantada ao vivo com Lulu Santos, no dia do aniversário de Caetano. Seria a formosa e colorida serpente da canção uma mulher insinuante?

Ela Ela (Circuladô, 1991): estranha vinheta com guitarras nada melódicas fazendo ruído e uma letra com referências a lesbianismo.

Ele Me Deu Um Beijo Na Boca (Cores, Nomes, 1982): conversa filosófica de Caê eu seu pai, incluindo religião, existencialismo e citações do enigmático poeta maranhense Sousândrade.

Épico (Araçá Azul, de 1974): dá-lhe experimentalismo... início climático como uma trilha sonora, até que Caetano entra cantando, entre sons ambientes de pessoas e carros, cantando como uma velha lavadeira nordestina, fala de Hermeto (Pascoal) e (Walter) Smetak (músicos vanguardistas)... e Muzak (música ambiente para elevadores), segue com colagens sonoras e poéticas, falando sobre a vida conturbada e poluída em São Paulo, complicada especialmente como um nordestino – seria o épico de cada retirante no Brasil, por isso os sons ambientes e a trilha cinematográfica imponente – até arrematar com os geniais versos “Destino eu faço não peço / Tenho direito ao avesso / Botei todos os fracassos / Nas paradas de sucessos”. E tudo é engolido por uma barulheira claustrofóbica à la A Day In The Life, dos Beatles).

Eu E Ela Estávamos Ali Encostados Na Parede (Doces Bárbaros, 1967 – parceria com Gil): “E sem perceber a chegada da paz, nós dois estávamos alojados dentro dela.”

Eu Quero Essa Mulher (Araçá Azul, 1973 – canção de Monsueto Menezes, Lanny, e José Batista): pesada e estridente, talvez a mais barulhenta que Caetano já gravou.

Eu Sou Neguinha (Caetano, 1987): enigmática canção com toques de reggae; seria uma descrição das mil faces e possibilidades não só de Caê, mas de todas as pessoas?

For No One (Qualquer Coisa, 1975 – canção de Lennon & McCartney): neste disco, lançado simultaneamente com Jóia (era pra ser duplo, mas a gravadora não deixou), também calcado uma sonoridade acústica, porém recheada de covers, traz esta canção de onde Caê tirou parte da melodia de Superbacana. Repare na letra, a melhor que Sir McCartney já fez.

Fora Da Ordem (Circuladô, 1991): auto-explicativa... “Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína”. Pessoas incompletas num país incompleto.

Haiti (versão do Noites Do Norte Ao Vivo, de 2001, para a canção do Tropicália 2, de 1992): com toques de rap, esta pesada canção deve ser o mais certeiro relato sobre a degradação da nossa sociedade, desde sempre até hoje. Não deixe de notar a construção cinematográfica das imagens “do alto da Fundação Casa de Jorge Amado”.

Help! (Jóia, 1975 – canção de Lennon & McCartney): a delicada e melancólica versão nos faz atentar para a triste letra de Lennon. Só não sei porque justamente essa canção no concretista Jóia.

If You Hold A Stone (Transa, 1972): quando em 1969 Caetano adaptou a canção de domínio público Marinheiro Só, nem devia imaginar que a citaria novamente aqui, com mais propriedade (“Não sou daqui, eu não tenho amor, eu sou da Bahia de São Salvador”) enquanto exilado do outro lado do Atlântico.

In The Hot Sun Of A Christmas Day (Caetano Veloso, 1971): assim como em London London, a beleza de Londres – que ele consegue ver, mas não sentir – deixa-o ainda mais triste e só.

Irene (Caetano Veloso, 1969) com um clima de “ao vivo no estúdio” (com direito a falsos começos e brincadeiras de Gil) e um palíndromo ocasional (“Irene ri” – que Caetano só percebeu quando alertado pelos irmãos concretistas de Campos), Caê homenageou uma de suas irmãs nesta canção.

It’s A Long Way (Transa, 1972): seguindo a gíria da época, o importante aqui é “transar” um som, curtir; por isso a mistura de ritmos, a gravação com cara de “ao vivo” e as letras que vão costurando trechos inéditos, citações de hits brasileiros e internacionais e até colagens de cantigas de domínio público.

La Flor De La Canela (Qualquer Coisa, 1975 – canção de Chabuca Granda): talvez a única canção peruana conhecida no Brasil além de El Condor Pása (famosa na versão de Simon & Garfunkel).

Lady Madonna (Qualquer Coisa, 1975 – canção de Lennon & McCartney): mais uma cover do Fab Four, personalíssima como sempre.

Língua (Noites Do Norte Ao Vivo, de 2001, para a canção do Velô, de 1984): o primeiro samba-rap brasileiro (quem é Marcelo D2?), com letra absolutamente genial e inventiva e, graças a Zeus, sem a irritante presença de Elza Soares, que canta o refrão na versão de estúdio. Ah, e sim, “Hollywood” quer dizer “Azevedo” mesmo... e a "Holanda" do Chico Buarque está com um “L” só porque é menção à peça buarquiana Calabar, na qual o protagonista (personagem real da nossa História) “trai a pátria” e luta do lado dos holandeses no Nordeste.

London London (Caetano Veloso, 1971): Caetano deprimido e só no exílio londrino, triste porém com esperança no futuro... e a mais bela aliteração em língua inglesa já feita (“Green grass blue eyes grey sky God bless silent pain and hapiness”).

Lua Lua Lua Lua (Jóia, 1975): delicada e singela ode ao nosso satélite – tema caro a poetas de todas as gerações.

Marcianita (ao vivo com Os Mutantes num compacto de 1967 – cover de J.I.Marcone e G.V.Aldreto): clássico trash da Jovem Guarda e regravada por meio mundo até hoje; repare na declamação nonsense que Caê no final, com direito a menção até ao famoso “caso das máscaras de chumbo”.

Maria Bethânia (Caetano Veloso, 1971): uma carta para a irmã, pedindo força e querendo notícias do Brasil.

Maria Bethânia (Caetano Veloso E Maria Bethânia Ao Vivo, de 1979 – canção de Capiba): esta o próprio Caetano explica... "Pouco antes de eu completar quatro anos de idade, nasceu nossa irmã mais nova, para quem eu escolhera o nome de Maria Bethânia, por causa de uma bela valsa do compositor pernambucano Capiba, que começava com estas linhas majestosas e, à época, indecifráveis para mim: "Maria Bethânia, tu és para mim/ a senhora do engenho", e era grande sucesso na segunda metade da década de 40, na voz potente de Nelson Gonçalves. Naturalmente todos achavam graça no fato de eu saber cantar canções de gente grande, e mais ainda na minha determinação de nomear minha irmãzinha segundo uma dessas canções. Mas ninguém se sentia com coragem de realmente pôr esse nome "tão pesado" num bebê. Como havia várias outras sugestões (iam de Cristina a Gislaine), meu pai resolveu escrever todos os nomes em pedacinhos de papel que, depois de dobrados, ele jogou na copa de meu pequeno chapéu de explorador e me deu para tirar na sorte. Saiu o da minha escolha. Meu pai então pôs um ar resignado (que era uma ordem para que todos também se resignassem) e disse: "Pronto. Agora tem que ser Maria Bethânia". E saiu para registrar a recém-nascida com esse nome. Recentemente, ouvi de minhas irmãs mais velhas uma versão que diz que meu pai escrevera Maria Bethânia em todos os papéis. Não é de todo improvável. E, de fato, na expressão resignada de meu pai era visível - ainda hoje o é, na lembrança - um intrigante toque de humor. Mas, embora me encha ele orgulho o pensamento de que meu pai possa ter trapaceado para me agradar, eu sempre preferi crer na autenticidade do sorteio: essa intervenção do acaso parece conferir mais realidade a tudo o que veio a se passar desde então, pois ela faz crescerem ao mesmo tempo as magias (que nos dão a impressão de se excluírem mutuamente) do presságio e da unicidade absolutamente gratuita de cada acontecimento."

Minhas Lágrimas (, de 2006): a primeira das três mais belas canções feitas sobre o fim do casamento com Paula Lavigne, no disco quase inteiramente dedicado a isso.

Mora Na Filosofia (Transa, 1972 – canção de Monsueto Menezes e Arnaldo Passos): este clássico da música brasileira ganha aqui uma versão climática, densa, tensa e pesada.

Não Me Arrependo (do disco , de 2006): a segunda das três mais belas canções feitas sobre o fim do casamento com Paula Lavigne.

Neolithic Man (Transa, 1972): a mais convencional canção, pelo menso liricamente, deste disco, é um legítimo blues-rock em forma de vinheta.

Nicinha (Qualquer Coisa, 1975): delicada vinheta para outra irmã de Caetano.

Nine Out Of Ten (Transa, 1972): provavelmente a primeira vez em que se ouviram acordes de reggae no Brasil (na música, ele desce a Portobello Road, em Londres, ao som desse ritmo). Atualmente, de volta ao setlist, ela é acrescida de toques de rock e ska.

No Dia Em Que Eu Vim-Me Embora (Caetano Veloso, de 1967): inventiva e paródica na estrutura melódica, própria dos primórdios tropicalistas, a letra, que começa um tanto irônica, termina melancólica, num retrato da solidão e dos temores juvenis de Caetano indo do interior à capital da Bahia.

Nostalgia (Transa, 1972): assim como em It’s A Long Way, seguindo a gíria da época, o importante aqui é “transar” um som, curtir; por isso a mistura de ritmos, a gravação com cara de “ao vivo” e as letras que vão costurando trechos inéditos, citações de hits brasileiros e internacionais e até colagens de cantigas de domínio público.

O Cu Do Mundo (Circuladô, 1991): a violência urbana, especialmente o ato do linchamento – crime punido, sem julgamento, com outro crime –, como ápice da degradação humana.

O Quereres (versão ao vivo do Totalmente Demais, de 1986, para a canção do Velô, 1984): não há tema batido nem esgotado quando falamos de um gênio como Caetano; nesta impecável letra, a eterna luta entre querer e não querer alguém , poder e não poder ficar com uma pessoa... a “bruta flor do querer”.

Onde Andarás (Caetano Veloso, 1967): segunda canção tropicalista, de quando Caê foi tentar a vida no Rio de Janeiro, traz imagens de lugares como Ipanema, um clima de tristeza bossanovista no início e no final; no meio, paródia a cantores de “grande voz”como Orlando Silva.

Oração Ao Tempo (Cinema Transcendental, 1979): um ode ao tempo, da fase hippie tardia de Caetano, de volta do exílio havia já alguns anos, pós "milagre econômico" e pós fiasco do "milagre", e sabendo que a Ditadura não era uma invasão alienígena, mas uma manifestação, infelizmente, do desejo de parte da população.

Os Argonautas (Caetano Veloso, 1969): mais um gênero interpretado com propriedade por Caê – o fado, com direito a citação Pessoana e sotaque português (homenagem e paródia ao mesmo tempo, sempre) no refrão.

Outro (, de 2006): a terceira das três mais belas canções feitas sobre o fim do casamento com Paula Lavigne.

Paisagem Útil (Caetano Veloso, 1967): primeira canção tropicalista, de quando Caê foi tentar a vida no Rio de Janeiro, é uma lenta marchinha com arranjo onipresente de cordas e uma bela visão do Aterro do Flamengo, porém com a visão (própria da Tropicália) ao mesmo tempo reverente e crítica da modernização tardia do Brasil, incluindo uma paródia à voz de cantores como Orlando Silva.

Pipoca Moderna (Jóia, 1975 – canção da Banda De Pífanos De Caruaru, letra de Caetano): já gravada na versão instrumental por Gil no Expresso 2222, uns três anos antes, com a própria tosca banda de pífanos, aparece aqui em versão mais delicada e com letra (nonsense).

Shoot Me Dead (Caetano Veloso, 1971): samba-blues acústico, uma mistura que só Caetano poderia fazer dar certo.

Sugar Cane Fields Forever (Araçá Azul, de 1974): além da óbvia paródia a Strawberry Fields Forever, dos Beatles (cinco anos depois haveria outra paródia, Chuckberry Fields Forever, no disco Doces Bárbaros), tem a folclórica Dona Edith do Prato e sua voz, digamos, peculiar.

Superbacana (versão do Barra 69 Ao Vivo para a canção do Caetano Veloso, de 1967): além da já mencionada citação a For No One, dos Beatles, esta canção de ar lúdico e ensolarado, quase infantil, faz um retrato de uma sociedade jeca metida a modernizada, onde todos os produtos, como Supervicky e Super-Hist, tinham grandes adjetivos.

Tigresa (versão do Noites Do Norte Ao Vivo, de 2001, para a canção do Bicho, de 1977): homenagem a Sônia Braga e crítica à geração “engajada” que tanto o patrulhou e criticou nos 1960s e, na década seguinte, entregou-se à “descerebrada” discoteca, em voga na época (“Frenetic Dancin’ Days” era a danceteria, no Morro da Urca, de propriedade do jornalista-forrest-gump Nélson Motta).

Trem Das Cores (Cores, Nomes, 1982): letra das mais geniais – uma singela viagem de trem pelo interior de algum lugar retratada unicamente pelas memórias das cores. Inigualável.

Tropicália (versão do Noites Do Norte Ao Vivo, de 2001, para a canção do Caetano Veloso, de 1967): com nome de instalação do artista plástico Hélio Oiticica, é, digamos, o manifesto do movimento, com sua relação e seu confronto de tudo que o país tinha e tem de urbano e rural, moderno e atrasado, incluindo menções ao filme Viva Maria (de Louis Malle), à canção A Banda, de Chico, ao movimento dadaísta, ao subgênero musical “fossa” e ao programa O Fino da Bossa. O movimento tropicalista ao mesmo tempo parodiava e homenageava tudo isso, pois sabia-se inserido no contexto.

Tu Me Acostumbraste (Araçá Azul, de 1974 – canção de F. Dominguez): num disco tão radical que ganhou o rótulo de campeão de devoluções nas lojas e foi retirado de catálogo por 13 anos, até a canção mais “bonitinha” teria que ser anarquizada, gravada com qualidade ruim e com Caê arriscando cantar uma oitava acima na segunda parte. Mesmo assim, dilacerante de tão bela.

Um Índio (versão do Circuladô Vivo, de 1992, para a canção originalmente no Doces Bárbaros, de 1976 – na voz de Bethânia, e no Bicho, de 1977): o índio representando uma tomada de consciência do povo brasileiro para uma nova e esperançosa realidade, um “novo aeon”.

You Don’t Know Me (Transa, 1972): tal como em Nostalgia e It’s A Long Way, seguindo a gíria da época, o importante aqui é “transar” um som, curtir; por isso a mistura de ritmos, a gravação com cara de “ao vivo” e as letras que vão costurando trechos inéditos, citações de hits brasileiros e internacionais e até colagens de cantigas de domínio público.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Eternidades da semana

Semana de Renan Encalheiros: a mídia, que virou mesmo partido político, fez de tudo, com seu agenda setting descarado, para lobotomizar a opinião pública (hein?) grudando a absolvição do já-culpado-antes-mesmo-de-julgado Renan, que, pra imprensa marrom-merda, virou petista de carteirinha. Enquanto isso em São Paulo, reduto dos “cansados” e do tucanato – além de reaças em geral –, temos choque de gestão nos transportes, na saúde, e na alimentação (choque “digestão”?). Enquanto isso, na Sala de Justiça mesmo que não deixem o homem trabalhar, ele trabalha. E dá trabalho. Ta certo que há notícias tristes, mas, no final, tudo vai melhorar.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Nada fácil, cara.

Não é fácil ser turista em São Paulo. Nem paulistano em São Paulo. Nem filha do Camus. Nem Lygia. Nem suicida.

Sem Deus, sem lei.

Cazaquistão sem lei. Estradas sem lei. Bélgica sem lei. Deus sem lei. Guiné-Bissau sem lei. Eutanásia sem lei. Vítimas do Césio sem lei. "Bob Dylan" sem lei. CPIs sem lei. Mídia (cada vez mais) golpista sem lei, nenhuma lei.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Eternidades da semana

José Dirceu vira réu em processo por formação de quadrilha (com mais 37 réus). Mas... existiu mesmo o tal mensalão? Vejamos o que os insuspeitos Luis Nassif, Mino Carta e Paulo Henrique Amorim têm a dizer sobre isso. Ah, e por que não dar voz ao próprio ?

O Dentinho Malcriado, de Jane Carruth, foi o segundo livro que li, lá pelos idos de 1981 (o primeiro foi A Nova Casa De Bebeto). Agora Heloísa Helena protagoniza, em vídeo, a esperada (?) continuação da saga: O Pivozão Fujão. Desde já um sucesso!

Post-Script: seiscentos carros novos por dias em São Paulo & Lula versus FHC.

PS do PS: e pensar que vocês têm o Superbacana de graça... vou começar a cobrar.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Tô cansado de me cansar.

O tal “Cansei”, que juntou com o “Fora Lula”, o acidente da TAM e, sei lá, os terremotos no Peru, foram uma coisa tão chacoteira que nem a Folha de S. Paulo comprou a idéia. Restaram a Veja, os reaças de internet, o PSDB e umas semicelebridades de sei lá o quê, daquelas que caducam em horário nobre ou gravam DVD no Maracanã às moscas. A seguir, um compacto com os melhores (?) momentos.

Infelizmente, os "esquerdistas millitantes de internet", que, tais e quais os "ateus militantes", são apenas reaças crentões de sinal trocado, deram excessivo cartaz a essaa bobagem so que trouxe risos e nada mais (obrigado Deborah). Mas enfim...

Estas tias tão mesmo cansadas. Mas vão se cansar em outro lugar! O Piauí e a Philips, parte I, parte II e parte III. E dá-lhe cansaço aqui, aqui e aqui. Mensalão (o original, não aceite imitações): não se cansam de roubar? Este não cansa de caducar: em inglês, FHC não diz besteira; já aqui no Brasil... falando nisso, Veja quanta bobagem. O Brasil acabou ou foi só o bom senso? E Deus... existe?

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo daqueles que velam pela alegria do mundo.

Os paulistas "cansados" não aprendem mesmo.

Será que os “cansados” se lembram disto?

Será que os “cansados” vão protestar? A casa caiu (literalmente) e continua caindo. E agora José?

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Só sei que não vou por aí.

Ignoro o acidente da TAM (devem ter sido os urubus da imprensa que voaram pra dentro da turbina e causaram o acidente) – a imprensa marrom-merda e seus jornalistas-carniceiros fazendo uso político de um acidente que não mata mais do que morre de preto pobre a cada final de semana na pariferia –, assim como ignoro o PAN (rebarba do esporte cucaracha, visto que EUA e Canadá mandam os times C) – o ufanismo em acompanhar esportes que o povo normalmente ignora, como handebol, pelota basca, badminton e críquete – e ignorei o papa (legítimo King Nothing) num país que há muito já não é católico.

terça-feira, 17 de julho de 2007

Pálido ponto azul

"Vivemos com o baralho viciado contra nós, e depois morremos: é só isso? Nada a não ser um sono sem sonhos e sem fim? Onde é que está a justiça nisso tudo? É desolador, brutal, impiedoso. Não deveríamos ter uma segunda chance numa arena nivelada? (...) Assim seria, se o mundo fosse ideado, pré-planejado, justo. Assim seria, se os que sofrem com a dor e o tormento recebessem o consolo que merecem. E, se o mundo não corresponde em todos os aspectos a nossos desejos, isso é culpa da ciência ou dos que querem impor a sua vontade ao mundo?”

O Mundo Assombrado Pelos Demônios. Dei-me este livro de presente no Natal de 2002. Tá, eu nem gosto dessas datas comemorativas, mas são ótimas desculpas para presentear pessoas queridas (isso me inclui – às vezes). Lembro-me de tê-lo comprado, acompanhado de uma amiga, na Saraiva do Shopping Paulista, junto com O Paraíso Perdido, de John Milton. Eu já namorava o livro do Carl Sagan (e mesmo sem conhecer tanto o autor, já nutria grande admiração por seu trabalho de divulgação científica) havia tempos, desde que fora lançado aqui, um pouco antes do meio da década de 1990. Recordo-me também de estar no último ano do Ensino Médio (na Federal significava o quarto ano), 1998, e uma amiga do primeiro ano (ensino “normal”) mostrá-lo como leitura obrigatória para nota, dada por um professor de Física. Mesmo sem não tê-lo lido até então, e mesmo com relativa pouca idade, me animou e estimulou o fato de que houvesse docentes preocupados não só com passar transparências, dar provas, fazer chamadas e ir logo tomar café na sala dos professores, mas sim em também formar cidadãos conscientes. Porém, não sei ao certo o motivo, só fui adquirir a obra (por conta própria, como já dito) quatro anos depois.

Lembro de começar a lê-lo num dia qualquer, chuvoso, meio de semana, rumo a Avenida Paulista, ao encontro com outra amiga. Caminho longo, a leitura começou a fluir.

À época, eu estava perdido entre o panteísmo e o deísmo e, mesmo tendo sempre gostado de Física e ciências em geral, não fazia idéia do quão fascinante aquilo podia ser e, mais que isso, prático e útil para nossa vida cotidiana e para a existência humana.

Este livro é tão revelador e educativo que deveria ser considerado leitura obrigatória para estudantes do Ensino Médio, como o tal professor (que nem conheço) fez com a turma da minha amiga da Federal.

Cristais, astrologia, profecias, santas que choram, abduções por extraterrestres, entortadores de colheres... enfim, todo tipo de charlatanismo é dizimado impiedosamente pelo autor ao longo do livro, numa defesa apaixonada e sincera da Ciência, da racionalidade, da coerência, enfim, de “deixar a cabeça aberta mas não a ponto de o cérebro cair pra fora dela” como modo de vida. Compreendi que o pensamento científico é uma filosofia de vida.

Carl Sagan dedicou a vida não só a divulgar a Ciência para os leigos, mas para defender ideais dos quais precisamos cada vez mais, como a democratização do conhecimento e a formação do pensamento crítico não só nos adultos, mas desde a infância. Tudo para que consigamos manter a Terra um lugar habitável. Nós, uma espécie de macaco absurdamente arrogante e pretensiosa num planetinha na periferia de uma galáxia na periferia do Universo, um pálido ponto azul. Afinal "ninguém virá dos céus para nos salvar de nós mesmos".

Quando a Ciência é mal divulgada e mal compreendida, é recebida como algo chato e abstrato. Aí o que acontece: as crendices, superstições e pseudociências tornam-se ainda mais populares.

Carl Sagan nos mostra a importância do senso crítico e da racionalidade para a construção de uma sociedade democrática, pois conhecimento significa liberdade.

Eis o release da obra:

“Este livro é uma defesa apaixonada e apaixonante da ciência e da racionalidade humana. Carl Sagan, que não tem poupado esforços para divulgar os conhecimentos científicos de forma correta e clara, ataca o vírus do analfabetismo científico que faz, por exemplo, com que a maioria dos americanos pense que os dinossauros conviveram com os seres humanos e que desapareceram no Dilúvio porque não cabiam na Arca de Noé. Ou que acredite em explicações pseudocientíficas e ficções, do monstro de Loch Ness às estátuas lacrimejantes da Virgem Maria, do Abominável Homem das Neves ao poder das pirâmides e dos cristais, do Santo Sudário a terapias de vidas passadas, de anjos e demônios a seres extraterrestres que seqüestram e estupram. Para o autor de Pálido Ponto Azul, longe de serem inócuas, essas crenças e modismos podem causar danos terríveis; nos Estados Unidos pais inocentes estão sendo condenados em decorrência de falsas lembranças de abuso sexual de seus filhos, induzidas por terapeutas incompetentes. Da mesma forma, ele mostra que a crença nos argumentos de autoridade e o declínio da compreensão dos métodos da ciência prejudicam a capacidade de escolha política e põem em risco os valores da democracia.

Como todos os livros de Sagan, O mundo assombrado pelos demônios está cheio de informações surpreendentes, transmitidas com humor e graça. Seus ataques muitas vezes divertidos à falsa ciência, às concepções excêntricas e aos irracionalismos do momento são acompanhados por lembranças felizes da infância, quando seus pais o colocaram em contato pela primeira vez com os dois modelos de pensamento centrais para o método científico: o ceticismo e a admiração.

Para aqueles que vivem bombardeados diariamente pelos fenômenos "fantásticos" da vida, este livro funciona como um tratamento de desintoxicação. Mais que uma vela bruxeleante, trata-se de um jato de luz destinado a varrer os demônios do obscurantismo que pairam sobre nosso tempo.”


É, Carl Sagan faz falta.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Miséria traz tristeza e vice-versa.

Um em cada seis paulistanos vive em favela. Polícia do Rio mata 41 civis para cada policial morto.

"Cine xadrez" aproxima presos rivais no Rio. [Detentos de delegacia de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, têm projeto com cinema, música, literatura e poesia. Diferenças entre membros de facções rivais têm diminuído; na delegacia também há jornal feito pelos presos e biblioteca.]

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Mas pelo fato de ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio.

A morte anda tão viva, a vida anda pra trás. Mas só agora a mídia percebeu e a sociedade ficou na dúvida se fica indgnada ou não. E tem alguma coisa errada: não era pra gente ter medo dos "bandidos"?

Pena de morte para trabalhador que não aceitou tapa na cara. Um PM é preso a cada 25 horas no Rio. Ator de Malhação é acusado de espancar travestis e roubar prostituta. Jovem é preso após atear fogo em prostituta. Rio: funcionário de limpeza é espancado na Barra. Babá espanca e mata criança de três anos no Rio. Especialistas vêem risco de trauma e doença [para jovens e crianças do complexo do Alemão].

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Grandes (?) momentos do futéco

Edmundo levando nocaute de Zandoná
Flamengo 3 X 0 Velez Sarsfield – Supercopa de 1995
http://www.youtube.com/watch?v=lXnQwi--tHE

Diego sambando na pizza
São Paulo 3x2 Santos – Brasileirão de 2002
http://www.youtube.com/watch?v=vdxCw5aZjX8

Embaixadinhas do Edílson
Corinthians 3 x 0 palmeiras – Paulistão de 1999
http://www.youtube.com/watch?v=fo8BDn8atUI

Zidane nocauteando Materazzi
Itália 1 x 1 França – Copa de 2006 (Alemanha)
http://www.youtube.com/watch?v=7IE2JBaBSBk

Invasão corinthiana no Maracanã
Fluminense 1 x 1 Corinthians – Brasileirão de 1976
http://www.youtube.com/watch?v=FqfcNqa-TGc

Diego expulso na cobrança de pênaltis
Porto 0 x 0 Once Caldas – Mundial Interclubes 2004 (Tóquio)
http://www.youtube.com/watch?v=6wsdma8DL_A

Golaço contra do Oséas
Palmeiras 1 X 1 Corinthians – (Paulistão de 1998)
http://www.youtube.com/watch?v=wyunhU3Fcu8

Palermo perde três pênaltis na mesma partida
Côlombia 3 x 0 Argentina – Copa América de 1999 (Paraguai)
http://www.youtube.com/watch?v=UNg1L5LNIkg

Isso sim é fairplay (depois d’uma puta mancada)!
Ajax x ADO Den Haag (não achei mais dados)
http://www.youtube.com/watch?v=PstjMCBAMdU

Gol do juiz Aragão
Palmeiras 2 x 2 Santos – Paulistão de 1983
http://www.spiner.com.br/modules.php?name=News&file=article&sid=1005
http://www.museudosesportes.com.br/noticia.php?id=7119

Almir Pernambuquinho brigando contra todo o time do Bangu
Flamengo 0 x 3 Bangu – Cariocão de 1966
http://carrinhonoolho.blogspot.com/2004_02_01_archive.html#107785568176056211
http://www.museudosesportes.com.br/noticia.php?id=19284
http://www.gazetaesportiva.net/almanaque/futebol/almir/index.htm

Armando Marques errando a contagem dos pênaltis
Portuguesa 0 x 0 Santos – Paulistão de 1973
http://www.gazetaesportiva.net/album/1973/galeria.htm

terça-feira, 26 de junho de 2007

Stupid White Men

[ http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI1709317-EI5030,00.html ]
[ http://ponteaerearj.nominimo.com.br/?p=1542 ]

Cadê o cidadão de bem querendo justiça? Cadê as manchetes de jornal convocando ao linchamento? Cadê a indignação dos humanos direitos que defendem repressão policial e apartheid social? É culpa dos remédios? Da televisão? Cadê as passeatas pedindo paz, exigindo rigidez das autoridades? Cadê a mídia massacrando o espectador com detalhes sórdidos e discursos inflamados?

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Caia na estrada e perigas ver.

Brasil-sil-sil: sai daí, pobraiada! Eu disse sai daí! Senão vou te linchar! Cambada de bandido... hmpf.

Parada do orgulho desocupado. Parada do orgulho desonesto. A revista preferida dos reaças.

Relaxei, mas não gozei. Quem sabe de Aerotrem? Vai uma laranjada aí? Ou pelo menos um(a) vale docinha de volta...

quarta-feira, 13 de junho de 2007

O mais querido – Do Rio De Janeiro A Tóquio De Dezembro

[Campeonato Brasileiro de 1980]
Melhores momentos das primeiras fases
Final: Flamengo 3x2 Atlético Mineiro

[Taça Libertadores da América – 1981]

Time-base: Raul, Leandro, Figueiredo, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico (Técnico: Paulo César Carpeggiani).
Campanha: 14 jogos –9 vitórias, 4 empates e 1 derrota (28 gols pró e 13 contra).
Artilheiro da competição: Zico, com 11 gols.

[Primeira fase]
3/8 – Atlético Mineiro 2x2 Flamengo
14/8 – Flamengo 5x2 Cerro Porteño (PAR)
24/8 – Flamengo 1x1 Olimpia (PAR)
7/8 – Flamengo 2x2 Atlético Mineiro
11/8 – Cerro Porteño (PAR) 2x4 Flamengo
14/8 – Olimpia (PAR) 0x0 Flamengo
21/8 – Flamengo 0x0 Atlético Mineiro

[Segunda fase]
2/10 – Deportivo Cali (COL) 0x1 Flamengo
13/10 – Jorge Wilstermann (BOL) 1x2 Flamengo
23/10 – Flamengo 3x0 Deportivo Cali (COL)
30/10 – Flamengo 4x1 Jorge Wilstermann (BOL)

[Finais]
13/11 – Flamengo 2x1 Cobreloa
20/11 – Cobreloa 1x0 Flamengo
23/11 – Flamengo 2x0 Cobreloa

[Mundial Interclubes – 1981]
12/12 – Flamengo 3x0 Liverpool

[Bônus]
Flamengo 6x0 Botafogo (o jogo da vingança)
Flamengo 3x0Santos (final do Brasileirão de 1983, com 155.000 no Maracanã)
Esporte espetacular: 25 anos do Mundial

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Souvenirs

Conforme divulgado no site oficial da banda (e confirmado em seu myspace), Anneke van Giersbergen está deixando o The Gathering, rumo à carreira-solo.

Os motivos alegados, por ambas as partes, são os de sempre (e com a costumeira polidez): novos horizontes musicais, diferenças artísticas, vontade de mudar de ambiente, etc. Enquanto a moça já tem um novo projeto, a banda buscará outra vocalista e seguirá a carreira.

O que isso significa? Bem, pra música de massa no mundo todo e pro público médio consumidor de cultura pop, nada vai mudar. A banda tinha um estilo difícil de ser rotulado e não tinha grande base de fãs na maioria dos continentes. Mas, macrocosmo à parte, faz uma diferença desgraçada pra mim imaginar o mundo sem a combinação Anneke + The Gathering. Tá certo, ela não morreu, a banda não acabou, ambas as parte têm projetos e tudo seguirá com provável criatividade e qualidade. Além disso, as obras já concretizadas estão aí, por toda parte, prontas para serem ouvidas (eu mesmo tenho aqui todos os CDs, bootlegs e até um DVD duplo).

Mas é um pedaço de mim que fica para trás, sinal dos tempos, de que as coisas vão passando, mudando, acabando. A arte que abraçamos para que a vida nauseante e cheia de existência não nos destrua.

Nem parece que faz dez anos que ouvi Nighttime Birds pela primeira vez, num final de domingo, nas ondas da Brasil 2000 FM com o clássico Backstage (apresentado pelo gordo sem-graça Vitão Bonesso). Tempos em que a internet não servia pra quase nada e pra descobrir bandas novas só havia esse programa, as revistas (e os fanzines) especializados, os amigos lojistas da Galeria do Rock.

Lembro-me de, no sábado seguinte, ir a Galeria, pegar o CD e levá-lo assim que o mal-humorado lojista (mas gente-boa) colocou a primeira faixa pra tocar (On Most Surfaces).

Creio que há a possibilidade de eu ter ouvido Nighttime Birds numa coletânea da Century Media que veio como CD-bônus junto com o A Dead Poem, do Rotting Christ.

Talvez a música ouvida tenha sido Strange Machines (versão ao vivo). Mas não importa. Desde sempre era Anneke.

Importam as canções, o sentimento transcendental de abrir aquele encarte, com sua borboleta, seu tornado, suas folhas, pegar o CD cheio de constelações desenhadas e sair do corpo ao som de Kevin’s Telescope, minha predileta durante muito tempo, e cujo sabor especial se mantêm até hoje.

Valem – e muito – as vivências do final da adolescência que tiveram The Gathering como trilha sonora sentimental. Têm valor inestimável as pessoas relacionadas com as canções. E até a camiseta que mandei fazer com uma foto da Anneke. Tudo é válido.

The Gathering já existia antes dela (houve dois discos com vocal masculino, mais voltados ao doom-metal) e continuará daqui por diante (pelo menos o ótimo instrumental se manterá). Mas como imaginar outra pessoa cantando You Learn About It, Broken Glass ou In Motion #1?

Não era daquelas bandas pelas quais você faz campanha para que todas ouçam. Creio que não há como não gostar, mas, por outro lado, não consigo descrever o sentimento, o enlevo, às altitudes estelares a que as canções deles me levavam, levam e levarão.

Como toda relação, eu mudei, a banda mudou (de doom atmosférico até um rock alternativo psicodélico mas ainda doomy); estranhei a mudança, fiquei tempos sem ouvi-los, até compreendê-los. E carrego comigo a grande agonia de não tê-los visto ano passado aqui no Brasil, por falta de dinheiro.

Não pela vida ser como é, mas pelas coisas estarem como estão. Mas, em algum universo paralelo, eu fui ao show, e há um momento em que estou eternamente vendo-os e ouvindo-os ao vivo. A arte é perpétua, eterna, perene. Anneke, transcendental.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Mini-eternidades da semana

Chuchu já chega chuchuzando. Mandem-no pra China: escreveu, não leu, o pau comeu. Deviam tê-la dado um goró em . Já Marty tem crédito. Dercy não, mas acha que tem. Enquanto isso, eu (re)inauguro o monumento...

terça-feira, 5 de junho de 2007

No ar que se respira, nos gestos mais banais.

Enquanto até me perco no excesso de operações da Polícia Federal (Furacão, Navalha, Xeque-mate...) e ouço, dia e noite, em casa, nas ruas e na mídia, brados de ódio contra os políticos, penso no que eles diferem de nós, exceto quanto ao acesso às facilidades que o poder oferece. Dá a impressão que só ladrões se interessam pela carreira política, ou que algum vírus os contamina lá, coisa assim. Russomanos, Clodo_vis, Enéas (rest in Hell), Alans do Polegar, Cãezinhos dos Teclados e Agnaldos Timóteos vêm provavelmente de Marte, visto que ninguém nunca vota neles.

Homens honestos não entram pela política; preferem fraudar a previdência, adulterar combustível, comprar carta de motorista, jogar no Bicho, falsificar documentos (incluindo carteira de estudante), enganar tolos com seitas e livros de auto-ajuda, Burlar o rodízio de veículos, furtar material de escritório da empresa, adquirir muamba, ocupar o assento do idoso na condução, furar fila, jogar lixo no chão.

Não, não é o ser humano que naturalmente está corrompido pelo meio assim que traga pelas primeiras vezes os ares da nossa sociedade. Os políticos é que são o inferno.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Mini-reflexões vespertinas

Europeuzinho da Beija-Flor? / Nas próximas férias, cuidado com os brinquedinhos que vai levar. / Ganhe na mega-sena, perca amigos e não embolse o dinheiro. / Se não come apanha; se come, também. / Ah, se a moda pega aqui no Brasil (parte II). / Vai uma viagem turística a Jerusaguei aí? / Mil pintos a menos no país todos os anos. / Alguém receite Semancol a esse rapaz, por favor.

terça-feira, 29 de maio de 2007

Reflexões vespertinas

01. O papa tá dando mais gafes que Lula e Bush juntos.

02. Pena que a nossa espécie não está nesta nada honrosa lista.

03. Enquanto uns vendem a virgindade (da filha), outros pagam votos pagando boquete.

04. Olho por olho, dente por dente; ficaremos todos cegos e banguelas.

05. Até o Zé Dirceu entrou na campanha!

06. Serra e a crise da USP: nem a Folha agüenta mais o Super_Vampiro

07. Kassab e os factóides, apocalípticos e integrados

08. Não é só esgoto que fede no Tietê; a incompetência também.

09. Vergonha na cara?

10. O Brasil é o país do futuro, partes I e II

11. Esta moda podia pegar aqui.

12. Os maiores spamzeiros da galáxia.

13. Simulação com balas de verdade? Só no Brasil mesmo. Espero que não matem ninguém na reconstituição.

14. Esses teletubbies nunca me enganaram (nem aos poloneses). Resta aos gorduchos boiolas o refúgio e a vingança na Austrália.

15. Minas Gerais será a nova potência olímpica?

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Tempo tempo tempo tempo

"Se elas [as viagens no tempo] existissem, os cientistas do futuro já as teriam descoberto e nossa época estaria cheia de turistas do tempo." (Stephen Hawking)

Pela Teoria da Relatividade, o tempo é uma dimensão – na verdade um conjugado espaço-tempo, o qual a gravidade deforma em escalas enormes de energia.

Quando nos movemos, deformamos esse espaço-tempo com nossa massa, interagindo com a gravidade. Por exemplo: os planetas são mantidos em suas órbitas devido à força gravitacional, entendida como encurvamento do espaço-tempo produzido pela enorme massa do Sol.

Segundo Einstein, uma certa quantidade de massa, como a de uma estrela, pode curvar até um raio de luz que passe por perto. Como a velocidade da luz não pode mudar, é o tempo que se adapta às curvaturas da paisagem.

Quanto maior a velocidade, maior a deformação do espaço-tempo, como uma bola de boliche rolando sobre um colchão macio. Digamos que, nesse âmbito, a curva é a menor distância entre dos pontos, como um atalho.

Deformando a quarta dimensão, o tempo passará mais devagar para nós do que para o resto do Universo: um astronauta num foguete numa velocidade próxima à da luz voltará da viagem mais jovem do que os que ficaram na Terra. Tudo porque ele pegou esse atalho cósmico, atingindo mais espaço em menos tempo.

Não existe velocidade maior que a da luz. Por isso, se conseguíssemos atingi-la (o que geraria um campo de energia suficiente para criar um buraco negro), o tempo simplesmente pararia para nós: atingiríamos uma singularidade temporal.

Ainda que uma viagem no tempo só seja possível com velocidades próximas à da luz (o que, pela equação E = mc², demanda uma quantidade monstruosa de energia), o que, pelo menos atualmente, inviabiliza tal empreitada, o fato é que ela é teoricamente possível. Ou seja, se conseguirmos viajar ao futuro, ele estará lá nos esperando. Caso não possamos ainda, ele continuará lá, do mesmo jeito.

Veja só a problemática: o futuro é um lugar que já está lá, assim como o passado ainda persiste. Imagine o termpo não como um fluxo, mas como algo estático. Lembra daquele negócio de que o movimento de um corpo depende do referencial? Pois então, é isso. Assim como os espaços existem o tempo todo, assim também são os instantes. Para um observador fora do Universo (um deus, digamos assim) o tempo seria como um rolo de filme estático, cena a cena, o qual ele pudesse ver inteiro.

E como fica o livre-arbítrio nessa história?

Esqueça filmes como De Volta Para O Futuro e concentre-se no tema. Pela teoria einsteniana, só podemos viajar para o futuro, uma vez que a Teoria da Relatividade, por si só, não dá margem a enigmas dessa ordem, pois em termos clássicos ninguém pode ser transportado ao passado. Não importa se um astronauta passeia em alta velocidade ou visita objetos densos: na volta, ele estará mais jovem, comparado às pessoas que ficaram em casa. Portanto pode-se falar que o viajante retornou ao futuro dos seus familiares. Mas não faz sentido dizer que o reencontro se deu no passado do astronauta, já que, para ele, o tempo também passou no sentido único tradicional, sempre rumo ao futuro.

Com os hipotéticos buracos-de-minhoca poderíamos viajar também para o passado, ou mesmo ir ao futuro e voltar antes da partida, além de outras maluquices. Mas como é apenas um devaneio dos cientistas, pois nunca foi observado nada parecido com um desses túneis, vamos manter o foco nas viagens para o futuro.

Só cabe aqui um adendo, que talvez possa até se desdobrar numa futura postagem: viagens ao passado têm outro problema que não o do livre-arbítrio – os paradoxos (que também trataremos a seguir, nas viagens futurísticas). Você pode viajar ao passado e matar o próprio avô antes que você nasça (o famoso “paradoxo do vovô”)?

Visto que o tempo não é uma sucessão de eventos, mas uma única explosão harmônica, tudo já aconteceu (e acontece continuamente); logo não há livre-arbítrio, uma vez que seu eu de amanhã já está fazendo o que você ainda acha que nem decidiu (e pelo jeito, nem vai decidir mesmo). Seremos meros peões do joguinho cósmico?

A saída para isso é tão ou mais inusitada: segundo os preceitos da mecânica quântica, como o Princípio da Incerteza e o Gato de Schrödinger, uma partícula (subatômica) pode estar em qualquer lugar até que se tente observá-la, pois qualquer instrumento de medida que usarmos acabará interagindo com ela.

Por exemplo: incidimos sobre um elétron algum tipo de radiação. Neste caso, quanto menor for o comprimento de onda (maior freqüência) maior a precisão. Contudo maior será a energia cedida pela radiação (onda ou fóton, tanto faz) em virtude da Constante de Planck (relação entre energia e freqüência da radiação) e o elétron sofrerá um recuo tanto maior quanto maior for essa energia, em virtude do Efeito Compton. Como conseqüência, a velocidade sofrerá uma alteração não de todo previsível.

Isso foi meio complicado, eu sei. Mas continuemos. O importante é que esse conceito pode ser usado como mote para uma alternativa à predestinação cósmica: universos infinitos que já existem. O multiverso.

Imagine que, assim como uma partícula subatômica, exista a probabilidade de você tomar qualquer decisão. Uma vez que a decisão é tomada, sua posição se revela e você segue o rumo normalmente. Há infinitos universos paralelos para cada decisão que você toma ou poderia tomar. Enquanto neste universo você está lendo este blog, outros vocês nas realidades paralelas estão fazendo outras coisas quaisquer, como tomar banho ou dormir.

Assim nós pularíamos de universo em universo, sabe-se lá como, a cada decisão; e as escolhas não feitas continuariam existindo nas dimensões alternativas.

E então, o que é mais bizarro: imaginar que não temos livre-arbítrio ou que possuímos infinitos clones em infindáveis universos paralelos, um para cada escolha possível em cada momento? Dá pra imaginar a quantidade de universos para todas as decisões de todas as pessoas que já viveram, vivem e viverão no mundo? Será que existem universos alternativos para os outros animais? Ou é mais terrível imaginar que tanto faz o que você fizar agora ou depois, visto que já está tudo predeterminado e seu eu de amanhã já está sentindo os efeitos das decisões que você irá tomar (na verdade, já tomou) e nem sabe?

São situações-limite para a mente humana, pelo menos por ora. Como pensar num universo infinito (como é algo sem fim?) ou finito (o que tem depois do fim dele?); ou imaginar a matéria por si só (ou Deus) com atributos eternos ou algo antes da singularidade/criação.

De qualquer forma, é fato que seu eu de amanhã, seja ele um só ou uma multidão, já está sentindo os efeitos do que você faz hoje, incluindo uma eventual tomada de consciência após ler este texto. E se você fizer inúmeras viagens no tempo, seja ao passado ou ao futuro, encontrará um de você para cada instante.

Agora o que pode acontecer quando duas da mesma pessoa se encontram (seja no passado ou no futuro, confirmando-os ou alterando-os,) já é assunto para outro post, quem sabe um dia. Quem sabe a dificuldade para a realização das viagens não seja um “seguro contra paradoxos” do Universo?

Este assunto vai longe, muito longe. E você, o que me diz?

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Reflexões vespertinas

Passeata a favor dos bingos: achei que fossem os velhos bingueiros reclamando o direito de se divertir. Ou José Serra, que parece gostar muito da coisa.

Enquanto isso, o pessoal da USP tá só na mamata: um verdadeiro parque aquático com direito a tobogã e cachoeira, ambos indoor.

Já nossos pobres jornalistas estão sem água: banho, só de Lula. Ou de apuração. Ou de isenção. Ou de objetividade. Ou de honestidade. Ou de liberdade.

Mas o certo é que o trabalho enobrece o homem: quase 150 japoneses sendo demitidos da vida por karoshi nas empresas; é uma pratica profissional comum por lá. Afinal eles não são nem comunistas, nem terceiromundistas. Se ao menos eles fossem goleiros...

Já no Brasil o negócio é tratar bem a clientela: Xuxa já sabia disso desde os áureos tempos.

Mas bom de mídia mesmo é o Eduardo Suplicy: além de ter parido o Supla, ser corno-manso e mandar umas baladas, agora ataca com hip-hop. É vergonha alheia demais pr’uma pessoa só; vamos dividi-la com o Capitão Kirk.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Habemus Papam!

Os melhores momentos do papa, com a cobertura mais relevante e essencial, você só encontra aqui.

Núncio presenteia papa com CD independente e quase comete gafe religiosa. Ronaldo se diz emocionado com a visita do papa ao Brasil. "Fábrica de santos" mantém ritmo de João Paulo 2º. Centenas de jovens já estão no Pacaembu; "água benta" custa R$ 2. Cambistas vendem "convites" para ver o papa no Pacaembu por até R$ 160. Jovem chora e diz que Papa é 'fofinho'. Pérolas de Zé Simão. Frank Aguiar assiste à canonização de Frei Galvão. Jovens esperam papa com rock, olas e gritos de guerra. Seita ameaça fazer protesto contra o Papa no Pacaembu. Padre Marcelo Rossi é barrado no Campo de Marte. Kassab entrega chave da cidade ao Papa. ONG católica defende aborto e preservativo. Torcedor pede ao Papa para tirar Corinthians da miséria. Emoção, empurra-empurra e até assalto marcam vigílias no mosteiro. O peregrino e sua cruz. Nossa Senhora das Embaixadinhas. Espera e decepção marcam passagem do papa por Potim. Deus exigirá satisfações de traficantes, adverte o papa. Polícia detém manifestantes anticristo que esperam por papa na basílica. Falso bispo se infiltra em evento com o papa. Evangelização da América foi encontro, não imposição, diz papa. Coletânea de frases de Bento XVI no Brasil. Para 'La Nación', visita do papa ao Brasil foi fracasso de público. Escondam as gravatas. Caminhada seria o segredo da boa forma de Bento 16. Aposentos usados pelo papa em Aparecida serão expostos ao público. Ciclista leva 25 dias pedalando para chegar a Aparecida. Bispo d. Celso diz que palavras de Bento 16 "são como um beijo". Comitiva de Bento 16 "esquece" dom Cláudio Hummes em basílica de Aparecida. Papa terá vinhos e massas no cardápio da viagem de volta ao Vaticano. Bento 16 toma suco e elogia pianista em almoço no seminário Bom Jesus. Após saída do papa, mosteiro de São Bento sofre tentativa de "invasão".

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Vicaris Filii Dei

Eu não ia falar nada sobre a vinda do papa; afinal é irrelevante, pra mim, o que ele pensa e diz (afinal sou ateu); e também o acho mais coerente do que os fiéis que tanto reclamam do reacionarismo dele.

All in all os neo-pós-pentecostais estão dominando tudo e o cash da igreja romana tá baixo; por isso nada melhor do que fazer uma visitinha aqui, e, por que não, canonizar um santo pra dar um up no catolicismo brasileiro.

Ser católico não é fácil; tem muita coisa pra seguir, tem que ir à missa obrigatoriamente uma vez por semana, não pode usar métodos anticoncepcionais “artificiais” tampouco ouvir rock (pra dizer o mínimo). Isso tudo soa anacrônico para o mundo moderno.

Por isso tantos migram para o espiritismo, que não exige nada e responde (pelo menos eles acham isso) a todas as questões, e para as igrejas-de-garagem-com-cadeira-de-praia, que permitem uma interação mais, digamos, catártica (com direito a encosto, línguas estranhas, choradeira e gritaria) e não exige muito além de dinheiro, com a promessa de prosperidade, poder, fama, etc.

Até entendo a inflexibilidade do papa: o terreno já está perdido; correr atrás dos pente[lho]costais é bobagem, vai parecer ridículo (alguém aí disse Renovação Carismática?) e, de mais a mais, se ele não afirmar a validade eterna de certos preceitos e a supremacia do catolicismo, quais seriam os motivos para alguém ser católico em vez de qualquer outra coisa mais atrativa? Bento 16 sabe das coisas: o negócio é segmentar o mercado, como já dizia seu ídolo Santo Agostinho (Cidade de Deus versus Cidade dos Homens).

De mais a mais ele não obriga ninguém a nada: não sou católico, nem ligo pro que ele pensa, por exemplo, em relação ao divórcio/ segundo casamento (segundo ele, uma “saúde e educação.

No mais, vai ser aquela punhetação na imprensa até domingo, quando ele vai embora, ou até surgir algo que renda mais notícias, como um desastre aéreo, o que vier primeiro. Talvez um desastre aéreo com o papa.

terça-feira, 8 de maio de 2007

Eternidades da semana

E seu nome era Enéas: um tosco a menos. Pelo jeito, seu poder estava na barba; caiu, caput. E sem poder falar, porém largando suplente pouco votada no lugar. Quem será o próximo Rinoceronte Cacareco/ Macaco Tião? O último, creio, foi o Clodovil (affe). Ah, bons tempos em que dava pra escrever palavrão e desenhar pinto na cédula. Imagina o pessoal contando: Lula, Lula, Collor, pinto, palavrão, Collor, pinto... aposto que o Pintão levava fácil a parada.

Bingos e caça-níqueis: não falei que não ia dar em nada, que era só perfumaria? Apesar de a Polícia Federal do Lulão estar mandando bem, esses bingos são todos de políticos, e vão sobreviver navegando nos nebulosos oceanos de liminares.

Quebra de patentes: dá neles Lulão!

Eleições na França: finalmente acabou essa encheção; não sei porque isso era tão importante pro Brasil a ponto de a imprensa falar tanto. Enfim... ao contrário da América Latina, cada vez mais “vermelha”, a Europa segue seu caminho à direita.

Itaú tem lucro de R$ 1,9 bi no trimestre: quanto você lucrou até agora? Só sei que tenho grande parte nesse lucro deles, de tanta taxa que me cobram.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

No fim, todas as sociedades são julgadas por suas exceções e por seus extremos.

Esse título, excerto de Luís Fernando Veríssimo, tirado de sua coluna de ontem (6/5) do Estadão, serve perfeitamente para iniciar este post, sobre o qual venho reunindo informações que, infelizmente, insistem em se repetir. O que era um mais-ou-menos-breve comentário sobre o caso Champinha vai envolver aqui uma rasa tentativa de explicar e/ ou entender a questão da violência, pelo menos no Brasil.

Por algum milagre sociológico, não termos uma guerra civil generalizada. Já temos, há tempos e cada vez mais, os ingredientes para o caos: extrema desigualdade social, dividindo a população com um abismo entre ricos e pobres; gente para colocar lenha na fogueira dos dois lados.


A favela é a nova senzala, correntes da velha tribo.

Do um lado temos uma geração no limbo, no imenso vácuo onde o Estado não atua, e em cujas deficiências se aloja o crime. Crime alimentado pelo rancor, pelo ódio de uma população que paga impostos (proporcionalmente o mesmo tanto que os ricos), mas não recebe benefícios; que é espancada e humilhada pela polícia e não tem direito a uma oportunidade de emprego, a uma escola decente, a um atendimento médico minimamente humano.

Rancor e ódio de quem freqüenta transporte ruim, posto de saúde ruim, leva geral da polícia na ida para o trabalho e na volta dele e, no momento de descanso, é bombardeado com anúncios do tipo “Compre já seu carro zero quilômetro por ‘apenas’ cinqüenta mil reais”. Para quem vive de bicos e/ ou salário mínimo, isso é, sem dúvida, uma afronta.

Lógico que nada justifica o uso da força, mas isso, quase sempre, pode ser explicado. Já não bastassem essas condições propícias ao florescimento das sementes da violência, ainda temos grupos de rap que glamourizam a violência que supostamente condenam, além de resumirem todo o problema numa pueril luta de playboys versus manos.

Só com estes primeiros ingredientes já podemos fazer alguns lanchinhos: arruaceiros contra PMs toscos e psicologicamente despreparados em show dos Racionais MCs; o inesquecível Sandro (sim, ele tinha um nome e uma história), do ônibus 174; as chacinas que há todos os dias e para as quais ninguém mais liga.

Ou nossos queridos governos do PSDB/ PFL (PD), que, após as rampas antimendigo, querem colocar para fora da Sé, quando da visita do papa, os moradores de rua que lá habitam. Quer mais absurdo exemplo de exclusão social do que negar até a rua como moradia para cidadãos?

[Vale mencionar que todo governo brasileiro (seja de esquerda, direita, de cima, de baixo) é relapso com essas questões “de pobre”; a intenção aqui não é politizar a questão, mas citei os desgovernos de Serra e Kassab porque expulsar mendigo da rua já é um tanto demais, não? Mas continuemos.]

Onde o Estado não age, ou age mal, sobra espaço para criminosos, para álcool e demais drogas, para o ócio dos maus pensamentos. Altas taxas de desemprego, nenhuma opção de lazer próxima e um monte de botecos rodeados por pontos de tráfico. Cenários perfeitos para chacinas ou planejamento de crimes.


E a sala é a nova cela, prisioneiros nas grades do vídeo.

Do outro lado, temos pasquins como a Veja e programas do tipo TV-crime (Datena e afins) dizendo que bandido bom é bandido morto, massacrando o público com o João Hélio da vez (desde que seja de classe média ou acima, claro) em todos os ângulos, um mais sórdido que o outro. Vale tudo: de passar uma “reportagem” com a reconstituição do crime (Globo e Record) até estampar na primeira página a fotos dos acusados e a manchete “O que eles merecem?” (Jornal do Brasil). Agora é só atropelar o plebiscito contra o desarmamento, blindar o carro e se juntar, em algum condomínio fechado, aos outros cidadãos de bem, que espumam de ódio tanto nas redações de jornal quanto nos bares da moda contra a relé que insiste em não se colocar no devido lugar (o mais longe de nossos olhos, de preferência).

Nosso sistema de ensino antiquado e falido; nossa cultura de ler pouco e ler mal; nosso hábito de ver muita televisão, com seus programas histéricos cheios de pseudojornalismo e falsa indignação; nossa herança de desgovernos e políticos reacionários e corruptos que fazem todos pensarem que a violência é um fenômeno sobrenatural, que vem de fora da sociedade, como klingons belicosos; tudo isso faz com que as classes privilegiadas achem que não têm responsabilidade (o que é diferente de culpa) nesse imbróglio todo.

[Sim: eu que tenho um computador para escrever e você que tem um para ler fazemos parte da elite, em termos de Brasil. Todos temos telhado de vidro porque não fazemos nada prático. Mas isso é assunto para outra postagem, minha teoria sobre as revoluções.]

Chegamos a um ponto (como me advertiram dois amigos que me contaram desta notícia e outro que apontou a gravidade, digamos, teórica, da situação) em que temos, além de povo contra governo ou povo contra polícia, povo contra povo.

Estamos cada vez mais irracionais, mais intolerantes. É o verdadeiro cu do mundo.


E quem é que vai pagar por isso?

E onde entra o tal do Champinha, citado como motivo inicial do post, nesta história toda?

Vamos pegar o gancho da irracionalidade. Não a do bandido, mas a da sociedade. O tal Champinha voltou à mídia nesses dias porque fugiu da Febem, talvez até facilitado por funcionários, decerto na esperança de que alguém aqui fora “apagasse” ele, naquelas “resistências à prisão" em que o meliante leva uns quarenta tiros, vai saber. Mas o bom filho à casa tornou.

Embora ele seja um caso à parte, visto que, além de uma vida sofrida (e ainda lhe exigem uma compaixão e uma civilidade que nunca lhe foi oferecida), ele tem claros problemas cerebrais, sendo portanto um caso muito mais psiquiátrico que criminal (não é caso de cadeia e sim de internação), os “cidadãos de bem” já vêm rosnando com palavras-de-ordem como “pena de morte” e “redução da maioridade penal”, isso quando não chegam a termos como “matar esse animal”, “torturá-lo lentamente”, etc. Para conferir isso, basta pesquisar no Google e procurar qualquer debate sobre o assunto. Logicamente, além de cidadãos ordeiros e educados, devem ser quase todos piedosos cristãos.

Essa cultura do ódio e da paranóia em que vivemos nos cerra a vista para a dimensão completa dos eventos. Pegam-se fatos isolados para que a realidade fique mais simples, mais P&B; fica mais fácil de “entender” e de se eximir de qualquer responsabilidade.

Porém somos nós mesmos que criamos e alimentamos as criaturas que nos devorem. Os Champinhas, os Sandros, os linchadores e linchados, chacinadores e chacinados, todos são nossos “parentes próximos”. E poderíamos, facilmente, ser um deles. Ao mesmo tempo em que não temos culpa, somos todos responsáveis.

As cartas estão na mesa, os ingredientes estão misturados na panela fervente. A hora da refeição se aproxima: quem vai experimentar primeiro essa iguaria indigesta?

terça-feira, 24 de abril de 2007

Eternidades da semana

Morre Bóris Ieltsin: morreu o mais notório pinguço das últimas décadas. O cara que, empunhando uma garrafa de vodca, impediu um golpe contra Gorbatchov, segurou a bronca da redemocratização (fase final), foi eleito e reeleito reduzindo o PIB do país pela metade em um ano, pego bebendo numa reunião do G8, dançando melhor que o Coronel Tuchenko (skavurska), fazendo o Bill Pinton chorar de rir e entregando mais estatais a troco de banana para os amigos do que o FHC fez por aqui. Enfim, não era apenas um bêbado, mas um bêbado com metade do arsenal nuclear do mundo ao alcance dos dedos trêmulos. Merecia respeito. Um brinde de Absolut Vanilla para ele.

Em crise, paróquias vendem igrejas: paróquias de cidades interioranas da Europa estão vendendo seus terrenos (com igreja e tudo) porque o cash tá baixo. Realmente, a coisa anda feia pra Igreja Católica. Não é à toa que o Papa vem pra cá dar uma canonizada às pressas; pelo menos o outrora maior país católico do mundo precisa ser salvo, né.

Los Hermanos acaba: já era hora. Deviam ter parado depois da turnê do Ventura.

Operação Furacão: só eu acho que esses bingos (leia "cassinos") são todos de políticos, e que por isso não vai dar em nada, pra variar?

95 milhões de brasileiros não têm coleta adequada de esgoto: o Brasil é o país do futuro.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

O homem é o urso do homem.

O primeiro Herzog a gente nunca esquece. Não é segredo pra ninguém (que me conhece) que sou fã desse alemão maluco. Tirando que vi Fitzcarraldo quando era moleque (e revi recentemente e amei-o), então não conta, O Homem-Urso (Grizzly Man) foi minha primeira experiência adulta com o universo idiossincrático do diretor.

Eu preparei um monte de anotações sobre o que escrever aqui, com diversas análises do filme, em todos os seus meandros. Mas de repente me dei conta de que já há várias análises bastante competentes sobre ele na net, especialmente estas, do Cine Repórter e do UOL Cinema. Portanto achei melhor então falar apenas das minhas impressões, em vez de analisar a obra em sua totalidade.

Sinopse rápida: durante treze anos, o ativista californiano Timothy foi todos os verões à reserva de Katmai, no Alasca (sozinho ou com eventuais namoradas), conviver com os animais, especialmente os ursos-pardos (grizzly bears, daí o nome do filme). No último ano, ele e sua companheira foram devorados por um dos ursos.

Sim, é verdade – veja algumas notícias aqui e aqui.

Descobriu-se que Timothy Treadwell tinha quase 100 horas de vídeo digital, gravados por ele mesmo, durante os últimos cinco verões de “ativismo suicida” (ele tinha consciência do perigo que corria). O Discovery Channel conseguiu acesso ao material, decidiu fazer um documentário e convidou o único cineasta capaz de uma empreitada dessas: Werner Herzog.

O alemão, como tudo que realizou, abraçou o projeto com obsessão, loucura e paixão (para mais sobre o comportamento do cineasta, ver o post Scorsese e Herzog). E Timothy era o personagem no qual Herzog se especializou em encarnar: um pária entre o egocentrismo e a autopiedade, a determinação e a loucura, a civilização e a natureza.

O diretor insere eventuais comentários em off com suas opiniões, entrevista parentes, amigos, conhecidos (o piloto que o levava até a reserva e o buscava, funcionários da reserva dos ursos, etc.), mas o grande astro é mesmo Timothy.

Não é um filme sobre a natureza ou sobre os ursos-pardos, mas sim uma investigação (involuntária, da parte do protagonista-cobaia) sobre a condição humana e os limites da eterna tensão entre o coletivo e o individual (o primeiro sempre esmagando o segundo, já dizia Durkheim em O Suicídio) e levando as pessoas a perder o contato e a identificação com a realidade e a buscar “seu lugar” em outro lugar (no caso de Timothy, entre os ursos).

O problema é que o mundo natureba idealizado pelo ativista maluco é, na verdade, tão ou mais cruel (ainda que sem intencionalidade) do que o “civilizado”. Por isso ele não conseguiu a redenção (a não ser que você concorde com ele que é uma felicidade virar comida de urso): como fica latente na tomada final, o urso tem aparência bela, meiga, mas é indiferente, egoísta e, quando preciso, feroz e impiedoso. Nada pessoal, claro. Mas é reflexo da natureza e, por que não, da própria espécie humana.

O mais fascinante, contudo, é poder mergulhar na mente com tantas perguntas e nenhuma resposta de Timothy e assistir à materialização de pensamentos e devaneios tão íntimos, daqueles que normalmente não temos coragem de admitir nem a nós mesmos, e evitamos revelar, tentamos escrever num diário, mas logo os atiramos ao lixo num papel amassado.

É um tratado sobre a humanidade no que há de mais íntimo, despido de qualquer máscara, com tudo que há de grandioso e patético, sonhador e angustiado. Perturbador e obrigatório. Veja, reveja, pense em tudo, passe noites sem dormir. Você não será mais o mesmo, para o melhor ou para o pior.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Eternidades da semana

Massacre na Virgínia. Mais um entre tantos. Mal dá pra ficar chocado.

Cada vez mais a cultura “übercapitalista” – especialmente nos EUA, onde há a claríssima divisão entre nativos e migrantes, vencedores e perdedores, a pátria-mãe dos programas estilo “TV-Crime”, vai se perpetuando a cultura de medo, ódio e segregação.

Some-se isso à extrema facilidade para se comprar uma arma de fogo e voilá: o cenário perfeito para um desajustado mental fazer sua chacina.

Professores e colegas disseram que se sentiam incomodados com o jeito “esquisito” do rapaz e seus textos “violentos” nas aulas. Mas ninguém fez nada, não houve quem se importasse com ele, nenhuma pessoa foi lhe perguntar se havia algo de errado.

Os sinais nunca são vistos nem ouvidos, tampouco sentidos.

Resta agora buscar as razões, ficar se perguntando como era a vida de um solitário migrante coreano de família muito pobre, num país predisposto à segregação.

Tanto lá como aqui, não há pensamento sem anacronismo, não há discussões além dos telejornais da referente semana. Enquanto estaremos, daqui dez ou vinte anos, discutindo o João Hélio da vez, eles estarão com seus Columbines e suas Virgínias.

E nunca entenderemos nada.

terça-feira, 17 de abril de 2007

Da natureza dos lobos

Falou-se muito em amadurecimento de uma posição, em mudança de opinião, em desistência de lutar, em mágoa, em reconciliação, em picaretagem, em contradição.

Particularmente, pelo que li das entrevistas, ele está é magoado mesmo por ter gastado quatro anos de sua vida gravando o Canções Dentro Da Noite Escura, que não vendeu nada. Vendo-se novamente nos tempos de Nostalgia Da Modernidade e Noite, desistiu (pelo menos por ora) de remar contra a maré e resolveu faturar uns trocados. Diga-se de passagem que ele não foi bater na porta de nenhuma gravadora, mas sim lhe foi o ferecida a oportunidade do lançamento do acústico e o possível relançamento, daqui a dois anos (se não me engano) de sua discografia oitentista.

Mas vamos ao que interessa na verdade: a música.

E disso Lobão manja, e muito. Pérolas da fase independente em faiscantes versões, hits batidões tocados com todo o gás e até uma inédita dos tempos do Vímana. Os arranjos são classudos, com violas, cordas, etc. mas com todo o punch e todo o caos que suas músicas requerem (especialmente as mais recentes. Nada de violão safado de acampamento, nem covers desnecessárias, muito menos palhetadas de guitarra no violão.

Lobão uiva até o limite, como se fosse o último show da sua vida. É a entrega de sempre, a intensidade das letras verborrágicas, aquilométricas, provocativas, sangue & suor. Se for picaretagtem, é das melhores. Desisti de entender e resolvi curtir.

E tem Por Tudo Que For. Tem A Queda. Tem as cornetas. E ela quer fuder. Lobão subverteu tudo novamente. Seja bem-vindo novamente à superfície.

Mereceu até uma vodca Absolut para assistir comemorando.

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Scorsese & Herzog

Neste finde assisti, além do belo e curioso Uma Vida Iluminada, de Liv Schreiber, a dois ótimos filmes de dois diretores que estão entre meus preferidos: Os Infiltrados, de Martin Scorsese (este sim, meu preferido) e Nosferatu (refilmagem do clássico impressionista alemão de 1920) de Werner Herzog (que vem me conquistando a cada ano).

[Também tentei ver A Síndrome Da China, de James Bridges, mas não empolgou, deixei-o pela metade. Mas continuemos.]

Eles filmam com paixão, com tesão. Seus filmes, além das fronteiras da técnica e do estudo, além das imposições do mercado e dos estúdios, são fruto de suas índoles, de suas experiências, da própria psique desses artistas.

Scorsese, que sempre busca a redenção junto com seus personagens, sejam eles Travis Bickle (Taxi Driver), Jesus Cristo (A última Tentação De Cristo), Jake La Motta (Touro Indomável) ou o recente Billy Costigan (Os Infiltrados). O diretor, que viveu se equilibrando no fio da navalha, entre a arte e a bandidagem, entre a religião e as drogas, entre o cinema e a vida da periferia, na Little Italy novaiorquina, transpõe tudo isso para suas obras.

Já Herzog, autêntico borderline, um improvável precursor/ adepto do jornalismo gonzo mesmo para obras de ficção, daqueles que come o próprio sapato para pagar uma aposta (Werner Herzog Eats His Shoe), coloca seu cast para perigosas e surreais viagens para áreas desconhecidas da Amazônia (Fitzcarraldo) e do Saara (Fata Morgana) e ameaça seu astro principal com uma espingarda (Meu Melhor Inimigo).

[Creio que Pasolini também possa ser incluído nessa dupla, transformando-a num trio; porém só vi um filme dele até agora, o que me impede de analisá-lo.]

Claro que essa posição extremada não é obrigatória para uma boa obra. Muitos artistas frios e calculistas realizaram grandes obras em plena consciência e sem muito envolvimento emocional e muitos artistas horríveis fizeram porcarias que só tiveram fama por causa da vida junkie e das atitudes tresloucadas.

Mas que é mais fascinante quando paixão e talento se encontram, produzindo obras ímpares, ah, se é.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Assistindo

Irmão Sol, Irmã Lua: uma pouco de açúcar além da conta. Mas eu já esperava isso; afinal, é um filme do Zefirelli. Mesmo assim é uma obra belíssima, leve, terna, edificante (no bom sentido), a qual não busca julgar motivações religiosas ou esquizofrênicas de Francisco de Assis, mas apenas mostrar o quanto a vida simples, repleta apenas do essencial, pode conduzir à felicidade e à verdade interior a qual todos procuram. Talvez o único cristão que viveu como Jesus. Claro que uma exceção não invalida a tese d’O Anticristo de Nietzsche (“O Evangelho morreu na cruz”), mas, ainda assim, esse jovem nobre que escolhe a mendicância da natureza tem muito a nos ensinar com sua loucura (ou seria iluminação?). Altamente recomendável para tardes ensolaradas de domingo.

Fora De Rumo: engenhoso thriller sobre adultério, chantagem e crimes afins. Clive Owen, como quase sempre (Rei Arthur é dose) manda muito bem, enquanto Vincent Cassell convence bastante e Janiffer Aniston não compromete. O filme me prendeu bastante até o final, ainda que nos 10min finais tenha havido umas presepadas. Divertido.

O Senhor Das Armas: não gosto do Nicholas Cage, isso não é segredo. Acho-o péssimo, do nível de bobocas meramente esforçados como Tom Cruise e Reinaldo Gianecchini. Sabem que são ruins, até tentam melhorar, mas não conseguem. A cara de mané do Cage pode servir a melecas como Cidade Dos Anjos, e até não comprometer dramas leves como Asas Da Liberdade. Mas, em filmes pesados, como 8mm e este Senhor Das Armas, o resultado é desastroso. Só mesmo coadjuvantes de peso, direção bastante segura e um ótimo roteiro para segurar a onda. Felizmente temos todos esses ingredientes neste caso. Mas como irrita a eterna expressão abobalhada do protagonista: ele passa de filhinho de papai a negociante de armas com os piores escroques do planeta, presencia tragédias, tensões e massacres, mas não muda: o personagem continua raso, pálido, pífio, graças à “interpretação” de Cage. Sorte que o roteiro é formidável e não descamba, em nenhum momento, para atalhos e caminhos fáceis do sentimentalismo e do maniqueísmo. Jared Leto e Ethan Hawke estão OK e o filme é impactante.

Juventude Transviada: eu não estava exatamente no pique para vê-lo, mas, ainda assim, é um grande filme, bastante atual e moderno, fazendo jus à fama de clássico. James Dean é o típico rebelde sem causa, refletindo, com seus amigos e rivais, a típica atitude dos jovens e da sociedade em geral do pós-Segunda Guerra: niilismo, inconseqüência, sensação de presente absurdo. Sensação essa que parece não ter passado, em todos nós, até hoje. A náusea e a angústia parecem ter se instalado permanentemente na sociedade.

Gandhi: clássica cinebiografia do líder indiano (não apenas hindu) Mohandas “Mahatma” Gandhi. Filme marcante em todas as suas centenas de minutos. Nas cenas tocantes e nas cenas chocantes. Caracterizado de forma muito semelhante a Gandhi tanto na juventude quando na maturidade, Ben Kingsley dá show durante todo o filme, conferindo a doçura e a dignidade necessárias ao papel. Nem a extensão do filme pode ser criticada: as mais de 3h passam voando. Irretocável.

O Evangelho Segundo São Mateus: o primeiro Pasolini a gente nunca esquece. Rústico, feito com pouquíssima grana e, aparentemente, com atores amadores, esta deve ser o mais fiel retrato da vida de Jesus (pelo menos admitindo como verdade o Evangelho). Dando ênfase à vida monótona e pálida naquela parte rude e empobrecida do planeta, o filme dâ mais ênfase ao caráter político de Jesus, sua sanha revolucionária, por (várias) vezes assustadora, por vezes complacente. Vale notar que quase não há sofrimento físico para o Jesus de Pasolini. A violência maior está na fotografia e nas tomadas inquietantes. Vale a pena ser visto e revisto, deve melhorar a cada nova visão.