terça-feira, 27 de outubro de 2009

Só uma única servidão voluntária

O Amor é honesto, não diz as coisas pelas costas, não veste máscaras para agradar ninguém. O Amor é sincero, diz a verdade ainda que ela seja dolorosa, mas sempre oferecendo os braços abertos para o consolo de uma nova atitude da pessoa amada. Não existe imperdoável para o Amor: ele está sempre pronto para dar uma nova chance, pois acredita que as coisas podem sempre melhorar. O Amor se sacrifica, abdica das próprias vontades e esconde suas dores, às vezes se anula, só para cuidar da pessoa amada, ressurgindo com ainda mais fulgor em qualquer martírio.

O Amor sabe que não depende apenas de si, mas que sua existência está atrelada à pessoa amada, esteja esta próxima ou distante. O Amor tem início incerto, porém jamais acaba. O Amor luta as maiores batalhas sem nunca ser derrotado. O amor é caridoso, corajoso, altruísta, invejável, às vezes até ingênuo. Por mais maduro, sempre conserva a graça do primeiro encontro e dos sentimentos de uma nova primavera. O Amor nunca desiste, mas conhece o seu lugar. O Amor é intransitivo.

Enfim o amor é um idiota que só se fode.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Cinema transcendental

Desqualificar um adversário, sobretudo um que não pode ser desprezado com facilidade, por pura preguiça de ler a crítica ou por ser desafeto do crítico ou pelo objeto dessa ter sido algo de que você gosta, é um despreparo de quem se deixa levar demais pelo ego.

No caso estou falando de uma crítica que Caetano Veloso fez sobre Woody Allen.

Sou confesso idólatra do primeiro e acho o segundo um pé-no-saco.

Apesar da sabida veia provocadora, a qual, muito além de “só querer aparecer”, está intimamente ligada ao conceito tropicalista, a crítica é feita por alguém extremamente culto, conhecedor de cinema, e, veja só, fã de Woody Allen! Nada de não-ouvi-e-não-gostei: ele embasou muito bem suas opiniões (e estas são inalienáveis), e quem não concorde, que ignore ou mostre argumentos contra.

Porém tudo que as magoadetes fãs do cineasta fizeram foi tentar desqualificar o baiano com os batidos bordões “ele só quer chamar a atenção”, “Woody Allen nem sabe quem ele é”, “devia ter morrido em 1979”, “ele é gaydacu enrustido”, entre outros do mesmo nível abissal. Pouquíssima gente se deu ao trabalho de, a despeito de não gostar do Caetano, ler atentamente as críticas e tentar rebatê-las.

As pessoas se melindram por muito pouco. E assim o nível do debate cultural segue péssimo no país com o pior cinema do mundo.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Gente esquisita, normalmente inconsistente

Em alguns lugares você é, digamos, obrigado a ser falso às vezes. No ambiente de trabalho, por exemplo. É questão de sobrevivência profissional. Ou num ambiente familiar, como numa festa, cumprimentar até parentes com quem você não simpatiza (para dizer o mínimo). Mas ser falso por opção deve ser quase um vício. E, como todo vício, acaba trazendo prejuízos. A pessoa acaba criando um panteão mitômano de falsos amigos, de idéias distorcidas, de ilusões desfeitas.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

I owe a favor to a friend; my friends, they always come through for me.

[ “Onde foi que me perdi? Faria qualquer coisa para recuperar minha paixão pela vida, aquele fogo que me moveu e movia as pessoas na minha direção. A minha fúria era só um tempero naquela irresistível exuberância, não foi ela que afastou os outros de mim, mas a minha morte. Todos os dias me levanto, engulo uma xícara de café e vou para o túmulo. Estou me decompondo miseravelmente diante das pessoas.” ]

Na maioria das vezes as pessoas se machucam por pura fraqueza, por medo de elas mesmas se ferirem. Falta empatia, sobra temor. Porém não devemos deixar que isso - e é um caramujo convicto que está aos poucos aprendendo a sair da casca – nos endureça tanto a ponto de a gente não perceber nem dar valor às pessoas que, perto ou longe, nos querem realmente bem, fazem de tudo por nós. Sim, há gente com coragem, gente que não está interessada só em parasitismo, gente com sorriso sincero e brilho nos olhos. É por elas (e elas sabem quem são e conhecem a importância que têm na minha vida) que eu dedico esta postagem. Obrigado por estarem na minha vida e por me fazerem ainda crer em “gente, espelho da vida, doce mistério”.


[ "If you could only live my life | You could see the difference you make to me." ]

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Só vão te dar algum caixão sem alças

Nada mais triste que a fila do pronto-socorro. O pronto atendimento no Brasil é uma piada. Não existe, é só acaso, descaso, desentendimento. É feito amor de ilusão, de má retribuição, que nunca existiu. Mau atendimento pelo funcionário cujo salário é pago com seus impostos, não é nada de favor. Se você não estrebucha, não espirra sangue, na tem direito a exame, sequer ao olhar exangue do “doutor”. Não lhe cabe o leito apertado no velho quarto, mesmo que a dor que nem a de um parto. Então só lhe resta o peito apertado, sem jeito, com os olhos fundos e vazios da espera sem fim. Há um fim?

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A solidão agora é sólida

É complicado conviver com outras pessoas. Às vezes desejamos viver a vida inteira sozinhos, sem interferências, outras, imploramos por alguém que ouça nossas histórias. O homem não é um ser social, como diziam os livros do Ginásio, e sim um ser solitário, cheio e traumas e neuroses, com os quais não sabe lidar. Por isso busca unir sua solidão com a dos outros, não por empatia, não por amor ou paixão, mas só para poder comparar um sofrimento que não pode ser medido. Sou pior que esse, melhor que aquele, igual àquele outro. E adoramos despejar nossas angústias sobre os outros, que parecem culpados por não nos fazer mais felizes. Clamamos aos pais, amigos, deuses, amigos, qualquer coisa, e tudo permanece igual. No final estamos sós, como sempre estivemos. Não quer dizer que isso seja bom ou ruim, simplesmente é. Porque é. Duro de aceitar / difícil de engolir? Paciência. Todo o resto é wishful thinking.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Não acredita no que vê, não daquela maneira.

Joãozinho acorda de manhã bem cedo
Com as costelas tremendo de frio e medo
E vai até a porta de seu barraco de madeira
Olha com desdém onde jaz ali à beira
Seu padrasto desmaiado de aguardente
Naquela cena tão comum e deprimente
E vai olhar o sol se levantar dos destroços
Pedindo com os olhos a companhia dos moços
Que saem logo bem cedo para trabalhar
Em obras, lixões, em balcões de bar.

A luz da manhã lhe arde os olhos pequenos
Com o cheiro do esgoto e seus tantos venenos
Ratos passando pelo chão batido de terra
Todos animais, vivendo na mesma guerra
Não tem nada para comer ou beber na mesa
Não há nada senão confiar na mesma reza
Que a mãe faz para as coisas melhorarem na vida
Para que a desventura resolva dar partida
Na carroça de miséria que puxa aquelas almas
Para tão longe de onde vem a calma.

Longe do grande estereótipo de preto
Mais longe ainda do caminho mais correto
Ele é seguido pela sombra criminosa
A saída, creia em mim, mais honrosa
Do que passar fome ou esperar ajuda
Do que ouvir o ronco da barriga muda
Que grita sozinha por uma intervenção
Da política que jamais traz solução
E das propagandas que anunciam promoções
Que requerem dinheiro aos borbotões.

Joãozinho fecha os olhos, imaginando
Outro mundo se lhe desvendando
Com a mesa posta, a família unida
Seus quatorze irmãos e muita comida
Seu pai fora da cadeia, com ele no colo
Verdes plantas nascendo num fértil solo
O perfume das flores, brinquedos de verdade
Nada de imaginar mais mortes e maldade
Mas os olhos se abrem, cheio de lágrima
E o livro da sua vida ainda está na mesma página.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Goodbye... and it's emotional.

Momento corneta: faz uns dez minutos que recebi a notícia de que André Santos (que já estava a fim de sair desde o meio do ano passado), lateral titular da seleção de Dunga, e o gladiador e mata-bambi Cristian, foram negociados com o pífio Fenerbahçe, da Turquia.

O mais legal é comprar o inútil do Morais por R$ 6 milhões, pagar R$ 175 mensais ao Souza, e, enquanto isso, vender dois jogadorzaços e ainda menosprezar Herrera, que custaria módicos R$ 2 milhões.

Não é à toa que Andres Sanchez, a despeito de ter mandado muitíssimo bem ao contratar Mano Menezes, não nega seu passado incompetente de vice- do nefasto Dualibi e quer fazer dinheiro vendendo jogador bom e comprando cabeça-de-bagre.

Agora é ver como o Mano vai repor essas duas importantíssimas peças. E, no mais, valeu André Seleção, valeu Cristian Gladiador.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Wake up: time to die!

Uma das poucas coisas nas quais Sartre e Freud concordavam era sobre o fato de as relações humanas serem impossíveis, pois, cada um ao seu modo, os sexos idealizavam a si mesmos. Ainda que mais do que a outrem que os completassem, e, por isso, nada se acertava jamais. Estaríamos todos fadados ao fracasso pelo instintivo egoísmo de procurar-nos outros nós mesmos, e não o que nos completasse.

Vou falar sobre suicídio, Sísifo à parte, que é um tema caro (vendido barato) a toda nossa sociedade ocidental. Todo mundo tem medo, receio, tabu justamente por ser um ato que de nunca que as pessoas fazem apostas indevidas umas sobre as outras, e se decepcionam e carregam pessoas inexistentes quando tudo falha. O inferno é a monotonia, por isso todos se arriscam pateticamente em empreitadas fracassadas, como pusessem pular as chamas eternas e justas da condenação. Abismo que atrai sempre outro abismo.

Investimos nas pessoas e elas se matam, como assim? Que fracasso, que ingratidão!

Dói-nos saber e todo o esforço em enquadrar tais pessoas na sociedade fracassou. Por isso transformamos tudo em tabu: quem abdica da própria existência é proscrito, maldito, desdito tampouco merece menção em qualquer sufrágio; aos suicidas, um círculo infernal terrível, sem esperança de redenção, muito menos reabilitação em terra com os pertences e valores deixados. Matar-se e covardia, derrota, desterro. O certo é saber que o certo é certo.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Eternidades da semana

Como naquele infame verso do último disco do Frejat, “dar um photoshop na realidade” é o que a imprensa resolveu fazer. É o New New Journalism: sob a desculpa de que “sabia que ia desafiar as convenções do jornalismo“, o repórter ignorou, isso sim, a ética, a vergonha na cara e o bom senso, no afã de querer “dar furo” numa época em que a internet engole os impressos na questão da velocidade. Que tal os assinantes ganharem um aplicativo NoticeYourself!, com temas-chave, daqueles “de gaveta” e umas fotos para serem editadas no PaintBrush?

Eu queria morar numa favela: Serra e Kassab, sempre antenados com as incríveis políticas sociais do PSDB/DEMo, não satisfeitos com as rampas antimendigo, o extermínio de moradores de rua por policiais (lembram?), o sucateamento dos albergues, agora os moradores de rua são expulsos da cracolândia original, sob a pretensa revitalização da região, apenas para instalarem suas carcaças umas quadras acima, com os mesmos problemas. Com a direita brasileira, e a bela classe média que a elege, é assim: se não estou vendo, não é mais problema meu. E o Haiti não é só aqui: todo reduto de viaduto tem um muito de campo de concentração. Ser notícia velha embrulhada no jornal.

No Brasil, 11,5% das crianças são analfabetas. E o pessoal preocupado em legalizar a maconha.

Júlio de Mesquita Filho, o mesmo do infame editorial “Basta!”, anti-Jango e pró-ditadura, é celebrado como modelo de caráter.

Vendo televisão, descobri que a dignidade vale uns R$ 200 para fingir que namora alguém, que você dá dinheiro ao pastor, e, num passe de mágica, fica com mais dinheiro, e que a felicidade é uma mão de tinta numa parede descascada. Ah, e que todas as operadoras de telefonia funcionam direito, os diretores de arte das agências são extremamente criativos nos conceitos, que, com dinheiro, uma cópia barata vira uma cópia cara.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Pra fazer sucesso, pra vender disco de protesto, todo mundo tem que reclamar

Escrito com Shepones

Não interessa contra o que ou contra quem. Com razão ou sem razão, sabendo do que se fala ou não, o negócio é reclamar geral. Eis as melhores músicas de protesto já feitas:

Até Quando Esperar? (Plebe Rude)
Capitulo 4, Versículo 3 (Racionais MCs)
How Many Tears (Helloween)
Like A Song (U2)
Masters Of War (Bob Dylan)
Perfeição (Legião Urbana)
Redemption Song (Bob Marley)
Selvagem? (Os Paralamas Do Sucesso)
Todas do Rage Against The Machine
War Pigs (Black Sabbath)

Não gostou? Protesta, ué.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

I was looking for a job and then I found a job and Heaven knows I'm miserable now.

Onze sugestões de empreendimento para os recém-desprofissionalizados jornalistas

Escrito com Shepones

01. Vender Avon
02. Fazer malabares no semáforo
03. Agenciar prostituição infantil no Ceasa
04. Plantar maconha no litoral da Bahia
05. Ser porteiro de bordel na Augusta
06. Revender tele-sena vencida
07. Ser homem-sanduíche de "Compro Ouro" no Centrão
08. Vender pomada da banha do peixe-boi da amazônia no trem
09. Fingir-se de mudo e vender adesivo do Piu-Piu no bumba
10. Oferecer-se como cobaia para teste de novos medicamentos
11. Preparar tapiocas no Centro De Tradições Nordestinas (CTN)

terça-feira, 16 de junho de 2009

No fim da tarde, a sensação da missão cumprida

Engraçado como as pessoas se interessam mais pelas eleições do Irã do que pelas do Brasil. Vide os escroques que temos elegido, especialmente em São Paulo.

Lembrou-me 1999, no primeiro ano da faculdade, quando uma mina me abordou no corredor pedindo uma doação para os refugiados de Kosovo. Respondi: ah, legal, mas por que antes vocês não arrecadam alguns mantimentos para aquelas famílias que moram no viaduto que fica a 100 metros daqui?

Exceto quando se trata da África (porque aí ninguém liga mesmo) as pessoas parecem ficar com a consciência mais tranqüila quando “ajudam” sem se envolver.

E vale notar que esses supostos interesses vão e vêm ao sabor da mídia. Cada semana é uma comoção diferente que assola essa “gente honesta, boa e comovida”. Aposto um picolé de limão que os persas serão esquecidos, em prol de um novo assunto (seja um moleque arrastado pelas ruas ou uma cantora gorda internada por estresse) mais rapidamente do que você consegue dizer “Mahmoud Ahmadinejad”.

Ah, vou doar roupas velhas pra Santa Catarina, adotar financeiramente um moleque da LBV que nunca precisarei ver na vida e colocar no Orkut um avatar “Free Palestina” (mesmo que eu sequer saiba apontá-la no mapa).

Porém, quando o pivete da esquina aparece, fecho o vidro. Quando vejo o mendigo dormindo sob uma marquise, viro o rosto.

Dou minhas ofertas na igreja, mas não sei amar o próximo. Só o distante.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

The dark side of the meal

Manual De (Má) Conduta Para Funcionários do Mc Habob's

01. Tire esse sorriso do rosto já! Um funcionário do Mc Habob’s jamais sorri. Ele não tem motivos para isso.

02. Treine olhares impassíveis, cheios de blasê, para atender os clientes.

03. Não preste muita atenção nos pedidos: faz parte do charme do lugar receber lanches errados, e, ao reclamar, ouvir algo como “tenho certeza de que você pediu isso”.

04. Treine uma cara de hiena faminta para quando o cliente ameaçar não pagar os 10%, ainda que seu atendimento seja do nível de Auschwitz.

05. Quando alguém reclamar que o pedido está errado, como um refri com pedras de gelo o qual o cliente alega ter pedido sem elas, insista silenciosa e obstinadamente empurrando o copo para ele. Mostre sua força de vontade.

06. Treine lutinha com esfirras na cozinha, acertando os outros funcionários (acintosamente, pra que os clientes vejam) e arremesso de beirute com ovo gosmento no prato do freguês, de modo que o lanche dê uma dropada tipo half-pipe nas bordas.

07. Use o tratamento “senhor” a cada três palavras, ainda que não faça sentido, só para irritar o cliente e fazê-lo se sentir um número sem importância.

08. Desconte sua insatisfação com o trabalho escravo e o salário de fome despejando fluidos corporais nos lanches e nunca lavando as mãos após coçar a bunda.

09. A primeira regra do Mc Habob’s é que você não sabe do que é feita a carne do Mc Habob’s.

10. O queijo eu te conto: é feito do mesmo material da caixinha em que vêm os lanches.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Quem vê caramujo, não vê coração.

Uma noite com o caramujinho guitarrista (II)


Após o ensaio de sábado à noite, o caramujinho foi convidado pelos outros integrantes, as lesmas, para curtir uma balada. Gastrópode que é, tem preguiça de ficar fora do casulo a noite toda. Mas insistiram tanto que acabou aceitando. Foram a um pico que, diziam, teria open-bar.

_Open-bar? Por que não disseram antes, vamos, suas lesmas!

Tá certo que esse termo é sinônimo de roubada, visto que espanta as caramujinhas, atrai caracóis bêbados e só contêm bebidas que nem um visigodo que levou fora da concumbina aceitaria.

Mas aquilo era demais pro caramujinho.

O interior parecia que havia pegado fogo, sido atingido por um aerólito e depredado por hordas de ETs belicosos.

O banheiro era o círculo infernal ao qual Virgílio não teve coragem de levar Dante, com medo de perder a amizade. Devia haver ali cepas de todas as doenças mais mortíferas, de varíola a ebola, passando por peste negra e gripe espanhola.

O open-bar era composto de bebidas altamente nocivas, certamente aparentadas do zyklon-B, do BHC e do ácido muriático. Achou que o bar só estava open porque o Conselho de Segurança da ONU não teve coragem de ir até lá verificar as armas de destruição em massa.

Desejou que aquelas lesmas secassem num cimentado em dia de sol.

No palco, em meio a um calor que deixava o ar mefítico irrespirável com seus miasmas, uma banda cover assassinava Stone Temple Pilots com solos fora de escala e vocal fraquinho embromando no ingrêis.

_Vou embora.

(Leia com sotaque bêbado)

_Vai nada, caramujinho, fica aí, vai ter mais bandas, tem bebida de graça.

_Suas lesmas, eu não vou beber esses venenos. Tô indo, é sério.

Foi embora.

Tinha um caracol em coma alcoólico, tentando ser reanimado pelos amigos. Outro vomitado na escada, perto da porta.

E não era nem uma da madrugada.

Diga-me o que comes, e eu te direi que estás fudido.

As piores coisas que já passaram pelo meu combalido estômago:

05. Dogão do Sesc Itaquera: no geral os rangos do Sesc são bons e baratos, mas o hot-morte dessa unidade é feito com o pão que o Diabo amassou e salsicha de pneu e gato atropelado. E ainda deu dor de barriga no dia seguinte.

04. “Cerveja” Liber no Pacaembu: embora nos arredores você possa comer um incrível e tradicional sanduba de pernil, um suspeito sanduga de lingüiça feita com algum animal ainda não registrado pelo Ibama, e tomar de cerveja a rabo-de-galo, dentro do estádio a hipocrisia reina: vendem-se hambúrgueres horríveis, sorvetes semiderretidos, refrigerantes genéricos do tipo Carrefour-Cola (vendida como “Pepsi”) e a temível Liber, que tem gosto de pão velho molhado. Pior que isso só o Corinthians de 2006-2007.

03. Hambúrguer do Lulu: para um domingão frio e aziago no Pacaembu, durante um (ótimo) show mal divulgado do Lulu Santos, um hambúrguer frio e aziago, saboroso como o isopor no qual estava acondicionado.

02. Coxinha do Oldboy: devia estar sem sal. Deve ter sido de propósito, coisa de funcionário que pretende ferrar a imagem da empresa. O salgado ingerido na Uno & Due da Galeria Gemini, antes da sessão de Oldboy, foi como mastigar um saco de cimentcola.

01. Dogão do U2: não foi um dia fácil. Para ver a melhor banda do mundo pela segunda vez, enfrentei trampo o dia todo, maratona num puta calor até o Morumbi, grandes filas para entrar e sair, chuva na hora de ir embora e uma lotação cheirando a hiena velha. Mas nada supera do cachorro-quente deglutido na porta de entrada: uma salsicha feita provavelmente com garrafas PET recicladas num um pão ázimo que sobrou da Santa Ceia. E custou caro.

Quem disse que caramujo não tem coração?

As aventuras do caramujinho jornalista (I)

Era uma vez um caramujinho que fazia frilas.

Um dia uma borboletinha, aconselhada por outra borboleta, ligou para o caramujo e lhe ofereceu um freelance que ela não conseguiria fazer a tempo.

_Olá caramujinho, tudo bem?

_Tudo bem, borboletinha, e você?

E, numa cordial conversa, os termos do trabalho ficaram acertados, com todos os contatos e todas as coordenadas.

Faltava falar com o cliente, o besouro rola-bosta.

_Olá rola-bosta, tudo bem?

_Tudo bem, caramujinho, e você?

O besouro explicou que era um trabalho insano, muita coisa em pouco tempo. “Pelo menos poderei cobrar bastante”, pensou o ressabiado caramujinho.

No dia seguinte o caramujinho, mesmo tendo acordado com uma forte dor de barriga, vômito e enxaqueca, decidiu cumprir seus compromissos. Deslizou até o médico, onde tinha consulta marcada havia tempos. Sendo um molusco pobre, com casca de segunda mão, que utiliza o SUS, ficou esperando um tempão, mesmo com hora marcada. De lá, escorregou até o terminal de ônibus, onde engoliu a segunda pior coxinha de sua vida (fez até uma nota mental de listar depois os piores rangos que já comera), e seguiu para o longínquo cliente.

E o caramujinho foi. E foi. E foi. O lugar parecia nunca chegar. Que jardim distante! De terminal em terminal, de ônibus em ônibus, o pequeno molusco morria de calor dentro de sua carapaça que ardia sob o sol daquela tarde abafada. Desceu já atrasado, às pressas, quando viu que o enésimo ônibus que pegara não chegaria onde deveria. E o caramujinho andou. Andou. Andou. Mal havia muco suficiente para se arrastar por aquele caminho imenso, desconhecido, cheio de perigos. Resolveu perguntar a todos que apareciam

_Olá centopéia, onde fica este endereço?

_Não sei, caramujinho. Por que não pergunta àqueles cupins?

_Olá cupins, onde fica este endereço?

_Não sabemos, caramujinho. Por que não pergunta àquele louva-a-deus?

_Olá louva-a-deus, onde fica este endereço?

_Não sei, caramujinho. Por que não pergunta àquela aranha?

O caramujinho se sentiu perdido num imenso formigueiro, sem saber aonde ir. Por sorte sua joaninha-madrinha lhe telefonou, procurou o endereço na internet e corrigiu a rota do pequeno caramujo, já tão cansado e apreensivo.

_Olá caramujinho, você já andou tanto, mas agora nem está tão longe. Continue à direita, naqueles arbustos.

_Obrigado fada-joaninha. Serei eternamente grato.

Mas o pior estava pior vir: quando chegou à esquina do jardim, viu um imenso vale que deveria atravessar. Era tão colossal, e o caramujinho já estava tão cansado e atrasado, que só conseguiu pensar no Ice Blue, dos Racionais MCs, falando, em A Vítima:

“MANO, FOI UM ARREGAÇO!...”

E o caramujinho desceu o vale infindável.

Desceu.

Desceu.

Desceu.

No ponto mais fundo, sentiu o ar faltando como se estivesse no fundo do oceano.

Subiu.

Subiu.

Subiu.

O vento quente lhe ardia nos pulmões, o suor deixava seu corpo ainda mais escorregadio dentro do casco. Achou que ia infartar, de tanto que o coração palpitava.

Chegou ao local, com saudade de um banho relaxante em seu cogumelo, na companhia de sua caramujinha.

Suou de derramar cascatas enquanto esperava o cliente, sob os olhares enviesados da secretária taturana.

Quando finalmente foi atendido, naquele ambiente impessoal de grande fábrica, e foi formalmente apresentado pelo rola-bosta ao décimo terceiro trabalho de Hércules, aquele que ele recusou porque não ia dar tempo.

_Quanto você cobra por isso?

_Dez flores murchas.

_Tudo isso? Só posso pagar três.

_Esse preço é ridículo.

_O outro caramujo fez por duas flores. E nem estavam murchas.

_É, e o trabalho ficou uma merda.

_Ah, faz um desconto, vai. Quatro flores, ta bom?

O caramujinho pensou em torturar aquele ganancioso rola-bosta e todos os seus familiares. Mas havia viajado tanto até ali, o dia havia sido tão cansativo, que acabou aceitando.

Na saída, tentando minimizar seu prejuízo pessoal, inquiriu o besouro pão-duro:

_Pô seu rola-bosta, você me ensinou o caminho errado, não é possível. Tive que deslizar tanto que até me faltou muco pra voltar agora. Atravessei um longo jardim, canteiros estranhos e um vale gigantesco... e ontem você disse que era pertinho!...

_Ah, você veio de ônibus? O caminho era pra vir de carro! De ônibus tem um ponto ali pertinho, na esquina.

¬¬

Sentindo-se um caramujo prostituído, passou num boteco para comprar uma cerveja e dar uma conferida no final da Champions League.

Achou um velho com uma camisa do Corinthians na esquina. Perguntou a ele se o ônibus desejado passava ali, para então emendar:

_Hoje tem Coringão, hein? Dois a zero no Vasquinho?

_Opa, hoje a gente ganha fácil.

Ele jamais havia puxado conversa com um estranho, em toda a sua lenta vida. Alguma coisa havia mudado naquela tarde baça, e era a expressão estóica de um caramujinho que acreditava mais em si.

E a noite chegou como um manto alvinegro, pousando suavemente sobre aquele coração exausto.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Tr00 be or no tr00 be (II)

Após o sucesso da minha franquia profana e blasfema da loja tr00, aguardem o lançamento da minha plataforma tr00 para o microbblogin’ e a comunicação entre os reais guerreiros pagãos satânicos misantrópicos niilistas: o Tr00witter.

Em vez daquele passarinho boiola e cristão que remete ao Espírito Santo, teremos um corvo de Odin (ainda não decidi entre Hugin ou Munin) envolto nas chamas e sob a escuridão das planícies desoladas do Hades.

As funções:

[Tomb] Porque tr00 não tem “Home”, e sim perambula pelos cemitérios a fim de misantropicar e tirar fotos posando entre as cruzes.

[Artefato] porque twitt é um som nada tr00; um blackmettaler manda artefatos contra os fracos cristãos e poseurs que infestam a cena.

[Hail] guerreiros de Lúcifer saúdam outros guerreiros, não dão “reply”.

[FanzineMimeografado] RT não, pô. Tr00 que é tr00 só passa som via fanzines tranqueira que só ele e o primo lêem.

[Quest] É mais épico que “Search”, combinando mais com as buscas solitárias dos guerreiros pelas vast paganlands.

[TrendTopics] Você não é nada kvlt, hein? Preciso citar Behemoth (encarte do Grom): “Black metal is not a trend, it's a cult”. E o fato de eles mesmo terem migrado para o death metal no disco seguinte não vem ao caso.

[Stalking_Me] Porque reais da cena profana não seguem ninguém, são misantrópicos e individualistas, esqueceu?

[Hatred tr00wits] Tr00 não favorita, porra!

[Direct scourges] Tr00 vai direto ao ponto, dando tiro na cabeça e facada nas costas. Sem frescura.

A pergunta será: What are you profanating?

Exemplo de possíveis postagens:

@ImpalerSodomizer #follow @SatanicLust666

@Euronymous #unfollow @VargVikernes

@ChristCrusher: alguém aí tem dicas para um bom corpse-paint? hipoglós ou minâncora?

“This account no longer exists (tr00wittercídio)”: vale para @Dead @JonNödtveidt @Cernunnos @Grim

@Sventevith: hail warriors! Quem vai ao #TOC (tr00witteiro on cimita) hoje?

@Hellhammer_90: Tô indo pro Inner Circle. #beijosmeempala

Venha destruir a civilização judaico-cristã em 140 caracteres você também!

segunda-feira, 25 de maio de 2009

And thus, we shall cheat Deah.

Ontem passou no Domingo Legal (OK, não riam) uma matéria sobre corpos incorruptos, múmias e igrejas ossudas, com catacumbas repletas de ossadas que formam desenhos lúgubres. Tem uma matéria que a Globo fez sei lá quando, e colocou ontem no site do Fantástico porque, provavelmente, ficou incomodada com a audiência do concorrente. Por ele, dá para ter uma idéia. À parte da morbidez fascinante das múmias, que mostram nossa impermanência, jogando-a em nossa cara da forma mais rude. Mas o que chamou a atenção é que, nesse espetáculo mortuário que a Igreja fez desse montante de cadáveres, num gigantesco memento mori, é que o sentido original daquelas mumificações foi subvertido. À parte dos corpos de santos, que entram numa questão de fé versus ciência do qual não pretendo falar no momento, pois configuram outro aspecto do necrocristianismo, chama a atenção que todas aquelas ex-pessoas pretendiam se perpetuar por meio da mumificação, e hoje são justamente prova do contrário: a de que seremos inevitavelmente esquecidos. Hoje ninguém mais conhece aquelas pessoas, nenhum contemporâneo existe mais, estão todos igualmente mortos. Ninguém engana a existência, tão pouco o limite dela. Carpe noctem.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

E sei que a poesia está para a prosa assim como o amor está para a amizade, e quem há de negar que esta lhe é superior?

Poesia é mais fácil que prosa: tem, ao mesmo tempo, mais e menos regras. Comporta mais formatos, permitem-se imagens livres, deixa livre qualquer interpretação. Escrevo versos como quem vive, como quem se cura de uma loucura qualquer. Já a prosa é doida, doída, densa, tensa. Ainda que possam se confundir, se tocar, se lamber e se beijar, numa cópula incestuosa, visto que são irmãs. Versificar me faz bem, prosear me faz mal. No entanto acendo velas a ambos, deus e diabo, numa comunhão profana do mesmo altar literário. Versos brancos, negros, livres, cativos; sonetos, odes, elegias, rondós. Tudo cabe na imensidão da poesia. Todas as imagens (im)possíveis já estão (d)escritas nas entrelinhas das estrelas em cada rima. A prosa já exige uma exposição maior, não permite a insinuação da poesia, desnuda logo, à vestes rasgadas com sofreguidão, o corpo envergonhado dos desejos inconfessáveis. Ainda não esqueci a promessa horrível. Sabia que a música é a entrega que mais se aproxima da literatura? Você poetiza nas canções e proseia nos interstícios. Agride a língua, como numa mordida léxica que arranca sangue dos significados, enquanto arranha as cordas em sons inexistentes. Êxtase blasfemo: quem possui a arte não precisa de nenhum deus. Quem é possuído por ela, torna-se o próprio demônio. A Queda se renova em cada criação.